O retorno do recalcado: Hegel e Leibniz depois da “Diferença e Repetição”

Deluze está hoje sobre intenso ataque. Os inimigos porém são insidiosos e aproximam-se como se fossem amigos para logo a seguir deitarem as unhas de fora e simularem uma “ultrapassagem”. São os Lacanianos que voltam.

De um lado Hegelianos (Zizek?) do outro Leibnizianos (Badiou?). Pergunto-me: alguém leu seriamente o “Diferença e Repetição”. Não eram já, em 67, Hegel e Leibniz os “verdadeiros inimigos”?

Citando logo o inicio da Conclusão que resume a obra como um todo:
“O maior esforço da Filosofia talvez consista
em tornar a representação infinita (orgíaca).
Trata-se de estender a representação
até o grande demais
e o pequeno demais da diferença;
de dar uma perspectiva insuspeita à representação,
isto é, de inventar técnicas teológicas, científicas, estéticas
que lhe permitam integrar a profundidade da diferença em si;
trata-se de fazer com que a representação conquiste o obscuro;
que compreenda o esvaecimento da diferença pequena demais
e o desmembramento da diferença grande demais;
que capte a potência do atordoamento, da embriaguez, da crueldade e mesmo da morte.
Em suma, trata-se de fazer um pouco do sangue de Dioniso correr nas veias orgânicas de Apolo.

Este esforço penetrou há muito no mundo da representação.
Tornar-se orgíaco é o voto supremo do orgânico; e conquistar o em si.

Mas este esforço teve dois momentos culminantes, com LEIBNIZ e com HEGEL.
Num caso, a representação conquista o infinito, porque uma técnica do infinitamente pequeno recolhe a menor diferença e seu esvaecimento;
no outro caso, porque uma técnica do infinitamente grande recolhe a maior diferença e seu esquartejamento.
Os dois esforços estão em acordo,
porque o problema hegeliano é também o do esvaecimento,
e o problema de Leibniz é também o do esquartejamento.

A técnica de Hegel está no
movimento da contradição
(é preciso que a diferença chegue até lá, que ela se estenda até lá).
Essa técnica consiste em inscrever o inessencial na essência
e em conquistar o infinito com as armas de uma identidade sintética finita.

A técnica de Leibniz está num
movimento que se deve denominar vice-dicção;
ela consiste em construir a essência a partir do inessencial
e em conquistar o finito pela identidade analítica infinita
(é preciso que a diferença se aprofunde até lá).

Mas para que serve tornar infinita a representação?
Ela conserva todas as suas exigências.
O que é descoberto é somente um fundamento
que refere o excesso e a deficiência da diferença

ao idêntico,
ao semelhante,

ao análogo,
ao oposto:

a razão se torna fundamento,
isto é, razão suficiente,
que não deixa escapar mais nada.
Mas nada muda; a diferença continua marcada pela maldição;
foram apenas descobertos meios mais sutis e mais sublimes de fazê-la expiar ou de submetê-la, de resgatá-la sob as categorias da representação.(…)

Assim, a contradição HEGELIANA
dá a impressão de levar a diferença até o fim; mas este é o caminho sem saída que a reduz à identidade e torna a identidade suficiente para fazê-la ser e ser pensada. É somente em relação ao idêntico, em função do idêntico, que a contradição é a maior diferença.

Os atordoamentos e a embriaguez são fingidos; o obscuro já está esclarecido desde o início. Nada mostra isto melhor do que a insípida monocentragem dos círculos na dialética hegeliana.

De outra maneira, talvez seja preciso dizer o mesmo da condição de convergência no mundo LEIBNIZIANO.
Consideremos uma noção como a de incompossibilidade, em Leibniz.
Todo mundo concorda em reconhecer que a incompossibilidade é irredutível ao contraditório e que a compossibilidade é irredutível ao idêntico. É mesmo neste sentido que o compossível e o incompossível dão testemunho de uma razão suficiente especifica e de uma presença do infinito não só no conjunto dos mundos possíveis, mas em cada mundo a ser escolhido.

É mais difícil dizer em que consistem estas novas noções. Ora, o que constitui a compossibilidade parece-nos ser unicamente isto: a condição de um máximo de continuidade para um máximo de diferença, isto é, uma condição de convergência das séries estabelecidas em torno das singularidades do contínuo. Inversamente, a incompossibilidade dos mundos se decide na vizinhança das singularidades que inspirariam séries divergentes entre si.

Em suma, a representação pode tornar-se infinita, mas não adquire o poder de afirmar a divergência e o descentramento; tem necessidade de um mundo convergente, monocentrado: um mundo em que se está embriagado apenas na aparência, em que a razão se faz de bêbada e canta com ar dionisíaco, mas é ainda razão “pura”.

É que a razão suficiente, ou o fundamento, é apenas um meio de levar o idêntico a reinar sobre o próprio infinito e de fazer com que o infinito seja penetrado pela continuidade de semelhança, pela relação de analogia e pela oposição de predicados. A isto se reduz a originalidade da razão suficiente: assegurar melhor a sujeição da diferença ao quádruplo jugo. Portanto, o que é ruinoso não é somente a exigência da representação finita, que consiste em fixar, para a diferença, um momento feliz, nem grande demais nem pequeno demais, entre o excesso e a deficiência, mas a exigência aparentemente contrária da representação infinita, que pretende integrar o infinitamente grande e o infinitamente pequeno da diferença. o próprio excesso e a própria deficiência.

INUTILIDADE DA ALTERNATIVA FINITO-INFINITO

É toda a alternativa do finito e do infinito que se aplica muito mal à diferença,porque ela constitui apenas a antinomia da representação. Aliás, vimos isto a respeito do cálculo: as interpretações finitistas modernas traem tanto a natureza do diferencial quanto as antigas interpretações infinitistas, porque ambas deixam escapar a fonte extraproposicional ou sub-representativa, isto é, o “problema“, justamente de onde o cálculo tira seu poder.

Mais ainda, é a alternativa do Pequeno e do Grande, seja na representação finita que os exclui, seja na representação infinita que quer compreender os dois, um pelo outro é essa alternativa, em geral, que de modo algum convém à diferença, pois ela só exprime as oscilações da representação em relação a uma identidade sempre dominante, ou, antes, as oscilações do Idêntico em relação a uma matéria sempre rebelde, cujo excesso e deficiência ele ora rejeita ora integra.

Finalmente, voltemos a Leibniz e a Hegel em seu esforço comum para levar a representação ao infinito.

NÃO ESTAMOS CERTOS DE QUE LEIBNIZ NÃO VÁ “MAIS LONGE” (e que não seja o menos teólogo dos dois): sua concepção da Idéia como conjunto de relações diferenciais e de pontos singulares, sua maneira de partir do inessencial e de construir as essências como centros de envolvimento em torno de singularidades, seu pressentimento das divergências, seu procedimento de vice-dicção, seu acesso a uma razão inversa entre o distinto e o claro, tudo isto mostra por que o fundo freme com mais potência em Leibniz, por que a embriaguez e o atordoamento são nele menos fingidos, por que a obscuridade é nele melhor apreendida e mais próximas as margens de Dioniso”.

Deleuze : Diferença e Repetição (inicio da conclusão) pp. 420.
Isto deveria servir para calar Badious e Zizeks (ver exemplo claro no “Taearing with the negative”)… mas parece que a memória é curta e o negativo parece voltar sempre com todo o descaramento. E o que chateia é que depois se fazem de “amiguinhos”. Shoooooooooooooooooooooooooooooo :-X

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