O OLHO E A MÃO

“Entre uma cor, um gosto, um toque, um cheiro, um peso haveria uma comunicação existencial que constituiria o momento ‘pático’ (não-representativo) da sensação (…) O pintor faria então visível uma espécie de unidade original dos sentidos, e faria aparecer visualmente Figuras multisensíveis. Mas esta operação é possível apenas se a sensação de um domínio particular (aqui a sensação visual) está em contacto com um poder vital que excede todos os domínios e os atravessa a todos. Este poder é o Ritmo…”
Deleuze – A Lógica das sensações
Conheça a obra da Catarina Machado aqui

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A linha e o traço, a cor e a mancha expressam na pintura a mais radical distância, como a mais íntima união, entre o Olho e a Mão. Quando a vontade é a de alcançar a semelhança entre o que se faz e o que se vê, a linha que o olho percebe impõe-se como regra ao traço que a mão executa. A cor que o olho reconhece como igual à do modelo determina a mancha de tinta que a mão semeia. O que o olho re-conhece a mão copia. Não que a mão pinte apenas o possível. Há lugar para grandes alucinações do olhar, para imagens de sonhos, para a fabulação de mundos e de deuses. Não que o olho não conheça nada sobre a mão. Pelo contrário, há uma grande mão receptiva no olho e só tacteando se pode ver a rugosidade do mundo, a sua profundidade, os seus contornos. Como há um grande olho na mão que a guia quando se lança no ar para apanhar o entrevisto.

A geometria não precisa na verdade da mão. A cor também não. Podemos ver pontos, linhas, planos e volumes sem que a mão as tenha de traçar. O tom das cores e a sua luminosidade variam sem que a mão as possa tocar. Há um puro espaço óptico onde a mão é só um entretanto, um entrave, um atrito. O próprio táctil pode desaparecer, tudo se alisa, tudo se planifica, todas as partes se diluem como divisão de um todo. Vê-se já de olhos fechados. Compõe-se com figuras ante-vistas. Um quadro pode ser uma divisão em quadrados pintados de cores primárias. Um quadro pode ser pintado de uma só côr. A relação entre a obra que se vê e a explicação que se ouve chegam aí a inverter-se. Vê-se o que se pré-entende. Já não se precisa da mão, escolhe-se: Ready Made.

Traçar linhas enlouquecidas, por seu lado, não precisa na verdade do olho. Manchar também não. Podemos fazer marcas, traços, cortes, dobragens sem a ordem de um olhar. O tipo de manuseamento e a sua intensidade variam sem que se possam realmente ver. Há um puro espaço manual onde o olho é mero espectador. O próprio óptico pode desaparecer, tudo é manuseamento. Um quadro pode ser a acção de pintar. Um quadro pode ser dançar sobre uma tela. A relação entre fazer e dizer chegam aí a inverter-se. Faz-se o que se pré-entende. Já não se precisa do olho, decide-se: Performance.

O mural Bizantino e a linha gótica já encenavam nos primórdios esta oscilação entre o olho e a mão com o desejo e o entendimento pelo meio. Sem duvida que a representação clássica, que depois deles investiu no espaço puro da geometria e no simulacro da perspectiva, em busca da representação das formas inteligíveis no mundo sensível, relançou um espaço óptico-táctil com a sua figuração, a sua ilustração e narratividade. O olho Senhor reinou aí sobre uma mão escrava, sob o império de uma voz e das suas explicações e histórias, o querer celeste desprezando todo o desejo terrestre. A acção foi reduzida aí à execução, segundo o plano do olho e os fins de uma só voz omnipresente, omnisciente, omnipotente. Esta regerá a representação, determinando as essências figuradas, a sua relação distribuída num fundo orgânico, enquanto partes de um todo organizado.

Todo este organismo estremece quando lhe falta a Voz que lhe daria a unidade de um todo, a fundação de um mundo, o fundamento de uma verdade. O olho alucina, a mão enlouquece. O quadro faz-se de uma moldura e de uma cor ou de traços e manchas que a preenchem totalmente. Com o abstraccionismo e o expressionismo abstracto, o olho e a mão modernos erguem-se perante um céu surdo e mudo. É por isso normal que se fale continuamente do fim: o fim da pintura. O seu termo porque perdida a sua finalidade sagrada. Fala-se e ouve-se sobre o fim enquanto a mão pinta e o olhar aprecia o que sempre volta a falar e se faz ouvir: a vida.

Pintar nunca foi afinal falar mas sentir. O seu fim nunca foi tanto alcançar um enunciado organizado como em compor uma sensação durável à altura dos fins regentes. O seu papel na figuração, na ilustração, na narrativa, sempre foi mais o de devolver a sensação à explicação do que de a complementar, muito menos de a substituir. Usar a pintura para explicar apenas nos distrai um pouco de a experimentar, de nos embrenharmos na sensação que compõe, de lhe testar os limites. Falar aqui de fins é apenas adiar para um pouco mais tarde o querer fazer e ver pintura. Talvez um momento de luto, talvez uma impotente melancolia.

Quando o artista pinta querendo compor uma sensação clara e durável, ele pode recorrer a traços frenéticos e manchas, pode planear linhas e cores, pode combinar ao acaso a mão e o olho, mas não deve pensar que no fim a sensação se pode garantir com uma explicação. A sensação resiste às ordens das explicações. A sensação faz-se da modulação de forças mais do que da determinação de formas ou códigos, é sensível à riqueza de materiais mais do que à qualidade de substâncias ou meios.

O artista que sabe isto avança sobre a tela com a mão e o olho antes de se pôr a falar: “Vejamos o que a mão diz, façamos o que o olho ouve”. Não será representando as cidades grafitadas ou narrando as aventuras no mar dos surfistas que o artista poderá compor a sensação de vivermos hoje, segundo linhas velozes num espaço sub-atómico, mas como células co-habitando numa lamela ampliada. O invisível nunca virá numa fotografia, mas pode fazer-se visível na pintura, diria Klee. Talvez já não seja apenas a experiencia existencial de pintar, de ser o agente da pintura, a acção de uma mão cega, como fazia Pollock. Talvez já não seja a imersão transcendental, de se ver dinâmica num puro espaço-tempo, a visão de um olho maneta, como abstraía Mondrian. Talvez seja uma afirmação do jogo de ambos, mão e olho, em determinação recíproca, como encontramos, de forma exemplar, em Catarina Machado.

CATA 2 2A tela, a artista sabe-o, não contem já eixos ortogonais, segundo uma perspectiva única, mas contém um espaço por onde a mão pode entrar, que um traço pode abrir de cima a baixo, da direita para esquerda e em todas as diagonais. O gesto ocupa o espaço da arquitectura. A tela não reflecte ainda as cores do mundo, mas contém já uma temperatura geral que as manchas podem aquecer ou arrefecer, iluminar ou escurecer. O olhar demora-se pela cor do solo sob o calor do sol. A mão embrenhou-se de um saber puro do olho e vice-versa. A tela não é já um plano organizado, mas também não é um caos informe. Ela é o lugar da composição de sensações animadas em figuras estéticas que encarnam o acontecimento: a Vida. A tela assiste a uma continua catástrofe e génese, sobrepondo-se em profundidade e espessura, a figura e o plano de composição sucumbindo e erguendo-se a cada novo traço, a cada nova mancha, tudo tendo dinâmica como fazendo linha, tudo tendo densidade como temperando a cor. Ergue-se na obra da Catarina um mundo e, com ele, a sensação da vida no mundo. Em tudo, uma actualidade, nas linhas como nas cores, que permanecerá indizível enquanto permanecer actual. As forças captam-se, não se enunciam. Fala-se, mas com uma nova linguagem analógica.

A tela branca aguarda cheia de clichés que querem o reconhecimento, a reprodução, a cópia, a sua organização pré-visível: a tela é já a expectativa das experiências passadas. Ela contém na verdade já uma infinidade de eixos de ordenadas e coordenadas à espera de serem activadas por um traço, uma mancha, um olhar. A artista tem de se libertar do hábito de ver e de fazer. Avançar sobre a tela é sentir-se aí na necessidade de reduzir os meios ao essencial. O que é necessário para moldar um bloco de sensações durável, capaz de se manter de pé sem grande explicações ou entendimentos? Linhas, cores, um fundo, responderá a artista, nada mais. Mas linhas e cores que emerjam dos mais imprevisíveis traços e manchas sobre o plano. Os traços fazem-se já planos, as manchas fazem-se já linhas, tudo transborda das telas para as molduras e as paredes.

Há, dando consistência a tudo, um ritmo. Muito presente, muito visível. Um ritmo actual, que nos percorre a todos. Não é um reconhecimento, é a ressonância de uma sensação quotidiana: o ritmo dos nossos dias.

Amostra de obras do "período" 2000-2005

Amostra de obras do "período" 2000-2005

Catarina enfrenta o caos e a cada empreitada modula-se uma nova linguagem. As obras sucedem-se na exploração de todo um espaço óptico-tactil re-descoberto onde se compõem sensações inauditas (e no entanto, tão imediatas nos surgem as obras na sua empatia com o olhar actual). Inventa-se uma linguagem microfísica, feito de forças inorgânicas, e os mundos sucedem-se, tela atrás de tela, tela sobre tela, tela entre tela.

CATA MOLECULAS 2

2005

CATA MOLECULAS

2207 (?)

Acrescenta-se um novo nível molecular (porque na sensação nada se ultrapassa, apenas se repete e varia) e é todo um universo de forças orgânicas que se adensa e vibra em tons quebrados. A tinta, o spray, o pastel são tudo materiais ricos para fazer erguer uma sintaxe renovada. Há já silhuetas antropomórficas que se insinuam ao olhar nos espaços vazios entre figuras de cor.

2009

2009

Soma-se, agora, por fim uma figura assumida, lisa, de cor pura, como se balbuciasse uma presença sem profundidade nem espessura, que se vê envolta num mundo em mutação, atómico e molecular em simultâneo. Um código digital num universo analógico: homem-azul/mulher-vermelha. Um hábito de ver atirado para o meio da mutação, uma cor pura lutando pela sua forma contra manchas e traços, uma linha imergindo como superfície pressionada entre ambos.

"MOONBEAMS AND FAIRY TALES..." 2009

"MOONBEAMS AND FAIRY TALES..." 2009

"GIVES TO ME FREE... " 2009

"GIVES TO ME FREE... " 2009

"WALKING THROUGH THE CLOUDS..." 2009

"WALKING THROUGH THE CLOUDS..." 2009

A gramática destila-se então um pouco mais, as cores reduzem-se: três, quando muito quatro, as figuras fundem-se com o fundo onde se relacionam numa tensão contida. Há uma dança de acasalamento entre cotovelos e joelhos, trocos e ombros. Um lugar de encontros e articulações. Há sempre um ritmo assimétrico, reunindo tudo.

Little wing - 2009

Little wing - 2009

Quando pintar é criar linguagens por inseminação, por cruzamento, pela construção de híbridos capazes de garantir o batimento cardíaco do mundo, compor sensações não se determina por recusas e opções (o figurativo, o abstracto, a performance, a decisão) mas por uma inclusão geral onde o ritmo se faz composição e o cérebro uma fabulosa máquina de ressonância. Pintar os ritmos vivos da vida, eis aqui o exemplo.

(conheça a catarina e o seu trabalho aqui)
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2 thoughts on “O OLHO E A MÃO

  1. sonduarte diz:

    “Vejamos o que a mão diz, façamos o que o olho ouve”

    Citação de?

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