Deleuze vs Foucault – Agenciamento vs Dispositivo de poder

“Para mim, uma primeira questão
era a natureza da microanálise
que Michel estabelecia desde VP.

Entre “micro” e “macro”,
a diferença não era evidentemente de tamanho,
no sentido em que microdispositivos seriam concernentes a pequenos grupos,
pois a família, por exemplo,
não tem menos extensão que qualquer outra formação.

Trata-se menos ainda de um dualismo extrínseco,
pois há microdispositivos imanentes ao aparelho de Estado,
assim como há segmentos de aparelho de Estado
que penetram também os microdispositivos.

Não há dualismo extrínseco,
mas imanência completa das duas dimensões.

Seria então preciso compreender que a diferença é de escala?
Uma página de VS (p. 132) recusa explicitamente essa interpretação.

Mas essa página parece remeter o macro ao modelo estratégico
e o micro ao modelo tático.

Isso incomoda, pois me parece que os microdispositivos, para Michel,
têm toda uma dimensão estratégica,
sobretudo se se levam em conta que esse diagrama
do qual são eles inseparáveis.

Uma outra direção seria a das “relações de força”,
vistas como aquilo que determina o micro
(cf., notadamente, a entrevista publicada em La Quinzaine).
Mas Michel, creio eu, não desenvolveu ainda esse ponto;
sua concepção original das relações de força,
o que ele denomina relação de força,
deve ser um conceito tão novo quanto todo o resto.

Em todo caso, há diferença de natureza,
heterogeneidade entre micro e macro,
o que de modo algum exclui a imanência dos dois.

Mas, no limite, minha questão seria a seguinte:
essa diferença de natureza permite que se fale ainda
em dispositivos de poder?

A noção de Estado não é aplicável no nível de uma microanálise,
pois, como diz Michel, não se trata de miniaturizar o Estado.

Mas seria mais aplicável a noção de poder?
Não é também ela a miniaturização de um conceito global?

Chego, assim, a minha primeira diferença com Michel, atualmente.

Se com Félix Guattari, falo em agenciamento de desejo,
é por não estar seguro de que os microdispositivos
possam ser descritos em termos de poder.

Para mim, agenciamento de desejo
marca que o desejo jamais é uma determinação “natural”, nem “espontânea”.

Por exemplo,
a feudalidade é um agenciamento
que põe em jogo novas relações
com o animal (o cavalo),
com a terra,
com a desterritorialização (a corrida do cavaleiro, a Cruzada),
com as mulheres (o amor cavalheiresco)… etc.

Agenciamentos totalmente loucos,
mas sempre historicamente assinaláveis.

De minha parte,
diria que o desejo circula nesse agenciamento de heterogêneos,
nessa espécie de “simbiose”:
o desejo une-se a um agenciamento determinado;
há um co-funcionamento.

Seguramente, um agenciamento de desejo
comportará dispositivos de poder
(poderes feudais, por exemplo),
mas será preciso situá-los entre os diferentes componentes do agenciamento.

Conforme um primeiro eixo,
pode-se descobrir nos agenciamentos de desejo
os estados de coisas e as enunciações
(o que estaria em conformidade com a distinção feita por Michel
dos dois tipos de formações ou de multiplicidades).

Conforme um outro eixo,
seriam distinguidas as territorialidades ou reterritorializações
e os movimentos de desterritorialização
que desencadeiam um agenciamento
(por exemplo, todos os movimentos de desterritorialização
que arrebatam a Igreja, a cavalaria, os camponeses).

Os dispositivos de poder surgiriam em toda parte
em que se operam reterritorializações, mesmo abstratas.

Logo, os dispositivos de poder
seriam um componente dos agenciamentos.

Mas os agenciamentos também comportariam pontas de desterritorialização.

Em suma, não seriam os dispositivos de poder
que agenciariam ou que seriam constituintes,

mas os agenciamentos de desejo
é que disseminariam formações de poder

segundo uma de suas dimensões.

Isso me permitiriam responder a seguinte questão,
necessária para mim, mas não para Michel:

como o poder pode ser desejado?

Portanto, a primeira diferença seria esta:
para mim o poder é uma afecção do desejo
(reafirmando-se que jamais o desejo é uma “realidade natural”).

Tudo isso é muito aproximativo:
há relações mais complicadas,
que não aponto, entre os dois movimentos,
de desterritorialização e de reterritorialização.

Mas é nesse sentido que o desejo me pareceria ser primeiro,
apresentando-se, assim, como elemento de uma microanálise.”

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