INSIDE sem insight

Não é preciso ler o triste e mal informado artigo de Celso Martins no Expresso para perceber que o INSIDE – Arte e Ciência foi um flop. Não tanto pelo dispositivo expositivo (que também tem culpas) ou dos artistas/obras seleccionadas (faltarão sempre alguns e outros estarão a mais) mas pela incapacidade de lançar o debate e a reflexão no espaço público nacional (seu principal objectivo).

Basta ler Celso para saber que estamos ainda longe de poder contar com um público que vá espontaneamente muito além do fascínio ou da desconfiança preconceituosa perante o “objecto ” fetichisidado, tal como o criticou Marx a propósito, do que consta, da primeira feira mundial, em Londres, por meados do sec. XIX (1) (o próprio objecto “artístico” parece estar ameaçado por este papel fetichisado de mercadoria…) Olha-se para o “objecto” e é-se incapazes de lhe perguntar de onde vem e para onde vai. Não há questões práticas nem éticas, as sensações são imediatamente julgamento sobre o seu interesse ou utilidade. O jogo entre o sensível e o inteligível, a presença e a representação, são totalmente ignorados. Gostam ou não, usam ou não, acrescenta ou não (?). Ponto.

Olha-se para ratos geneticamente manipulados por encomenda, normalmente para servirem experiências, e não se lhes impõe nem uma questão ética, apenas “constatação”, insensível (veja-se como comparação o estimulante artigo de Hal Foster sobre o livro de Peter Sloterdijk “Terror from the Air” na ArtForum deste verão). Enfrenta-se aqui o tema da “criação de uma outra natureza”, de forma “desinteressada” (ou, pelo contrário, de “objectos específicos “interessantes”, desde Judd), mas isso não lhes levanta qualquer questão sobre a ideia de Génio na estética desde Kant e os seus perigos (e oportunidades) no mundo que, como Latour explica, “nunca foi moderno”. As implicações para o que é “Arte” e a “Ideia Estética” depois da Arte Conceptual dos anos 60/70 (LeWitt, Weiner, Dan Graham?..) também não são sequer para aqui chamadas, por desacordo que fosse. A referencia a “fotografias medíocres” deixa-nos profundamente baralhados, enquanto comentário a-critico, tantas décadas depois de Edward Rusha e das suas fotos-documento.

Ignora-se, por outro lado, de forma quase caricata, os tumultos que a epistemologia vive desde os anos 60 (e do novo universo criativo e indeterminado em que agora sabemos viver, no reino das causas e dos efeitos) e por isso continua-se a utilizar instrumentos conceptuais anacrónicos para falar da “ciência e da tecnologia” (que nem parecem se diferenciar) e onde nada parece ter sido pensado desde o positivismo lógico (e da critica Heideggeriana). Bruno Latour ou Isabel Stengers, por exemplo, estão aqui a milhas (sabem lá que deverão “escolher” entre Prigogine e Hawking… o que serão estruturas dissipativas e irreversibilidade e suas implicações para a imagem do pensamento… e o pensamento da imagem).

Enfim, a grande maioria, incluindo aqui “críticos”, habita num mundo mágico que não percebe e por isso não o consegue interrogar espontaneamente (o avião voa mas não se percebe nada de Bernoulli, acende-se a luz mas nada se sabe de Faraday, escrevem-se mails mas nada se sabe de Turing). Como se poderia perceber fosse o que fosse, sequer sentir-se estimulados, pelo trabalho de Leonel Moura em redor da auto-organização e da indeterminação como nova imagem do pensamento, tornando sensível o que ainda se mantém hoje insensível (como os próprios críticos mostram bem)? Leonel sendo artista já ficamos contentes por ir mais além, apesar das limitações teóricas que lhe podemos reconhecer. Percebemos agora que realmente tem de se substituir à pouca preparação dos teóricos disponíveis nestas temáticas centrais das sociedades contemporâneas (aos robôs só falta fumar… enfim…)

O mundo contemporâneo, para a grande maioria dos portugueses, é mágico e nele há apenas recognição e hábitos: isto é arte e aquilo é ciência PONTO. Falta humildade quanto à ignorância própria e, pior, falta curiosidade para ir mais além. Valerá a pena chamar a atenção que todo o “objecto” pode ser SEMPRE simultaneamente Arte E Ciência, dependendo se o Juízo for de conhecimento ou de gosto (teórico ou estético), e não propriamente porque a Arte usa a perspectiva e a mecânica e o Iphone é “bonito”?!! Ainda hei-de perceber o que será a tal “miscigenação epistemológica” entre Arte e Ciência de que Celso fala… mas isto será, do que parece, já teoria a mais para o Kantismo mal digerido da nossa “critica de imprensa”. Falar da relação entre plano de referência e plano de composição, de funções e de sensações, de observadores parciais e de figuras estéticas, interesses e estilos (em relações sempre estreitas com planos de imanência, personagens filosóficas e conceitos, enquanto condições problemáticas, incógnitas e soluções, segundo um gosto) é, definitivamente, pedir demais. O resto, já conhecemos: o insulto fácil, sobre “modas” e “fanatismo messiânico ciber qualquer coisa a-critico”… Falta neste campo, admitamos, critica digna desse nome para que se possa entre nós consolidar um espaço público vivo e aberto ao futuro, onde a arte problematiza a ciência e vice-versa … assim a querela estética é na verdade “pregão aos peixes”…

Triste condição de vivermos no terceiro mundo, com o mais baixo índice de cultura cientifica da OCDE. Esta é a minha grande critica ao INSIDE: os promotores do evento deveriam ter sabido destas limitações do público e ter tentado enfrentar a questão de frente no próprio espaço (e não apenas no programa). Do que conheço da Dra. Rosália e do Dr Mariano, ambos serão também vitimas de “preconceitos” quanto ao que é Arte (e o que é Ciência) pelo que terão também dado o seu contributo para a amplificação dos mal –entendidos e, infelizmente, Leonel parece ter sido incapaz de equilibrar o discurso e estar atento para as pontes que era necessário lançar entre públicos. Desta forma, apenas permitiram as leituras mais banais (da comunidade artística mas também cientifica) e, como podemos facilmente comprovar, reforçar em vez de combater a desinformação e o desinteresse mutuo . Assim se perdem grandes oportunidades…
Encontramo-nos na ArsElectronica em Linz, na Austria ou na ArtFutura em Barcelona 😉

1) “À primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa trivial e que se compreende por si mesma. Pela nossa análise, mostramos que, pelo contrário, é uma coisa muito complexa, cheia de subtilezas metafísicas e de argucias teológicas. Enquanto valor-de-uso, nada de misterioso existe nela, quer satisfaça pelas suas propriedades as necessidades do homem, quer as suas propriedades sejam produto do trabalho humano. É evidente que a actividade do homem transforma as matérias que a natureza fornece de modo a torná-las úteis. Por exemplo, a forma da madeira é alterada, ao fazer-se dela uma mesa. Contudo, a mesa continua a ser madeira, uma coisa vulgar, material. Mas a partir do momento em que surge como mercadoria, as coisas mudam completamente de figura: transforma-se numa coisa a um tempo palpável e impalpável. Não se limita a ter os pés no chão; face a todas as outras mercadorias, apresenta-se, por assim dizer, de cabeça para baixo, e da sua cabeça de madeira saem caprichos mais fantásticos do que se ela começasse a dançar” (IN: “O Capital” – Capítulo 1, Seção 4)

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