Deleuze vs Foucault – Agenciamento vs Dispositivo de poder

“Para mim, uma primeira questão
era a natureza da microanálise
que Michel estabelecia desde VP.

Entre “micro” e “macro”,
a diferença não era evidentemente de tamanho,
no sentido em que microdispositivos seriam concernentes a pequenos grupos,
pois a família, por exemplo,
não tem menos extensão que qualquer outra formação.

Trata-se menos ainda de um dualismo extrínseco,
pois há microdispositivos imanentes ao aparelho de Estado,
assim como há segmentos de aparelho de Estado
que penetram também os microdispositivos.

Não há dualismo extrínseco,
mas imanência completa das duas dimensões.

Seria então preciso compreender que a diferença é de escala?
Uma página de VS (p. 132) recusa explicitamente essa interpretação.

Mas essa página parece remeter o macro ao modelo estratégico
e o micro ao modelo tático.

Isso incomoda, pois me parece que os microdispositivos, para Michel,
têm toda uma dimensão estratégica,
sobretudo se se levam em conta que esse diagrama
do qual são eles inseparáveis.

Uma outra direção seria a das “relações de força”,
vistas como aquilo que determina o micro
(cf., notadamente, a entrevista publicada em La Quinzaine).
Mas Michel, creio eu, não desenvolveu ainda esse ponto;
sua concepção original das relações de força,
o que ele denomina relação de força,
deve ser um conceito tão novo quanto todo o resto.

Em todo caso, há diferença de natureza,
heterogeneidade entre micro e macro,
o que de modo algum exclui a imanência dos dois.

Mas, no limite, minha questão seria a seguinte:
essa diferença de natureza permite que se fale ainda
em dispositivos de poder?

A noção de Estado não é aplicável no nível de uma microanálise,
pois, como diz Michel, não se trata de miniaturizar o Estado.

Mas seria mais aplicável a noção de poder?
Não é também ela a miniaturização de um conceito global?

Chego, assim, a minha primeira diferença com Michel, atualmente.

Se com Félix Guattari, falo em agenciamento de desejo,
é por não estar seguro de que os microdispositivos
possam ser descritos em termos de poder.

Para mim, agenciamento de desejo
marca que o desejo jamais é uma determinação “natural”, nem “espontânea”.

Por exemplo,
a feudalidade é um agenciamento
que põe em jogo novas relações
com o animal (o cavalo),
com a terra,
com a desterritorialização (a corrida do cavaleiro, a Cruzada),
com as mulheres (o amor cavalheiresco)… etc.

Agenciamentos totalmente loucos,
mas sempre historicamente assinaláveis.

De minha parte,
diria que o desejo circula nesse agenciamento de heterogêneos,
nessa espécie de “simbiose”:
o desejo une-se a um agenciamento determinado;
há um co-funcionamento.

Seguramente, um agenciamento de desejo
comportará dispositivos de poder
(poderes feudais, por exemplo),
mas será preciso situá-los entre os diferentes componentes do agenciamento.

Conforme um primeiro eixo,
pode-se descobrir nos agenciamentos de desejo
os estados de coisas e as enunciações
(o que estaria em conformidade com a distinção feita por Michel
dos dois tipos de formações ou de multiplicidades).

Conforme um outro eixo,
seriam distinguidas as territorialidades ou reterritorializações
e os movimentos de desterritorialização
que desencadeiam um agenciamento
(por exemplo, todos os movimentos de desterritorialização
que arrebatam a Igreja, a cavalaria, os camponeses).

Os dispositivos de poder surgiriam em toda parte
em que se operam reterritorializações, mesmo abstratas.

Logo, os dispositivos de poder
seriam um componente dos agenciamentos.

Mas os agenciamentos também comportariam pontas de desterritorialização.

Em suma, não seriam os dispositivos de poder
que agenciariam ou que seriam constituintes,

mas os agenciamentos de desejo
é que disseminariam formações de poder

segundo uma de suas dimensões.

Isso me permitiriam responder a seguinte questão,
necessária para mim, mas não para Michel:

como o poder pode ser desejado?

Portanto, a primeira diferença seria esta:
para mim o poder é uma afecção do desejo
(reafirmando-se que jamais o desejo é uma “realidade natural”).

Tudo isso é muito aproximativo:
há relações mais complicadas,
que não aponto, entre os dois movimentos,
de desterritorialização e de reterritorialização.

Mas é nesse sentido que o desejo me pareceria ser primeiro,
apresentando-se, assim, como elemento de uma microanálise.”

Com as etiquetas , , , , , , , , ,

Filosofia e Arte – não, não somos “pós-modernistas”…


A diferença entre
os PERSONAGENS conceituais
e as FIGURAS estéticas
consiste de início no seguinte:

uns são potências de CONCEITOS,
os outros, potências de AFECTOS e de PERCEPTOS.

Uns operam sobre um PLANO DE IMANÊNCIA
que é uma imagem de Pensamento-Ser (númeno),
os outros, sobre um PLANO DE COMPOSIÇÃO
como imagem do Universo (fenômeno).

(…)

O que se conserva, a coisa ou a obra de arte,
é um bloco de SENSAÇÕES,
isto é, um composto de perceptos e afectos.

Os perceptos não mais são percepções,
são independentes do estado daqueles que os experimentam;

os afectos não são mais sentimentos ou afecções,
transbordam a força daqueles que são atravessados por eles.

As SENSAÇÕES,
perceptos e afectos,
são seres que valem por si mesmos
e excedem qualquer vivido.

Existem na ausência do homem,
podemos dizer,
porque o homem,
tal como ele é fixado
na pedra, sobre a tela ou ao longo das palavras,
é ele próprio um composto de perceptos e de afectos.

A obra de ARTE é um ser de SENSAÇÃO,
e nada mais: ela existe em si

A SENSAÇÃO composta,
feita de perceptos e de afectos,
des-territorializa o sistema da OPINIÃO
que reunia as percepções e afecções dominantes
num meio natural, histórico e social.

Mas a SENSAÇÃO composta
se reterritorializa
sobre o PLANO DE COMPOSIÇÃO,
porque ela ergue suas casas sobre ele,
porque ela se apresenta nele
em molduras encaixadas
ou extensões articuladas
que limitam seus componentes,

paisagens tornadas puros perceptos,
personagens tornados puros afectos.

E, ao mesmo tempo, o PLANO DE COMPOSIÇÃO
arrasta a SENSAÇÃO
numa desterritorialização superior,
fzendo-a passar por uma espécie de desenquadramento
que a abre e a fende sobre um cosmos infinito.

Como em Pessoa,
uma sensação, sobre o plano,
não ocupa um lugar sem estendê-lo,
distendê-lo pela Terra inteira,
e liberar todas as sensações que ela contém:
abrir ou fender,
igualar o infinito.

Talvez seja próprio da arte
passar pelo finito para reencontrar, restituir o infinito.

Os seres da sensação são VARIEDADES,
como os seres de conceitos são VARIAÇÕES
e os seres de função são VARIÁVEIS.

O que é a (Filosofia+Ciência+Arte) x (Condições + Incógnitas + Soluções)

O que define o PENSAMENTO,
as três grandes formas do pensamento,
a ARTE,
a CIÊNCIA
e a FILOSOFIA,

é sempre enfrentar o caos,
traçar um plano,
esboçar um plano sobre o caos.

Mas a FILOSOFIA
quer salvar o infinito,
dando-lhe consistência:
eLa traça um plano de IMANÊNCIA,
que leva até o infinito acontecimentos
ou CONCEITOS consistentes,
sob a ação de PERSONAGENSconceituais.

A CIÊNCIA, ao contrário,
renuncia ao infinito
para ganhar a REFERÊNCIA:
ela traça um plano de coordenadas somente indefinidas,
que define sempre estados de coisas,
FUNÇÕES ou proposições referenciais,
sob a ação de OBSERVADORES parciais.

A ARTE
quer criar um finito que restitua o infinito:
traça um plano de COMPOSIÇÃO 
que carrega por sua vez monumentos
ou SENSAÇÕES compostas,
sob a ação de FIGURAS estéticas.

As três vias são específicas,
tão directas umas como as outras,
e se distinguem
pela natureza do plano
e daquilo que o ocupa.

Pensar é pensar

por conceitos,
ou então por funções,
ou ainda por sensações,

e nenhum desses pensamentos é melhor que um outro,
ou mais plenamente,
mais completamente,
mais sinteticamente “pensado”.

As molduras da arte não são coordenadas científicas,
como as sensações não são conceitos ou o inverso.
(…)

Os três pensamentos se cruzam, se entrelaçam,
mas sem síntese nem identificação.

A filosofia faz surgir ACONTECIMENTOS
com seus conceitos,

a arte ergue MONUMENTOS
com suas sensações,

a ciência constrói ESTADOS DE COISAS
com suas funções.

Um rico tecido de correspondências
pode estabelecer-se entre os planos.

Mas a rede tem seus pontos culminantes,

onde a SENSAÇÃO
se torna ela própria sensação de conceito, ou de função;

o CONCEITO,
conceito de função ou de sensação;

a FUNÇÃO,
função de sensação ou de conceito.

E um dos elementos não aparece,
sem que o outro possa estar ainda por vir,
ainda indeterminado ou desconhecido.

Cada elemento criado sobre um plano
apela a outros elementos heterogêneos,
que restam por criar sobre outros planos:

o pensamento como heterogênese.

É verdade que estes pontos culminantes
comportam dois perigos extremos:
ou reconduzir-nos à OPINIÃO da qual queríamos sair,
ou nos precipitar no CAOS que queríamos enfrentar.

FILOSOFIA CIÊNCIA ARTE  PROBLEMÁTICO
PLANO(dx; dy) Imanência(imagem pensamento) Referência(eixo coordenadas) Composição(harmonias e melodias) GOSTO
INCÓGNITAS(dy/dx) Personagens Conceptuais Observador Parcial Figuras Estéticas
SOLUÇÃO(valores de dy/dx) ConceitoAcontecimentoVariações insepráveis FunçãoEstado de CoisasVariáveis independentes SensaçãoMonumentosVariedades

(…)

Os seres da sensação são VARIEDADES,
como os seres de conceitos são VARIAÇÕES
e os seres de função são VARIÁVEIS.

Já agora, recorde-se aqui, do “Diferença e Repetição

“O símbolo dx aparece ao mesmo tempo
como indeterminado,
como determinável
e como determinação.

A estes três aspectos
correspondem três princípios
que formam a razão suficiente:

ao indeterminado como tal (dx, dy),
corresponde um princípio de determinabilidade;

ao realmente determinável ( dy/dx ),
corresponde um princípio de determinação recíproca;

ao efetivamente determinado (valores de dy/dx ),
corresponde um princípio de determinação completa.”

p.287 – “Sintese Ideal da Diferença”

O PROBLEMA e a QUESTÃO – para além do negativo

O PROBLEMA e a QUESTÃO
não são determinações subjetivas, privativas,
marcando um momento de insuficiência no conhecimento.

A ESTRUTURA PROBLEMÁTICA
faz parte dos objetos e permite apreendê-los como signos,

assim como a instância questionante ou problematizante

faz parte do conhecimento e permite apreender-lhe a positividade,
a especificidade no ato de aprender.

Mais profundamente ainda, é o Ser (Platão dizia a Idéia)
que “corresponde” à ESSÊNCIA DO PROBLEMA ou da QUESTÃO como tal.

Há como que uma “abertura”, uma “fenda”,
uma “dobra” ontológica que reporta o ser e a questão um ao outro.
NESTA RELAÇÃO, O SER É A PRÓPRIA DIFERENÇA.

O ser é também não-ser,

mas o não-ser
não é o ser do negativo,

É O SER DO PROBLEMÁTICO,

o ser do problema e da questão.

A diferença não é o negativo;
ao contrário, o não-ser é que é a Diferença:

Eis por que o não-ser deveria antes ser escrito

(não)- ser,
ou, melhor ainda, ?- SER.

Acontece, neste sentido, que o infinitivo, o esse,
designa menos uma proposição que a interrogação
que se supõe esteja sendo respondida pela proposição.

Este (não)- ser é o Elemento diferencial em que a afirmação,
como afirmação múltipla, encontra o princípio de sua génese.

Quanto à negação,
ela é apenas a sombra deste mais elevado princípio,
a sombra da diferença ao lado da afirmação produzida.

Quando confundimos o (não)- ser com o negativo,
é inevitável que a contradição seja levada ao ser;

mas a contradição é ainda a aparência ou o epifenômeno,
a ilusão projectada pelo problema,
a sombra de uma questão que permanece aberta

e do ser que, como tal,
corresponde a esta questão (antes de lhe dar uma resposta).

Já não é neste sentido que a contradição caracteriza, em Platão,
o estado dos diálogos ditos aporéticos?

Para além da contradição,
a diferença

para além do não-ser,
o (não)- ser; ?-SER

para além do negativo,
O PROBLEMA E A QUESTÃO

DE LO PROBLEMÁTICO – Singularidade e Acontecimento

NOVENA SERIE
DE LO PROBLEMÁTICO
¿Qué es un acontecimiento ideal?
Es una singularidad.
O mejor, es un conjunto de singularidades,
de puntos singulares que caracterizan
una curva matemática,
un estado de cosas físico,
una persona psicológica y moral.

Son puntos de retroceso, de inflexión, etc.;
collados, nudos, focos, centros;
puntos de fusión, de condensación, de ebullición, etc.;
puntos de lágrimas y de alegría, de enfermedad y de salud,
de esperanza y de angustia,
puntos llamados sensibles.

Tales singularidades no se confunden sin embargo
con la personalidad de quien
se expresa en un discurso,
ni con la individualidad de un estado de cosas
designado por una proposición,
ni con la generalidad o la universalidad de un concepto
significado por la figura o la curva.

La singularidad forma parte de outra dimensión diferente
de la designación,
de la manifestación
o de la significación.

La singularidad es esencialmente
pre-individual,
no personal,
a-conceptual.

Es completamente indiferente
a lo individual y a lo colectivo,
a lo personal y a lo impersonal,
a lo particular y a lo general;
y a sus oposiciones.
Es neutra.

En cambio, no es «ordinaria»:
el punto singular se opone a lo ordinario.1

(…)

Una doble lucha tiene por objeto

impedir

cualquier confusión dogmática
del acontecimiento con la esencia,

pero también cualquier confusión empirista
del acontecimiento con el accidente.

El modo del acontecimiento es lo problemático.

No debe decirse que hay acontecimientos problemáticos,
sino que los acontecimientos
conciernen exclusivamente a los problemas
y definen sus condiciones.

En las bellas páginas en que opone

una concepción teoremática
y una concepción problemática

de la geometría,
el filósofo neoplatónico Proclo

define el problema
por los acontecimientos
que afectan a una materia lógica
(secciones, ablaciones, adjunciones, etc.),

mientras que el teorema
concierne a las propiedades
que se dejan deducir de una esencia.4

El acontecimiento es por sí mismo
problemático
Y problematizante.

En efecto, un problema
sólo está determinado
por los puntos singulares
que expresan sus condiciones.

No decimos que el problema quede por ello resuelto:
al contrario, está determinado como problema.

Por ejemplo,
en la teoría de las ecuaciones diferenciales

la existencia y la distribución de las singularidades
son relativas a un campo problemático
definido por la ecuación como tal.

En cuanto a la solución
no aparece sino con las curvas integrales
y la forma que toman en la cercanía de las singularidades,
en el campo de vectores.

Entonces,
resulta que un problema tiene siempre la solución que merece
según las condiciones que lo determinan
en tanto que problema;

y, en efecto,
las singularidades
presiden la génesis de las soluciones de la ecuación.

Lo que no obsta, como decía Lautman,

para que la instancia-problema
y la instancia-solución

difieran por naturaleza5

como el acontecimiento ideal
y su efectuación espacio temporal.

De este modo, debemos romper
con una larga costumbre de pensamiento
que nos hacía considerar lo problemático
como una categoría subjetiva de nuestro conocimiento,
un momento empírico que señalaría solamente
la imperfección de nuestros trámites,
la triste necesidad en la que nos encontramos
de no saber de antemano,
y que desaparecería con el saber adquirido.

Por más que el problema
sea recubierto por las soluciones,
sigue subsistiendo en la Idea
que lo remite a sus condiciones,
y que organiza la génesis de las soluciones mismas.

Sin esta Idea,
las soluciones no tendrían sentido.

Lo problemático es, a la vez,
una categoría objetiva del conocimiento
y un género de ser perfectamente objetivo.

«Problemático» califica precisamente
las objetividades ideales.

Kant fue sin duda el primero
en hacer de lo problemático,
no una incertidumbre pasajera,
sino el objeto propio de la Idea,
y por ello también un horizonte indispensable
para todo lo que ocurre o aparece.

Podemos concebir entonces de un nuevo modo
las relaciones
de las matemáticas
y el hombre:

no se trata de
cuantificar ni de medir
las propriedades humanas,

sino de problematizar los acontecimientos humanos
por una parte,
y por otra,
de desarrollar como acontecimientos humanos
las condiciones de un problema.

5 Véase Albert Lautman,
Essai sur les notions de structure et d’existence en mathématiques,
Hermann, 1938, t. II, págs. 148-149; y
Nouvelles recherches sur la structure dialectique des mathématiques,

Hermann, 1939, págs. 13-15.

Y sobre el papel de las singularidades,
Essai, II,
págs. 138-139;
y Le problème du temps,
Hermann, 1946, págs. 41-42.

Sentido-Acontecimento / Expressável – Atributo / Proposição – Coisas

Tercera Serie,  De la Proposición

El sentido
es la cuarta dimensión de la proposición.

Los estoicos la descubrieron con el acontecimiento:
el sentido
es lo expresado de la proposición,
este incorporal en la superficie de las cosas,
entidad compleja irreductible,
acontecimiento puro que insiste o subsiste en la proposición.

Por segunda vez en el siglo XIV,
se hizo este descubrimiento en la escuela de Ockham,
por Gregorio de Rimini y Nicolas de Autrecourt.

Una tercera vez, a fines del XIX,
por el gran filósofo y lógico Meinong.   8

Hay sin duda razones para estos momentos:

hemos visto que el descubrimiento estoico
suponía una inversión del platonismo;

del mismo modo, la lógica ockhamiana
reaccionaba contra el problema de los Universales;

y Meinong,
contra la lógica hegeliana y su descendencia.

La cuestión es la siguiente:
¿hay algo, aliquid,
que no se confunde
ni con la proposición o los términos de la proposición,

ni con el objeto o estado de cosas que ésta designa,

ni con la vivencia, la representación ola actividad mental
de quien se expresa en la proposición,

ni con los conceptos, o ,incluso las esencias significadas?

El sentido,
lo expresado de la proposición,

sería entonces irreductible

a los estados de cosas individuales,
y a las imágenes particulares,
y a las creencias personales,
y a los conceptos universales y generales.

Los estoicos supieron decirlo:

ni palabra,
ni cuerpo,
ni representación sensible,
ni representación racional   9

E incluso puede que el sentido fuera «neutro»,
completamente indiferente
tanto a lo particular como a lo general,
a lo singular como a lo universal,
a lo personal y a lo impersonal.

Tendría – una naturaleza completamente diferente.

Pero ¿es preciso reconocer una instancia tal, suplementaria;
o debemos arreglárnoslas con las que ya tenemos,
la designación,
la significación
y la manifestación?

(1 OK – NOK Logicismo)
En cada época se reanuda la polémica
(André de Neufchâteau y Pierre d’Ailly contra Rimini,
Brentano y Russell contra Meinong).

Y es que, verdaderamente,
el intento de hacer aparecer esta cuarta dimensión
es un poco como la caza del Snark de Lewis Carroll.

Puede que sea la caza misma,
y el sentido sea el Snark.

Es difícil contestar a quienes quieren bastarse
con palabras,
cosas,
imágenes
e ideas.

Porque ni siquiera puede decirse del sentido que exista:
ni en las cosas
ni en el espíritu,

ni con una existencia física
ni con una existencia mental. ¿

Puede decirse al menos que es útil,
que hay que admitirlo en razón de su utilidad?

Ni siquiera,
ya que está dotado de un esplendor ineficaz,
impasible y estéril.

Por ello décimos que de hecho
no puede ser inferido  sino indirectamente,
a partir del círculo al que nos arrastran las dimensiones ordinarias de la proposición.

Solamente hendiendo el círculo,
como se hace con el anillo de Moebius,
desplegándolo en su longitud, destorciéndolo,
la dimensión del sentido aparece por sí misma
y en su irreductibilidad,

pero también con su poder de génesis,
animando entonces un modelo interior a priori de la proposición.10

La lógica del sentido está enteramente inspirada por el empirismo;
pero precisamente sólo el empirismo
sabe superar las dimensiones experimentales de lo visible
sin caer en las Ideas,
y acosar, invocar, y tal vez producir un fantasma
en el límite de una experiencia alargada; desplegada.

(2 OK – NOK Fenomenologia)
Husserl denomina a esta dimensión última
expresión:
se distingue de la
designación,
de la manifestación
y dé la demostración.11

El sentido es lo expresado.

Husserl,
no menos que Meinong,
reencuentra las fuentes vivas de una inspiración estoica.

Cuando Husserl se interroga,
por ejemplo,
por el «noema perceptivo»
o «sentido de la percepción»,
lo distingue a la vez del objeto físico,
de la vivencia psicológica,
de las representaciones mentales
y de los conceptos lógicos.

Lo presenta como un impasible,
un incorporal,
sin existencia física
ni mental,
que ni hace ni padece,
puro resultado,
pura «apariencia»:
el árbol real (lo designado)
puede arder,
ser sujeto y objeto de acción,
entrar en mezclas;

pero no el noema de árbol.

Hay muchos noemas
o sentidos
para un mismo designado:
lucero de la mañana
y lucero de la tarde
son dos noemas,
es decir,
dos modos que tiene de presentarse
un mismo designado
en unas expresiones.

Pero cuando Husserl dice
que el noema es lo percibido
tal como aparece en presencia,
«lo percibido como tal»
o la apariencia,
no debemos por ello entender que se trata
de un dato sensible o de una cualidad,
sino al contrario
de una unidad ideal objetiva
como correlato intencional
del acto de percepción.

Un noema cualquiera
no está dado en una percepción
(ni en un recuerdo o en una imagen),
tiene un estatuto completamente diferente
que consiste en no existir
fuera de la proposición que lo expresa,
proposición perceptiva,
de recuerdo
o de representación.

Del verde como color sensible o cualidad,
distinguimos el «verdear»
como color noemático o atributo.

El árbol verdea,
¿no es acaso, finalmente,
éste el sentido del color del árbol,
y el árbol arborifica,
su sentido global? ¿

Qué es el noema sino un acontecimiento puro,
el acontecimiento árbol
(aunque Husserl no hable así por razones terminológicas)?

Y lo que se denomina apariencia,
¿qué es sino un efecto de superficie?

Entre los noemas de un mismo objeto,
o incluso de objetos diferentes,
se elaboran lazos complejos,
análogos a los que la dialéctica estoica establece entre los acontecimientos.
¿Será la fenomenología esa ciencia rigurosa de los efectos de superficie?
Consideremos el estatuto complejo del sentido o de lo expresado.

Por una parte,
no existe fuera de la proposición que lo expresa.
Lo expresado no existe fuera de su expresión.
Por ello, no puede decirse que el sentido exista,
sino solamente que insiste o subsiste.

Pero por otra parte,
no se confunde en absoluto con la proposición,
tiene una «objetividad» completamente distinta.
Lo expresado no se parece en nada a la expresión.

El sentido se atribuye,
pero no es en modo alguno atributo de la proposición,
es atributo de la cosa o del estado de cosas.

El atributo de la proposición es el predicado,
por ejemplo un predicado cualitativo como verde.
Se atribuye al sujeto de la proposición.

Pero el atributo de la cosa es el verbo,
verdear por ejemplo,
o mejor el acontecimiento expresado por este verbo;
y se atribuye a la cosa designada por el sujeto,
o al estado de cosas designado por la proposición en su conjunto.

Inversamente, este atributo lógico, a su vez,
no se confunde en ningún modo con el estado de cosas físico,
ni con una cualidad o relación de este estado.

El atributo no es un ser,
y no cualifica a un ser;
es un extra-ser.

Verde designa una cualidad, una mezcla de cosas,
una mezcla de árbol y de aire
donde la clorofila coexiste con todas las partes de la hoja.

Verdear,
por el contrario, no es una cualidad en la cosa,
sino un atributo que se dice de la cosa,
y que no existe fuera de la proposición
que la expresa al designar la cosa.
Y de nuevo hemos regresado a nuestro punto de partida:
el sentido no existe fuera de la proposición… etcétera.

Pero ahora no se trata de un círculo.
Es más bien la coexistencia de dos caras sin espesor,
de modo que se pasa de la una ala otra siguiendo su longitud.

De modo inseparable,
el sentido
es lo expresable o lo expresado de la proposición,
y el atributo del estado de cosas.

Tiende una cara hacia las cosas,
y otra hacia las proposiciones.

Pero no se confunde
ni con la proposición que la expresa
ni con el estado de cosas o la cualidad que la proposición designa.

Es exactamente la frontera
entre las proposiciones y las cosas.

En este aliquid,
a la vez extra-ser e insistencia,
este mínimo de ser que conviene a las insistencias.12

Es «acontecimiento» en este sentido:
la condición de no confundir el acontecimiento
con su efectuación espacio-temporal en un estado de cosas.

Así pues, no hay que preguntar cuál es el sentido de un acontecimiento:
El acontecimiento es el sentido mismo.
El acontecimiento pertenece essencialmente al lenguaje,
está en relación esencial con el lenguaje;
pero el lenguaje es lo que se dice de las cosas.

Jean Gattegno señaló claramente la diferencia
entre los cuentos de Carroll
y los cuentos de hadas clásicos:
en Carroll, todo lo que passa
pasa en el lenguaje
y pasa por el lenguaje;
«no nos cuenta una historia,
nos dirige un discurso,
un discurso en varios trozos… ».13

En este mundo plano del sentido-acontecimiento,
o de lo expresable-atributo,
es en donde Lewis Carroll instala toda su obra.

De ahí se desprende la relación entre la obra fantástica firmada Carroll
y la obra matemáticológica firmada Dodgson.

Nos parece difícil afirmar, como se ha hecho,
que la obra fantástica presenta simplemente
la recopilación de trampas y dificultades
en las que caemos cuando no observamos
las reglas y las leyes formuladas por la obra lógica.

No sólo porque muchas de estas trampas subsisten en la obra lógica misma;
sino también porque nos parece que la distribución es de otra clase.

Es sorprendente constatar que toda la obra lógica
concierne directamente a la significación,
las implicaciones y las conclusiones,
y no concierne al sentido más que indirectamente,
precisamente por mediación de las paradojas
que la significación no resuelve,
o que crea incluso.

Por el contrario,
la obra fantástica concierne inmediatamente al sentido,
y la remite directamente la potencia de la paradoja.

Lo que corresponde muy bien a los dos estados del sentido,
de hecho y de derecho,
a posteriori y a priori,
según si se lo infiere indirectamente del círculo de la proposición,
o si se hace aparecer por sí mismo,
desplegando el círculo a lo largo de la frontera
entre las proposiciones y las cosas.

7 Russell, op. cit., pág. 198:
«Podemos decir que todo lo que es afirmado por un enunciado
provisto de sentido posee una cierta especie de posibilidad.»

8 Hubert Elie, en un excelente libro
(Le Complexe significabile, Vrin, 1936),
expone y comenta las doctrinas de Gregorio de Rimini y de Nicolas d’Autrecourt.
Muestra su extrema semejanza con las teorías de Meinong,
y cómo una misma polémica se reproduce en el siglo XIX y en el siglo XIV;
aunque no indica el origen estoico del problema.

9 Sobre la diferencia estoica
entre los incorporales y las representaciones racionales,
compuestas de trazos corporales, véase E. Bréhier, op. cit., págs. 16-18.

10 Véanse las observaciones de Albert Lautman sobre el anillo de Moebius:
tiene «nada más que un lado,
y ésa es una propiedad esencialmente extrínseca,
puesto que para dar cuenta de ella es necesario partir el anillo y destorcerlo,
lo que supone una rotación en torno de un eje exterior
a la superficie del anillo.
Es sin embargo posible caracterizar esta unilateralidad
por una propiedad puramente intrínseca…», etc.
Essai sur les notions de structure et d’existence en mathématiques,
ed. Hermann, 1938, tomo 1, pág. 51.

11 No tenemos en cuenta
el empleo particular que Husserl hace de «significación»
en su terminología,
ya sea para identificarla,
ya para unirla a «sentidos.

12 Estos términos, insistencia y extra-ser, tienen su equivalente en la terminología de Meinong como
en la de los estoicos.

13 En Logique sans peine, op. cit., prefacio, págs. 13-20.

SENTIDO E PROBLEMA

Ganhariamos alguma coisa exprimindo o SENTIDO sob a forma interrogativa
de preferência a uma infinitiva ou participial?
(“Deus é?”, de preferência a Deus-ser ou o ente de Deus) ?

À primeira vista, o ganho é pequeno.
Mas ele é pequeno porque uma interrogação é sempre calcada
sobre respostas passíveis de serem dadas,
sobre respostas prováveis ou possíveis.

Ela própria é, pois, o duplo neutralizado de uma proposição que se supõe preexistente,
que pode ou deve servir de resposta.

O orador põe toda sua arte na construção de interrogações
que estejam em conformidade com as respostas que ele quer suscitar,
isto é, com as proposições de que ele nos quer convencer.

E mesmo quando ignoramos a resposta,
nós apenas interrogamos supondo-a já dada,
preexistindo, de direito, numa outra consciência.

Eis por que a interrogação, de acordo com sua etimologia,
é sempre feita no quadro de uma comunidade:
interrogar implica não só um senso comum, mas um bom senso,
uma distribuição do saber e do dado em relação às consciências empíricas,
de acordo com suas situações, seus pontos de vista,
suas funções e suas competências,
de tal maneira que uma consciência é tida como já sabendo o que a outra ignora
(que horas são, você, que tem ou que está junto de um relógio.
Quando nasceu César? você, que conhece história romana).

Apesar desta imperfeição, a fórmula interrogativa não deixa de ter uma vantagem:

ao mesmo tempo em que nos convida a considerar a proposição correspondente como uma resposta,
ela nos abre uma nova via.

Uma proposição concebida como resposta
é sempre um caso particular de solução,
considerado por si mesmo abstratamente,
separado da síntese superior que o relacionaria,
juntamente com outros casos,
a um PROBLEMA enquanto PROBLEMA.

A interrogação, por sua vez, exprime, portanto,
a maneira pela qual um PROBLEMA é desmembrado, cunhado,
traído na experiência e pela consciência,
de acordo com seus casos de solução apreendidos como diversos.

Embora nos dê uma idéia insuficiente,
Ela nos inspira, assim, o pressentimento do que ela desmembra.

O SENTIDO está no próprio PROBLEMA.

O SENTIDO é constituído no tema complexo,
mas o tema complexo é o conjunto

de PROBLEMA e de questões

em relação ao qual as proposições
servem de elementos de resposta
e de casos de solução.

Todavia, esta definição exige que nos desembaracemos de uma ilusão
própria da imagem dogmática do pensamento:
é preciso parar de decalcar os PROBLEMAs e as questões

sobre proposições correspondentes,
que servem ou podem servir de respostas.

Nós sabemos qual é o agente da ilusão;
é a interrogação, que, nos quadros de uma comunidade,
desmembra os PROBLEMAs e as questões
e os reconstituem de acordo com proposições da consciência comum empírica,
isto é, de acordo com verossimilhanças de uma simples doxa.

Com isto, encontra-se comprometido o grande sonho lógico
de um cálculo dos PROBLEMAs
ou de uma combinatória.

Acreditou-se que o PROBLEMA e a questão
eram apenas a neutralização de uma proposição correspondente.

Como não acreditar, por conseguinte, que o tema ou o sentido é somente um duplo ineficaz,
calcado sobre o tipo das proposições que ele subsume,
ou mesmo sobre um elemento que se presume ser comum a toda proposição (a tese indicativa)?

Por não ver que o SENTIDO ou o PROBLEMA é extra-proposicional,
que ele difere, por natureza, de toda proposição,
perde-se o essencial,
a gênese do ato de pensar,
o uso das faculdades.

A dialética é a arte dos PROBLEMAs e das questões,
e a combinatória é o cálculo dos PROBLEMAs enquanto tais.

Mas a dialética perde seu poder próprio
e, então, começa a história de sua longa desnaturação,
que faz com que ela caia sob a potência do negativo
quando ela se contenta em decalcar os PROBLEMAs sobre as proposições.

Aristóteles escreve:
“Se se diz, por exemplo:
Animal-pedestre-bípede é a definição de homem, não é?
ou Animal é o gênero do homem, não é?,
obtém-se uma proposição;

se se diz, em compensação:
Animal-pedestre-bípede é ou não a definição do homem?,
eis aí um PROBLEMA.

E o mesmo acontece para as outras noções.

Disto resulta, bastante naturalmente,
que os PROBLEMAs e as proposições são em número igual,
pois é possível fazer de toda proposição um PROBLEMA,
mudando-se simplesmente a construção da frase”.

(Até nos lógicos contemporâneos encontra-se a marcha da ilusão.
O cálculo dos PROBLEMAs é apresentado como extramatemático;
o que é verdade, pois ele é essencialmente lógico, isto é, dialético;
mas ele é inferido de um simples cálculo das proposições,
sempre copiado, decalcado sobre as próprias proposições [3]

[3]
Cf. ARISTÓTELES, Tópicos, 1, 4, 101b, 30-35.

A mesma ilusão continua na Lógica moderna:
o cálculo dos PROBLEMAs, tal como é definido, notadamente por KOLMOGOROFF,
encontra-se ainda decalcado sobre
um cálculo das proposições, em “isomorfismo” com ele
(cf. Paulette DESTOUCHES-FÉVRIER,

Rapports entre le calcul des problèmes et le calcul des propositions, Comptes rendus des séances de l’Académie des Sciences, avril 1945).

Veremos que um empreendimento de “matemática sem negação”, como o de G. F. C. Griss,
encontra seu limite em função desta falsa concepção da categoria de PROBLEMA.

LEIBNIZ, ao contrário, pressente a distância variável, mas sempre profunda,
entre os PROBLEMAs ou os temas
e as proposições:
“Pode-se mesmo dizer que há temas que são intermediários entre uma idéia e uma proposição.
São as questões, dentre as quais existe as que apenas exigem sim e não,
que são as mais próximas das proposições.
Mas há também as que exigem o como e as circunstâncias etc., nas quais há mais a ser substituído para delas se fazer proposições”
(Novos ensaios sobre o entendimento humano, IV, cap. 1, § 2).

Com as etiquetas , , , ,

OS PARADOXOS E O SENTIDO – Proliferação e Desdobramento

SENTIDO é o EXPRESSO da proposição,
mas o que é o EXPRESSO?

Ele não se reduz ao objeto DESIGNADO
nem ao estado vivido daquele que se exprime.

Devemos mesmo distinguir o SENTIDO e a significação da seguinte maneira:
a significação remete apenas ao conceito
e à maneira pela qual ele se refere a objetos condicionados num campo de representação;
mas o SENTIDO é como a Idéia que se desenvolve nas determinações subrepresentativas.

Não é de admirar que seja mais fácil dizer
o que o SENTIDO não é do que dizer aquilo que ele é.

Com efeito, nunca podemos formular ao mesmo tempo
Uma proposição e seu SENTIDO,
nunca podemos dizer o SENTIDO daquilo que dizemos.

O SENTIDO, deste ponto de vista,
é o verdadeiro loquendum,
aquilo que não pode ser dito no uso empírico
e só pode ser dito no uso transcendente.

A Idéia, que percorre todas as faculdades,
não se reduz, todavia, ao SENTIDO.

É que, por sua vez, ela também é não-sentido;
e não há qualquer dificuldade em conciliar este duplo aspecto
pelo qual a Idéia
é constituída
de elementos estruturais que não têm sentido por si mesmos,
mas constitui
o SENTIDO de tudo o que ela produz
(estrutura e gênese).

Há somente uma palavra que se diz a si própria e ao seu SENTIDO,
precisamente a palavra não-senso: abraxas, snark ou blituri.

E se o SENTIDO é necessariamente um não-senso
para o uso empírico das faculdades,
inversamente,
os não-sensos, tão freqüentes no uso empírico, são como que o segredo do SENTIDO
para o observador consciencioso, cujas faculdades estão tendendo a um limite transcendente.

Como foi reconhecido de diversas maneiras por tantos autores (Flaubert ou Lewis Carroll),
o mecanismo do não-senso é a mais elevada finalidade do SENTIDO,
assim como o mecanismo da besteira é a mais elevada finalidade do pensamento.

1 PROLIFERAÇÃO  – cavaleiro que dá sempre um novo nome ao nome da canção

(critica do Logicismo)

Se é verdade que não dizemos o sentido daquilo que dizemos,
podemos, pelo menos, tomar o sentido,
isto é, o exprimido de uma proposição,
como o designado de uma outra proposição
da qual, por sua vez, não dizemos o sentido, e assim indefinidamente.

Deste modo, chamando de “nome” cada proposição da consciência,
esta encontra-se arrastada numa regressão nominal indefinida,
cada nome remetendo a um outro nome que designa o sentido do precedente.

Mas a impotência da consciência empírica é aqui como que a “enésima” potência da linguagem,
e sua repetição transcendente é como que o poder infinito de falar das próprias palavras
ou de falar sobre as palavras.

De qualquer modo,

o pensamento é traído
pela imagem dogmática e no postulado das proposições,
segundo o qual a Filosofia encontraria um começo
numa primeira proposição da consciência,

Cogito.

Mas talvez Cogito seja o nome
que não tem SENTIDO,
nem outro objeto
a não ser a regressão indefinida como potência de reiteração
(eu penso que eu penso que eu penso…).

Toda proposição da consciência implica um inconsciente do pensamento puro,
que constitui a esfera do SENTIDO, onde se regressa ao infinito.

Portanto, o primeiro paradoxo do SENTIDO é o da proliferação,
segundo o qual o expresso de um “nome” é o designado de um outro nome
que vem reduplicar o primeiro.

2 DESDOBRAMENTO -o sorriso sem gato

(critica da Fenomenologia)

Sem dúvida, pode-se escapar deste paradoxo, mas para cair num outro:
desta vez, suspendemos a proposição,
a imobilizamos o tempo suficiente para dela extrair um duplo
que dela retém apenas o conteúdo ideal, o dado imanente.

A repetição paradoxal essencial à linguagem
já não consiste, então, numa reduplicação, mas num desdobramento;
já não mais consiste numa precipitação, mas numa suspensão.

É este duplo da proposição que nos parece, ao mesmo tempo, ser distinto
da própria proposição,
daquele que a formula
e do objeto a que ela se dirige.

Ele se distingue do sujeito e do objeto,
porque não existe fora da proposição que o exprime.

Ele se distingue da própria proposição,
porque se reporta ao objeto como seu atributo lógico, seu “enunciável” ou”exprimível”.

É o tema complexo da proposição
e, assim, o termo primeiro do conhecimento.

Para distingui-lo, ao mesmo tempo,
do objeto (Deus, o céu, por exemplo)
e da proposição (Deus é, o céu é azul),
o enunciaremos sob uma forma infinitiva ou participial:
Deus-ser ou Deus-ente;  o ente-azul do céu.

Este complexo é um acontecimento ideal.
É uma entidade objetiva,
mas da qual não se pode nem mesmo dizer que ela existe em si mesma:
ela insiste, ela subsiste, tendo um quase-ser, um extra-ser,
o mínimo de ser comum aos objetos reais, possíveis e mesmo impossíveis.

Mas, assim, caímos num ninho de dificuldades secundárias, pois,

como evitar que as proposições contraditórias tenham o mesmo sentido,
visto que a afirmação e a negação são apenas modos proposicionais?

E como evitar que um objeto impossível, contraditório em si mesmo,
tenha um sentido, embora não tenha “significação” (o ente-quadrado do círculo) ?

E ainda: como conciliar a fugacidade de um objeto e a eternidade de seu sentido?

Como fazer, enfim, para escapar do jogo de espelho:
uma proposição deve ser verdadeira porque seu expresso é verdadeiro,
mas o expresso só é verdadeiro quando a proposição é ela mesma verdadeira?

Todas estas dificuldades têm uma origem comum:
extraindo um duplo da proposição, invocou-se um simples fantasma.

Assim definido,
o sentido é apenas um vapor movendo-se no limite das coisas e das palavras.
O sentido aparece aqui, após um dos mais potentes esforços da Lógica,
mas como o Ineficaz, estéril incorpóreo, privado de seu poder de gênese[2]

Lewis Carroll fez um cômputo maravilhoso de todos estes paradoxos:
o do desdobramento neutralizante
encontra sua figura no sorriso sem gato,
como o da reduplicação proliferante
encontra sua figura no cavaleiro que dá sempre um novo nome ao nome da canção
e, entre estes dois extremos, todos os paradoxos secundários que formam as aventuras de Alice.

2. Cf, o excelente livro de Hubert ELIE, Le complexe significabile(vrin, 1936),
que mostra a importância e os paradoxos desta teoria do sentido,
tal como se desenvolve no século XIV na escola de Ockham (Grégoire de Rimini, Nicolas d’Autrecourt)
e também tal como Meinong a formulará.
A esterilidade, a ineficácia do sentido assim concebido aparece também em HUSSERL, quando ele escreve:
“A camada de expressão não é produtiva.
Ou, se se quiser, sua produtividade, sua ação noemática se esgotam com o exprimir
e na forma do conceitual que se introduz com esta função”
(Idées directrices pour une phénoménologie, tr. RICOEUR, N.R.F., p. 421).

Com as etiquetas , , , , , , ,

EXPRESSÃO E DESIGNAÇÃO – O Sentido e o Verdadeiro

Os professores sabem muito bem que é raro
encontrar erros ou alguma coisa de falso nos “deveres”
(salvo nos exercícios em que é preciso traduzir proposição por proposição
ou então produzir um resultado fixo).

O que mais se encontra são não-sensos,
observações sem interesse e sem importância,
banalidades tomadas como dizeres relevantes,
confusão de “pontos” ordinários com pontos singulares,
problemas mal formulados ou desviados de seu sentido:
é este o pior e o mais freqüente, todavia cheio de ameaças, destino de todos nós.

Quando os matemáticos polemizam,
é de duvidar que um critique o outro
por ter-se enganado em seus resultados ou cálculos;

eles se criticam, antes de tudo,
por terem produzido um teorema insignificante,
um problema destituído de sentido.

Sexto postulado: o privilégio da designação

Cabe à Filosofia tirar as consequências disto.
O elemento do SENTIDO é bem reconhecido pela Filosofia,
tornou-se mesmo muito familiar.
Todavia, isto talvez não seja ainda suficiente.

Define-se o SENTIDO
como a condição do verdadeiro;
mas, como se supõe que
a condição guarde uma extensão maior que o condicionado,
o SENTIDO não funda a VERDADE sem também tornar o erro possível.

Uma proposição falsa, portanto,
não deixa de continar sendo uma proposição dotada de sentido.

Quanto ao não-sentido,
ele seria o caráter daquilo que não pode ser nem verdadeiro nem falso.

Distinguem-se duas dimensões numa PROPOSIÇÃO:

a da EXPRESSÃO, de acordo com a qual a proposição enuncia,
EXPRIME alguma Coisa de ideal;
 
a da DESIGNAÇÃO, de acordo com a qual ela indica,
ela DESIGNA Objetos aos quais se aplica o enunciado ou o exprimido.

Uma seria a dimensão do SENTIDO,
a outra, a do VERDADEIRO e do FALSO.

Mas, assim, o SENTIDO não fundaria a verdade de uma proposição
sem permanecer indiferente ao que ele funda.

O VERDADEIRO e o FALSO seriam um caso de designação
(como diz Russell,
“a questão da verdade e da falsidade
concerne ao que os termos e os enunciados indicam,
não ao que eles exprimem“).

Encontramo-nos, então, numa estranha situação:
descobre-se o domínio do SENTIDO,
mas ele é remetido apenas a um faro psicológico ou a um formalismo lógico.

Sendo preciso, anexa-se aos valores clássicos do VERDADEIRO e do FALSO.
um novo valor,  o do não-sentido ou do absurdo.

Mas supõe-se que o VERDADEIRO e o FALSO continuem a existir no mesmo estado que antes,
isto é, tais como eram, independentemente da condição que se lhes consigna
ou do novo valor que se lhes acrescenta.

Diz-se muito ou muito pouco:
muito,
porque a procura de um fundamento forma o essencial de uma “crítica”,
que deveria inspirar-nos novas maneiras de pensar;
muito pouco,
porque, enquanto o fundamento permanece maior que o fundado,
esta crítica serve somente para justificar as maneiras de pensar tradicionais.

Supõe-se que o VERDADEIRO e o FALSO permaneçam não afetados pela condição
que só funda um tornando o outro possível.

Remetendo o VERDADEIRO e o FALSO à relação de DESIGNAÇÃO na proposição,
damo-nos um sexto postulado, postulado da proposição ou da DESIGNAÇÃO
postulado que recolhe os precedentes e se encadeia com eles
(a relação de DESIGNAÇÃO é apenas a forma lógica da recognição).

Sentido e proposição

De fato, a condição deve ser condição da experiência real
e não da experiência possível.

Ela forma uma gênese intrínseca,
não um condicionamento extrínseco.

A verdade, sob todos os aspectos,
é caso de produção,
não de adequação.

Caso de genitalidade,
não de inatismo nem de reminiscência.

Não podemos acreditar que o fundado permaneça o mesmo,
o mesmo que ele era antes, quando não estava fundado,
quando não tinha atravessado a prova do fundamento.

Se a razão suficiente, se o fundamento é “dobrado”,
é porque ele refere o que ele funda a um verdadeiro sem-fundo.

É o caso de dizer: não o reconhecemos mais.

Fundar é metamorfosear.

O VERDADEIRO e o FALSO não concernem a uma simples DESIGNAÇÃO,
que o SENTIDO se contentaria em tornar possível, permanecendo-lhe indiferente.
A relação da proposição com o objeto que ela DESIGNA deve ser estabelecida no próprio SENTIDO;
é próprio do SENTIDO ideal ultrapassar-se em direção ao objeto DESIGNADO.

A DESIGNAÇÃO nunca seria fundada se,
enquanto efetuada no caso de uma proposição VERDADEIRA,
não devesse ser pensada como o limite das séries genéticas
ou das ligações ideais que constituem o sentido.

Se o SENTIDO se ultrapassa em direção ao objeto,
este já não pode ser posto na realidade como exterior ao SENTIDO
mas apenas como o limite de seu processo.

E a relação da proposição com o que ela DESIGNA,
na medida em que esta relação é efetuada,
acha-se constituída na unidade do SENTIDO,
ao mesmo tempo que o objeto que a efetua.

Há apenas um caso em que o DESIGNAdo vale por si
E permanece exterior ao SENTIDO:
é precisamente o caso das proposições singulares,
tomadas como exemplos,
arbitrariamente destacadas de seu contexto[1]

Mas como acreditar, ainda neste caso,
que exemplos escolares, pueris e artificiais possam justificar esta imagem do pensamento?

Toda vez que uma proposição é recolocada no contexto do pensamento vivo,
evidencia-se que tem exatamente a VERDADE que merece de acordo com seu SENTIDO,
a FALSIDADE que lhe cabe de acordo com os NÃO-SENTIDOS que ela implica.

Do VERDADEIRO, temos sempre a parte que merecemos
de acordo com o SENTIDO do que dizemos.

O SENTIDO é a génese ou a produção do VERDADEIRO,
e a VERDADE é tão-somente o resultado empírico do SENTIDO.

Em todos os postulados da imagem dogmática,
reencontramos a mesma confusão,
que consiste em elevar ao transcendental uma simples figura do empírico,
deixando cair no empírico as verdadeiras estruturas do transcendental.

[1] Daí a atitude de, RUSSELL, que privilegia as proposições singulares: cf. sua polémica com Carnap, em Signification et vérité (trad. DEVAUX, Flammarion), pp.
363-367.

NOTA:
EXPRESSÃO = CONOTAÇÃO
DESIGNAÇÂO = DENOTAÇÃO/REFERÊNCIA

a) On Denoting

Bertrand Russell (1905)

B) “On Referring”

Peter Frederick Strawson (1950)

(também de ler nesta matéria)

Vagueness

Bertrand Russell (1923)

CONOTA DENOTA
EXPRESSA DESIGNA

Refere

Valor de Verdade

Termo Conceito

a= variável

x= Sócrates

y = humano

z= Unicornio

Objecto

(verificação empírica…

x= sócrates – Verdadeiro/Falso

Frase Proposição – f(a) –

Ex: f(a) = a é y

y= humano

x= Sócrates

f(x) = Sócrates é humano

Valor de Verdade

f(x) = verdade

Com as etiquetas , , , , , , , , , , ,

Essencia das Ideias na Dialética em Lautman

dialectic is not part of mathematics,
and its notions are unrelated to the primitive notions of a theory.

We have already defined, in our thesis (Lautman 1938b),
the priority of the dialectic
as that of ‘concern’ or the ‘question’
with respect to the response.

It is a matter of an ‘ontological ’anteriority,
to use the words of Heidegger,
exactly comparable to that of the ‘intention’ in regards to that ‘for the sake of’.

Just as the notion of ‘for the sake of’
necessarily refers to an intention oriented towards this purpose,
it is of the nature of the response to be an answer to a question already posed,
and this, even if the idea of the question comes to mind only after having seen the response.

The existence of mathematical relations therefore
necessarily refers back to the positive Idea of the search of similar relations in general.

Having established this point
allows us to specify that which constitutes the essence of the Ideas of the Dialectic.

First of all let us point out that we distinguish
notions
and
dialectical Ideas

The Ideas envisage
possible relations between
dialectical notions.

Thus we examined in our thesis (Latman 1938b)
the Ideas of the possible relations
between pairs of notions
such as
whole and part,
situational properties and intrinsic properties,
basic domains and the entities defined on these domains,
formal systems and their realization, etc.

The essential difference between
the nature of mathematics
and the nature of the Dialectic
can be inferred from these definitions.

While the mathematical relations describe
the connections that in fact exist between distinct mathematical entities,
the Ideas of dialectical relations are not assertive of any connection whatsoever
that in fact exists between notions.
Insofar as ‘posed questions’,
they only constitute a problematic relative to the possible situations of entities.
It then happens to be once again exactly as in Heidegger’s analysis,
that the Ideas that constitute his problematic
are characterized by an essential insufficiency,
and it is yet once again in this effort to complete the understanding of the Idea,
that more concrete notions are seen to appear relative to the entity, that is, true mathematical theories

Com as etiquetas , , ,