O Olho – “tem mãos puras, mas não tem mãos”

Bacon – Lógica da sensação (tradução minha…) Onde Deleuze enquadra a sensação de Malevich
(e que José Gil deixou “obscuro” na sua “última aula”)
Gilles Deleuze – Francis Bacon – Lógica Da Sensacão


Cap. 12 O Diagrama

1) Pintura Abstracta, código e espaço ÓPTICO –
2) Action Painting, Diagrama e o espaço MANUAL –
3) O que Bacon não aprecia nestas duas soluções

1- “Abstracção seria uma destas 3 vias [“modernas de abraçar o caos não-figurativo, a sua relação com a ordem pictural a vir, e a relação dessa ordem com o caos”] mas uma via que reduz o abismo ou caos (assim como o MANUAL) a um mínimo: oferece-nos um ascetismo, uma salvação espiritual. Através de um intenso esforço espiritual, ele ergue-se a si próprio acima do dado figurativo, mas torna o caos numa simples linha que temos de atravessar de forma a descobrir as Formas ABSTRACTAS E SIGNIFICANTES.

O quadrado de Mondrian deixa o figurativo (paisagem) e salta para o caos. Ele mantém porém um tipo de oscilação neste salto. Esta abstracção é essencialmente VISTA. Somos tentados a dizer da pintura abstracta o que Peguy disse da moralidade Kantiana: “tem mãos puras, mas não tem mãos”. [0 MANETA….]

Isto é porque as formas abstractas são parte de um novo espaço puramente ÓPTICO que não tem mais sequer que subordinar-se a elementos tácteis ou manuais. De facto, elas são distintas de simples formas geométricas por “tensão”: tensão é o que internaliza no visual o movimento manual que descreve a forma e as forças invisíveis que o determinam. É o que faz a forma uma transformação propriamente visual. Espaço abstracto ÓPTICO não tem necessidade de conexões tácteis que a representação clássica continuava a organizar.

Mas o que a pintura abstracta vem a elaborar é menos um diagrama do que um CÒDIGO SIMBÓLICO. Este código é “digital” que conta. “Dígitos” são unidades que agrupam termos visuais em oposição. Assim, de acordo com Kandinsky, vertical-branco-actividade, horizontal-preto-inercia, etc. Daqui derivou-se uma concepção de oposição binária que é escolhida por escolhas ao acaso. A pintura abstracta levou a elaboração de um tal código pictural muito longe (como nos alfabetos plásticos de Auguste Herbin nos quais a distribuição de formas e cores pode ser feito de acordo com as letras de uma palavra).

É o código que está responsável por responder à questão da pintura hoje: “O que pode salvar o homem do “abismo, do tumulto exterior e do caos MANUAL? Abrir um estado ESPIRITUAL para o homem do futuro, um homem SEM MÃOS? Restaure-se ao homem um ESPAÇO ÓPTICO puro e interno, que será talvez feito exclusivamente da horizontal e da vertical. “O Homem modernos procura descanso porque está derrotado pelo exterior…”. A mão é reduzida a um dedo que prime um teclado óptico.

Um segunda via, muitas vezes chamada expressionismo abstracto ou art informal, oferece uma resposta inteiramente diferente, no extremo oposto do abstraccionismo, Desta vez o abismo do caos é levado ao seu máximo. (…)

4 thoughts on “O Olho – “tem mãos puras, mas não tem mãos”

  1. sonia diz:

    Voz-mão-olho

    o triângulo que, em o “Anti-Édipo”, intitula o subcapítulo «Voice, graphism, and eye: the theater of cruelty».

    O mesmo triângulo que, no Estado-Cão, se inverte para olho-mão-voz.

    «This is indeed what must be called a debt system or territorial
    representation: a voice that speaks or intones, a sign marked in bare flesh, an eye that extracts enjoyment from the pain; these are the three sides of a savage triangle forming a territory of resonance and retention, a theater of cruelty that implies the triple independence of the articulated voice, the graphic hand, and the appreciative eye. Such is the manner in which territorial representation organizes itself at the surface, still quite close to a desiring-machine of eye-hand-voice. A
    magic triangle». – AE

    «Civilizations cease being oral only through losing the independence and the particular dimensions of the graphic system; by aligning itself on the voice, graphism supplants the voice and induces a fictitious voice». – AE

    «… it is debt — open, mobile, and finite blocks of debt: this extraordinary composite of the speaking voice, the marked body, and the enjoying eye. All the stupidity and the arbitrariness of the laws, all the pain of the initiations, the whole perverse apparatus of repression and education, the red-hot irons, and the atrocious procedures have only this meaning: to breed man,* to mark him in his flesh, to render him capable of alliance, to form him within the debtor-creditor relation, which on both sides turns out to be a matter of memory — a memory straining toward the future.» – AE

    «It could be that, spiritual or temporal, tyrannical or democratic, capitalist or socialist, there has never been but a single State, the State-as-dog that “speaks with flaming roars.” And Nietzsche suggests how this new socius proceeds: a terror without precedent, in comparison with which the ancient system of cruelty, the forms of primitive regimentation and
    punishment, are nothing» – AE.

    «Some of us can be moved by certain voices in the cinema. Bogart’s voice. What interests us is not Bogart as subject, but how does Bogart’s voice function? What is the function of the voice in speaking him? It’s not the same function at all in the American comedy or in the detective film. Bogart’s voice, it can’t be said that this is an individualizing voice, even though it is that also, this is the pulsed aspect of it: I deterritorialize myself on Bogart. He wrests something, as though an emission—it’s a kind of metallic voice, Claire says that it’s a horizontal voice, it’s a boring voice—it’s a kind of thread which sends out a sort of very very very special sonorous particles. It’s a metallic thread that unwinds, with a minimum of intonation; it’s not at all the subjective voice».- aulas sobre “Anti-Édipo”, 3/5/1977

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