Crítica da REPESENTAÇÃO INFINITA e do NEGATIVO em LEIBNIZ e HEGEL por Deleuze, parte II

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“A REPRESENTAÇÃO INFINITA é objecto de um duplo discurso:
o das propriedades
e o das essências
o dos pontos físicos e o dos pontos metafísicos ou pontos de vista,
em Leibniz,
o das figuras e o dos momentos ou categorias,
em Hegel.

Não convém dizer que Leibniz vai menos longe que Hegel;
há nele até mesmo mais profundidade,
mais componente orgíaco ou delírio báquico,
no sentido de que o fundo goza de uma iniciativa maior.

Mas, nos DOIS casos, NÃO parece que a REPRESENTAÇÃO INFINITA
BASTE para tornar o pensamento da diferença independente
da simples ANALOGIA das essências
ou da simples SIMILITUDE das propriedades.
É que, em última instância,
a REPRESENTAÇÃO INFINITA
não se desliga do PRINCÍPIO DE IDENTIDADE
corno pressuposto da REPRESENTAÇÃO.

Eis por que ela permanece submetida
à condição da convergência das séries, em Leibniz,
e à condição da monocentragem dos círculos, em Hegel.
A REPRESENTAÇÃO INFINITA invoca um FUNDAMENTO.
Mas se o fundamento não é o próprio idêntico,
ele não deixa de ser uma maneira de se levar particularmente a sério
o princípio de IDENTIDADE, de dar-lhe um valor infinito,
de torná-lo co-extensivo ao todo e levá-lo, assim, a reinar sobre a própria existência.
Pouco importa que a identidade
(como identidade do mundo e do eu)
seja concebida como analítica, sob a espécie do infinitamente pequeno,
ou como sintética, sob a espécie do infinitamente grande.
Num caso, a RAZÃO SUFICIENTE, o fundamento,
é o que vice-diz a identidade;
no outro, o que a contradiz.
Mas, em todos os casos,
a razão suficiente, o fundamento, através do infinito,
apenas leva o IDÊNTICO a existir em sua própria identidade.
Neste ponto, o que é evidente a respeito de Leibniz
não o é menos a respeito de Hegel.

A contradição hegeliana não nega a identidade ou a não-contradição;
ela consiste, ao contrário, em inscrever no existente os dois Nãos da não-contradição,
de tal maneira que a IDENTIDADE,
sob esta condição, nesta fundação,
baste para pensar o existente como tal.
As fórmulas segundo as quais
“a coisa nega o que ela não é”
ou “se distingue de tudo o que ela não é”
são MONSTROS LÓGICOS
(o Todo do que não é a coisa)
a serviço da IDENTIDADE.
DIZ-SE que a DIFERENÇA é a negatividade,
que ela vai ou deve ir até a contradição,
desde que seja impelida até o extremo.
ISTO SÓ é verdade na medida em que
a diferença já esteja posta num caminho,
num fio estendido pela IDENTIDADE
na medida em que é a identidade que a impele até lá.
A diferença é o fundo,
mas apenas o fundo para a manifestação do IDÊNTICO.
O círculo de Hegel NÃO É o eterno retorno,
mas somente a circulação infinita do idêntico através da negatividade.
A audácia hegeliana é a última e a mais poderosa homenagem prestada ao
velho princípio.

Entre Leibniz e Hegel,
pouco importa que o NEGATIVO suposto da diferença seja pensado
como limitação vice-dizente
ou como oposição contra-dizente,
assim como não importa que
a IDENTIDADE INFINITA seja posta
como analítica
ou sintética.
De qualquer modo,
a DIFERENÇA permanece subordinada à IDENTIDADE,
reduzida ao NEGATIVO,
encarcerada na SIMILITUDE e na ANALOGIA.

Eis por que, NA REPRESENTAÇÃO INFINITA,
o DELÍRIO é apenas um FALSO DELÍRIO pré-formado,
que em nada perturba o repouso ou a serenidade do IDÊNTICO.
A representação INFINITA tem, pois,
o mesmo DEFEITO da representação FINITA:
o de confundir o conceito próprio da diferença
com a inscrição da diferença na identidade
do conceito em geral
(se bem que tome a identidade como puro princípio infinito,
em vez de tomá-la como género,
e estenda ao todo os direitos do conceito em geral,
em vez de fixar-lhe os limites).”

Deleuze “Diferença e Repetição” pp. 279
(capítulo “Diferença em Si mesma”, pp.112
Diferença e Repetição tem 7 capítulos (1+2+1+2+1)
1.Introdução
2. Diferença em Si 3. Repetição Para Si
4. Imagem do Pensamento
5. Síntese Ideal da Diferença 6.Síntese Assimétrica da Repetição
7. Conclusão

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