Crítica | A objectividade da ética| Thomas Nagel : A última palavra

Excerto na Critica na rede da "Última Palavra" de Thomas Nagel

Fb > 14 de Novembro de 2009 às 20:03

Nagel ACREDITA “que se nos perguntarmos SERIAMENTE como REAGIR às propostas de contextualização e distanciamento relativista, essas propostas NÃO CONSEGUIRÃO convencer”. Nagel tem fé que “APESAR DE SER MENOS CLARO do que em algumas das outras áreas que discutimos, as tentativas para sair completamente para o exterior d…a linguagem objecto das RAZÕES PRÁTICAS, do bom e do mau, do bem e do mal, e para encarar todos esses juízos como expressões de uma perspectiva contingente e não objectiva, ACABARÃO por se desmoronar perante a FORÇA INDEPENDENTE dos próprios juízos de PRIMEIRA ORDEM.”

Nagel parece permitir-se, apesar de todos os cuidados, referir ao método de construção OBJECTIVA na Razão Pura, no juízo sobre o SER, no esquema causa e efeito no espaço-tempo, sobre determinação do entendimento, próprio da Ciência (Epistemologia), para ACREDITAR, para fundar mais do que fundamentar, que há algo igualmente OBJECTIVO (pré-determinado?) do lado da liberdade, na Razão Prática, no juízo sobre o DEVER-SER. Natureza e História confundem-se. As questões sobre a relação entre saber e poder, na História, parecem não perturbar minimamente Nagel já que a Ordem Cosmológica, universal e eterna, no universo, PARECEM indicar-lhe uma Ordem Moral para humanidade, igualmente a prior (onde é que já ouvimos isto? ah… teologia… Deus como garante simultâneo do sentido do Ser e dos valores do Dever-ser).

Nagel OBRIGA a falar da relação objectivo/não-objectivo, numa dialéctica que nos mete no meio dos cornos montados pelo falso movimento dialéctico, sem fundar de forma alguma o polo “OBJECTIVO” moral, que se impõe sem se explicar, muito menos fundamentar. Tem uma crença, mais do que um saber, e uma proposta “bem intencionada”, mais do que um processo, como meios para “lá” chegar. Os demais são rotulados de “relativistas” e “contingentes”. Não construtivistas genéticos, por exemplo (só para mostrar algum trabalho de casa…)

Não falamos aqui realmente do momento estético e político, do juízo Reflexivo (harmonização sem regra), antes de se fazer Determinante (segundo síntese a prior e imperativo categórico), momento de indeterminação e de criação de Sentido e Valores, de acontecimentos hoje, que se farão Verdade e Moral amanha (nada sabe, na verdade, das diferenças entre um “idealismo transcendental” e um “empirismo transcendental”, sobre a diferença entre “toda a experiência possível” e “experiência real”). Estética e Política serão génese históricas demasiado impuras para o re-conhecimento, a (re)descoberta (a reminiscência moderna) das questões e das proposições “Moralmente Objectivas” (universais e eternas, lá no “céu”), numa comunidade de boas almas, bem intencionadas, dotadas dos critérios justos a prior re-descobertos.

A questão da Génese fica-se assim, preguiçosamente, pela crença numa referência enigmática, mas imperante, a uma PRIMEIRA ORDEM (que comunga provavelmente com os átomos o seu sentido e os seus valores). Seriamente. Nagel parece nem se re-colocar claramente a terceira antinomia da Liberdade… 200 anos depois de Kant… Nagel nem nos parece conseguir resolver o perigo do solipsismo nem garantir a liberdade e a indeterminação (muito menos a criatividade e o “acontecimento”) num mundo tratado à semelhança (pelo menos tendo como modelo) das “causas-efeitos” (sendo que, hoje, é a indeterminação que se introduz na própria serie das causas e efeitos da ciência)?

Nagel fabula sobre um sujeito imediatamente autónomo que se auto-determina, senhor dos seus contratos, onde a criança e o adulto não se diferenciam (não há realmente o vir-a-ser adulto como processo de normalização e relação de poder, a relação entre posições e disposições estruturalmente “objectivas”). A ordem do clã confundindo-se organicamente com a do estado, assim como o homem com a mulher, o poderoso com o impotente… em prol de um discurso algo banal nas suas “boas intenções”, generalizando e abstraindo a partir de referencias a uma “objectividade” universalizável que, mal se raspa a superfície, surge como estética e historicamente condicionada (e bastante conformada, diga-se de passagem 😉 ). A criatividade completamente castrada e a construção tida como secundária.
Se pelo menos lessem os “outros” para saber o que andam realmente a fazer e a dizer (os seus retratos do “outro” são, sejamos honestos, extremamente pobres e mal informados).

Comentário 1

Hibrido mutante : 15 de Novembro de 2009 às 18:48

Fica aqui o meu comentário ao post elogioso de Nagel pelo Sr Prof Areal, que despoletou este meu post como “resposta”. Em prol de um diálogo informado sobre a filosofia contemporânea e o seu ensino 😉

Para alem da profissão de fé da conclusão (“Acredito que (…) o apelo à contextualização e distanciamento relativista(…) acabará por desmoronar” ) podiam esclarecer-me quais são exactamente os Argumentos de Nagel em prol da objectividade e como se fundamentam as suas Permissivas de “Primeira Ordem” (que não percebi aqui quais são nem como se chegou a elas)? O acto de fé chega para as fundar sem fundamentar? Como se evita aqui o fanatismo daqueles que se reclamam emissários/fundadores de uma Primeira Ordem? Não é isto um idealismo perigoso, similar às convicções fortes que nos levaram aos piores momentos do sec. XX? Não é com este tipo de argumentos que os neo-conservadores, por exemplo, se convencem e impõem quando podem o seu papel missionário no mundo?

Do texto (e da obra, mas não vou por ai ;), não percebo de todo o que é a “objectividade moral” (e a não-objectividade correspondente)? O quê/quem determina a sua”rectidão” que pode ser “distorcida”? Podem esclarecer-me melhor?… Ver mais

Não criticando aqui a visão de Nagel sobre a “objectividade na ciência” (bastante redutora atendendo aos desenvolvimentos da epistemologia contemporânea- ver por ex. Stengers), não percebo como faz ele a passagem para a “objectividade moral” como análoga desta? A Verdade é análoga à Moral? A Natureza análoga à História? A causa-efeito análoga aos meios-fins? O que distingue o cálculo (com regras a prior) da decisão (onde as próprias regras têm ainda de ser criadas)? O juízo determinante (puro e prático) dispensa o reflexivo (estético e político-histórico) ? O que separa o entusiasmo moral do fanatismo?

Não é aqui debatida a terceira antinomia (liberdade ou determinismo). Esta antinomia dinâmica é redutível a alguma antinomia matemática?

Finalmente… todo o debate Derrida-Habermas, por ex., é redutível a esse tal “apelo ao contexto e ao distanciamento relativista”? Não é isto uma má caricatura, quando não desconhecimento, destes 2 autores? Não estará Nagel em risco de re-inventar a roda por pre-conceitos em relação a outras tradições (algo pouco ético e filosófico 😉 ?

Um último apelo: Srs professores, quando ensinarem os vossos alunos, permitam-lhes o acesso informado e sem preconceitos à historia da filosofia e evitem, dentro dos possíveis, as tomadas de posição. Só assim se poderá reduzir os inevitáveis efeitos de doutrinação ideológica inerentes à educação 😉 (fica também aqui a pista de porque achei melhor evitar o “debate (ou a querela 😉 que me lançou sobre a ideologia no ensino 😉 Partimos de premissas diferentes pelo que os argumentos não se entendem mutuamente 🙂 ” Será sempre porém, realmente… um bom exercício 😉

Rui Areal

numa simplificação nada aconselhada em filosofia diria que a posição de Nagel é esta: entender a objectividade como um esforço em níveis para nos distanciarmos da nossa visão particular em direcção a uma perspectiva universal. Aconselho tb a leitura do livro «The view from nowhere» que como o nome indica se dedica exactamente a procurar esse ponto de vista universal e não relativo. Se o consegue ou não, …

15 de Novembro de 2009 às 20:58

Hibrido Mutante

Obrigado 🙂
Penso que percebo 😉 e Nagel é até um dos meus preferidos nesta “tradição” 🙂 com o seu artigo sobre morcegos 😉 a fazer uma grande aproximação entre “campus” distintos… mas depois 🙂 há algo na sua posição-decisão e relativa omissão dos demais esforços nesse campo, por tradições paralelas mas contemporâneas da sua, que me tiram do sério… depois há a história (mesmo genética) e a indeterminação real que nos afastam… questões de “tempo” e “mutação”….acho… 🙂 li-o na verdade pouco para tomar uma posição geral, muito menos definitiva … considere que é uma posição a este texto, como o encontrei “descontextualizado” no meu “mural” :), tomando posição entre” duas tradições que ele próprio posiciona em meia dúzia de parágrafos).Dizer que “Just as there are rational requirements on thought, there are rational requirements on action, and altruism is one of them” (Nagel – Possibility of altruism”) é fazer uma passagem, fundando uma analogia, da realidade num regime de frases “teórico”, cientifico, de causas-efeitos, para um regime “prático”, ético, de meios-fins, onde a liberdade delibera sobre o “melhor” (o Bem)… mas se confronta também com o in-deci-dível… com o por-deci-dir 😉 Excluir o histórico-politico do prático é como excluir o experimental do teórico, mas tem, digamos… distintos efeitos “práticos”…. engenharia mecânica nunca será análoga à engenharia social (apesar da ilusão da cibernética e não só), o uso da analogia aqui merecendo talvez mais ser criticada do que professada 😉

mas é, estou cada vez mais ciente disso, toda uma forma diferente de sentir os problemas e pro-pôr as questões que dão esta interessante disparidade (diferendo?) de soluções 🙂

15 de Novembro de 2009 às 22:19 ·
31 de Março de 2010
Hoje teria muitos outros comentários a fazer… depois de ler este e o pequeno “Que quer dizer tudo isto”…
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