IMAGEM do Pensamento e suas ILUSÕES parte I

“Se a instauração da filosofia se confunde com a suposição de um plano pré-filosófico,
como a filosofia não tiraria proveito disso para pôr uma mascara?
Resta que os primeiros filósofos traçam um plano, que movimentos ilimitados não cessam de percorrer, sobre DUAS FACES, das quais
uma é determinável como PHYSIS, na medida em que dá uma matéria ao Ser,
e a outra como NOUS, enquanto dá uma imagem ao pensamento.

É Anaximandro que leva ao maior rigor a distinção das duas faces,
combinando o movimento das qualidades
com a potência de um horizonte absoluto,
o Apeiron ou o Ilimitado,
mas sempre sobre o mesmo plano.
O filósofo opera um vasto sequestro da sabedoria,
ele a põe a serviço da imanência pura.
Ele substitui a genealogia por uma geologia.

EXEMPLO III
Pode-se apresentar toda a historia da filosofia do ponto de vista da instauração de um plano de imanência?
Distinguir-se-iam então os FISICALISTAS, que insistem sobre a matéria do Ser,
e os NOOLOGISTAS, sobre a imagem do pensamento.

Mas um risco de confusão surge muito rápido:
em vez de o plano de imanência,ele mesmo, constituir
esta matéria do Ser
ou esta imagem do pensamento,
é a imanência que seria remetida a algo que seria como um “dativo”,
Matéria
ou Espírito.

É o que se torna evidente com PLATÃO e seus sucessores.
Em vez de um plano de imanência constituir o Uno-Todo,
a imanência está “no” Uno,
de tal modo que um outro Uno, desta vez transcendente,
se sobrepõe aquele
no qual a imanência se estende
ou ao qual ela se atribui:
sempre um Uno para alem do Uno,
será a formula dos neoplatonicos.

Cada vez que se interpreta a imanência como “a” algo,
produz-se uma confusão do plano com o conceito, de modo que
o conceito se torna um universal transcendente,
e o plano, um atributo no conceito.

Assim mal entendido,
o plano de imanência relança o transcendente:
é um simples campo de fenómenos
que só possui secundariamente o que se atribui de inicio à unidade transcendente.

Com a FILOSOFIA CRISTA a situação piora.
A posição de imanência continua sendo a instauração filosófica pura,
mas ao mesmo tempo ela só e suportada em doses muito pequenas,
ela e severamente controlada e enquadrada pelas exigências de uma transcendência emanativa e sobretudo criativa.

Cada filosofo deve demonstrar,
com o risco de sua obra e por vezes de sua vida,
que a dose de imanência,
que ele injecta no mundo e no espírito,
não compromete a transcendência de um DEUS
ao qual a imanência não deve ser atribuída senão secundariamente
(Nicolau de Cusa, Eckhart, Bruno).

A autoridade religiosa quer que a imanência
não seja sustentada senão localmente ou num nível intermediário,
um pouco como numa fonte em cascata
na qual a agua pode brevemente manar sobre cada plataforma,
mas sob a condição de vir de uma fonte mais alta e descer mais baixo
(transcendência e transdescendencia, como dizia Wahl).

Da imanência,
pode-se estimar que ela seja a pedra de toque incandescente de toda a filosofia,
porque toma para si todos os perigos que esta deve enfrentar,
todas as condenações, perseguições e denegações que ela sofre.

(…)

Deleuze e Guattari – “O que é a Filosofia” – I Parte – Filosofia, capitulo 2 – “Plano de Imanência” , Editorial presença, pp.43

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