“O que é a filosofia” segundo o Construtivismo de D&G?

A filosofia apresenta três elementos, cada um dos quais responde aos dois outros, mas deve ser considerada em si mesma:
o plano pré-filosófico que ela deve traçar (imanência),
o ou os personagens prófilosóficos que ela deve inventar e fazer viver (insistência),
os conceitos filosóficos que ela deve criar (consistência).
Traçar, inventar, criar, esta é a trindade filosófica.

Traços diagramáticos, personalísticos e intensivos.
grupos de conceitos, caso eles ressoem ou lancem pontes móveis, cobrindo um mesmo plano de imanência que os une uns aos outros.
famílias de planos, caso os movimentos infinitos se dobrem uns nos outros e componham variações de curvatura ou, ao contrário, selecionem variedades não componíveis.
tipos de personagens segundo suas possibilidades de encontro, mesmo hostil, sobre um mesmo plano e num grupo. Mas é freqüentemente difícil determinar se é o mesmo grupo, o mesmo tipo, a mesma família.

Para isso é necessário todo um “gosto”.
Como nenhum dos elementos se deduz dos outros, é necessário uma co-adaptação dos três. Chama-se gosto a esta faculdade filosófica de co-adaptação, e que regra a criação de conceitos.

Se se chama Razão ao traçado do plano,
Imaginação à invenção dos personagens,
Entendimento à criação de conceitos,
o gosto aparece como a tripla faculdade
do conceito ainda indeterminado,
do personagem ainda nos limbos,
do plano ainda transparente.

É por isso que é necessário criar, inventar, traçar, mas o gosto é como que a regra de correspondência das três instâncias que diferem em natureza.

(…)
o filósofo só se aproxima do conceito indeterminado com temor e respeito, hesita muito em se lançar, mas só pode determinar o conceito criando-o sem medida, um plano de imanência tendo como única regra que traça e como único compasso os personagens estranhos que ele faz viver. O gosto filosófico não substitui a criação de conceitos, nem a modera, é, ao contrário, a criação de conceitos que faz apelo a um gosto que a modula.

A livre criação de conceitos determinados precisa de um gosto do conceito indeterminado.
O gosto é esta potência, este ser-em-potência do conceito:
não é certamente por razões “racionais ou razoáveis” que tal conceito é criado, tais componentes escolhidos.

Nietzsche pressentiu esta relação da criação de conceitos com um gosto propriamente filosófico, e se o filósofo é aquele que cria conceitos, é graças a uma faculdade de gosto como um “sapere” instintivo, quase animal — um Fiat ou um Fatum que dá a cada filósofo o direito de aceder a certos PROBLEMAS, como um sinete marcado sobre seu nome, como uma afinidade da qual suas obras promanam(11).

(11) Nietzsche, Musarion-Ausgabe, XVI, p. 35. Nietzsche invoca freqüentemente um gosto filosófico, e faz derivar o sábio de “sapere” (“sa-piens”, o degustador, “sisyphos”, o homem de gosto extremamente “sutil”): La naissance de Ia philosophie, Gallimard, p. 46.

Um conceito está privado de sentido enquanto não concorda com outros conceitos, e não está associado a um PROBLEMA que resolve ou contribui para resolver.

Mas importa distinguir os problemas filosóficos e os problemas científicos. Não se ganharia grande coisa, dizendo que a filosofia coloca “questões”, já que as questões são somente uma palavra para designar problemas irredutíveis aos da ciência.

(…)

Se a filosofia é paradoxal por natureza, não é porque toma o partido das opiniões menos verosímeis, nem porque mantém as opiniões contraditórias, mas porque se serve das frases de uma língua standard para exprimir algo que não é da ordem da opinião, nem mesmo da proposição.

O conceito é bem uma SOLUÇÃO,
mas o problema ao qual ele responde reside em suas condições de consistência intensional [plano de imanência] ,
e não, como na ciência, nas condições de referência das proposições extensionais [plano de referencia].

Se o conceito é uma solução, as CONDIÇÕES DO PROBLEMA filosófico estão sobre o plano de imanência que ele supõe (a que movimento infinito ele remete na imagem do pensamento?)

e as INCÓGNITAS DO PROBLEMA estão nos personagens concpetuais que ele mobiliza (que personagem precisamente?).

Um conceito como o de conhecimento só tem sentido com relação a uma imagem do pensamento a que ele remete, e a um personagem conceituai de que precisa; uma outra imagem, um outro personagem exigem outros conceitos (a crença, por exemplo, e o Inquiridor).

Uma solução não tem sentido independentemente de um problema a determinar em suas condições e em suas incógnitas, mas estas não mais têm sentido independentemente das soluções determináveis como conceitos.

As três instâncias estão umas nas outras, mas não são de mesma natureza, coexistem e subsistem sem desaparecer uma na outra. Bergson, que contribuiu tanto para a compreensão do que é um problema filosófico, dizia que um problema bem colocado era um problema resolvido. Mas isso não quer dizer que um problema é somente a sombra ou o epifenômeno de suas soluções, nem que a solução é apenas a redundância ou a conseqüência analítica do problema.

Significa, antes, que as 3 atividades que compõem o CONSTRUTIVISMO não cessam de se alternar, de se recortar, uma precedendo a outra e logo o inverso, uma que consiste em criar conceitos, como caso de solução,
outra em traçar um plano e um movimento sobre o plano, como condições de um problema,
outra em inventar um personagem, como a incógnita do problema.

O conjunto do problema (de que a própria solução faz parte) consiste sempre em construir as duas outras quando a terceira está em curso.

Nós vimos como, de Platão a Kant, o pensamento, o “primeiro”, o tempo recebiam conceitos diferentes, capazes de determinar soluções, mas em função de pressupostos que determinavam problemas diferentes; pois os mesmos termos podem aparecer duas vezes, e mesmo três vezes,
uma vez nas soluções como conceitos,
outra vez nos problemas pressupostos,
uma outra vez num personagem como intermediário, intercessor, mas a cada vez sob uma forma específica irredutível.

Nenhuma regra e sobretudo nenhuma discussão dirão a princípio
se é o bom plano,
o bom personagem,
o bom conceito,
pois é cada um deles que decide se os dois outros deram certo ou não;
mas cada um deles deve ser construído por sua conta:
um criado,
o outro inventado,
o outro traçado.

Constroem-se problemas e soluções dos quais se pode dizer “Deu certo… Não deu certo…”, mas somente na medida de e segundo suas co-adaptações.

O CONSTRUTIVISMO desqualifica toda discussão, que retardaria as construções
necessárias, como denuncia todos os universais,
a contemplação,
a reflexão,
a comunicação,
como fontes do que se chama de “falsos problemas“, que emanam das ilusões que envolvem o plano.
É tudo o que se pode dizer de antemão.

(…)

Deleuze e Guattari . “O que é a Filosofia?”
Editorial Presença p. 70/76

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