Debate na “Critica na rede” em redor de Sokal…

Debate na "Critica na rede" em redor de Sokal...

(…)
Sophia disse…
Julgo ser relevante para o tipo de debate que aqui se gerou:

«Don’t be afraid of authorities — there is no authority. (…) You will not be an authority to somebody else. Nobody can be an authority to anybody else. This whole idea of authority has to disappear from the world. Yes, people can share their experience, but that is not authority. I don’t want to force anything on you — not a single word, not a single concept. My whole effort is somehow to make you alert and beware of all authorities. And the moment you see there is some authority hanging around your being, throw it out. (…) There are people who are in a hurry to impose some idea of their own on you, because once that idea is imposed, you are psychologically enslaved. (…) I am interested in you throwing any kind of garbage that you are carrying. And I call it garbage because it has been given by others to you; it is not yours. Remember it: only what you experience is yours.»

Não interessa comparar, nem fazer valer como lei para todos que um autor é maior do que outro, porque cada um só confiará na sua própria experiência ou não passará de um tolo…

O próprio Deleuze declarou querer ser poupado a escolas e discípulos, portanto, sem saber, talvez o Sokal lhe preste, na realidade, serviço, evitando que uma série de gente se torne deleuziana.

27 de Dezembro de 2009 17:31
Desidério Murcho disse…
Só que a realidade é que autores como Deleuze ou Derrida não costumam ser estudados criticamente. Para já, começa por ser uma tal confusão nas aulas e nos textos sobre eles, que nunca se consegue identificar bem o que eles defendem. Sempre que se começa a pôr em causa algo que parece que defendem, responde-se que afinal não é isso que eles defendem mas outra coisa. Isto é feito propositadamente, para que o autor nunca possa ser posto em causa. E por isso, por mais que Nietzsche ou Deleuze afirmem que querem pôr os outros a pensar por si mesmos, eles não escrevem de modo a estimular isso nas pessoas; pelo contrário, escrevem de modo a fazer discípulos acríticos. A prosa de Russell ou Frege ou Kripke ou Mill é um convite permanente à discussão porque os autores apresentam argumentos cuidadosamente a cada passo e formulam objecções a que procuram dar resposta. Isto não acontece geralmente nos textos da chamada filosofia continental, que são escritos como se o autor tivesse tido uma revelação celestial, restando agora aos leitores aquecer a alma à luz da Verdade Revelada.

Mas concordo numa coisa: o que conta não é tanto o texto do autor, mas o que se faz com ele. Tanto é possível ler religiosamente Deleuze como Russell, e há infelizmente muita gente a ler religiosamente Russell. E tanto é possível ler criticamente Russell como Deleuze. Contudo, não deixa de ser verdade que, estatisticamente, quem lê criticamente os filósofos e os discute tem tendência para não discutir autores como Deleuze ou Derrida. Mas isto não é por preconceito. É porque as ideias destes autores, quando são discutidas seriamente, ao invés de serem meramente adoradas e parafraseadas, relevam-se desinteressantes, baseadas em confusões e pura e simplesmente incompetentes intelectualmente; por isso, não vale a pena perder tempo a discuti-los — mas isso não se nota se nos limitarmos a parafraseá-los.

O que provoca azedume em relação à filosofia analítica é o simples facto de que para a fazer é preciso dominar uma série de instrumentos teóricos que quem não tem formação analítica desconhece. Quem não tem formação analítica não sabe o que é um argumento, nem um argumento válido, nem distingue a validade da verdade, nem sabe o que é um argumento sólido, não distingue um argumento falacioso de um argumento válido, não sabe sequer o que é uma falácia, nem qual é a diferença entre uma frase e uma proposição, não sabe o que é uma definição, nem que tipos de definição existem, confunde sistematicamente palavras com coisas, não sabe definir o conceito de necessidade nem de contingência, não sabe fazer uma reconstrução teórica a partir de um texto — só sabe parafraseá-lo — é incapaz de levantar objecções pertinentes a uma dada teoria ou argumento, etc., etc., etc. É isto que provoca tanto azedume em relação à filosofia analítica. Tal como os astrólogos têm azedume em relação à astronomia — porque não sabem fazer astronomia, mesmo que quisessem.

28 de Dezembro de 2009 10:24
Sophia disse…
Com todo o respeito, tem a noção de que faz juízos subjectivos dos autores que menciona?

Todos temos preferências quando lemos, mas devemos ter a abertura e a humildade para admitir que não somos detentores exclusivos da razão, e de que, por vezes, não gostamos de um autor porque ainda não entrámos verdadeiramente nele, ainda não dominamos os seus conceitos e o modo sistemático como se relacionam.

Se alguma vez as obras de Deleuze ou Derrida ou qualquer outro autor da filosofia continental (que visa com tanto menosprezo) vierem a suscitar-lhe interesse, aconselho-o a não ler textos SOBRE eles, antes de os ter lido a ELES. Um original fica a milhas de um mero comentador.

Repare que eu não digo que Russell, Frege, Kripke, Mill, Wittgenstein, Meyer, Carnap, etc. não têm o seu lugar na história da filosofia.

O que é indecoroso é pretender que só eles têm seriedade e reduzir toda a filosofia a um dos seus ramos – a Lógica – isso sim começa a soar a fervor religioso e a ignorância dos demais ramos disciplinares.

Quer acredite quer não, Deleuze e Derrida são bastantes sistemáticos, mas, é claro, é preciso partir de um certo patamar de estudo e compreensão prévios. São obras demasiado complexas para se apreenderem com leituras pontuais, apressadas, transversais ou através de antologias e resumos alheios.

Pode pôr em causa os autores que quiser, mas, para ser levado a sério, tem de demonstrar primeiro que leu e domina os conceitos do autor em questão e colocá-lo em causa no seu próprio terreno.

Foi isso que Deleuze fez a Kant, numa obra que recomendo vivamente: “A Filosofia Crítica de Kant”.

Não chega mandar umas “bocas”: “ah, eles não escrevem de modo que se perceba”.

Experimente dar Russell a ler à senhora da limpeza e rapidamente perceberá que o que diz dos autores continentais também é válido para os seus estimados analíticos. Tanto para uns como para outros, é necessário adquirir um vocabulário muito próprio, “instrumentos teóricos” (como diz).

Para terminar, acho que os astrónomos têm mais azedume em relação aos astrólogos do que o contrário, pois a Astrologia tem mais de quatro milénios de História, enquanto a Astronomia como disciplina autónoma tem no máximo quinhentos anos…

28 de Dezembro de 2009 17:07
Desidério Murcho disse…
Começando pelo fim, a idade não é uma boa credencial. Por exemplo, a discriminação das mulheres é muito mais antiga do que o respeito por elas, mas o respeito por elas tem mais credenciais do que a sua discriminação. A superstição também é muito mais antiga do que o estudo cuidadoso das coisas, mas daí não se segue igualmente que é melhor do que o estudo cuidadoso das coisas.

Nenhuma prática artística, científica ou filosófica tem interesse se não for possível fazê-la mal. Penso que toda a gente concorda com isto. Por isso agora a questão é só saber se os chamados filósofos continentais são ou não intelectuais competentes. Eu jamais afirmei que nenhuns deles são competentes, mas parece-me óbvio que alguns deles não são competentes. Basta ler o livro de Sokal, que aconselho vivamente. É aliás muito parecido a outro livro que aconselho vivamente, de Sagan (http://criticanarede.com/html/lds_demonios.html), sendo este sobre a pseudociência.

Pensar que a filosofia analítica é só lógica revela desconhecimento da história da filosofia. A filosofia analítica é estética, filosofia da religião, ética, filosofia política, etc.

Dito isto, toda a gente tem o direito de estudar, publicar e ensinar o que muito bem lhe apetecer. E eu tenho o direito de dizer que alguns autores da chamada filosofia continental são impostores. Qual é o problema? Afinal, esses autores também pensam que a filosofia analítica é colonialista, redutora e logicista. E têm todo o direito de pensar isso, porque as pessoas têm o direito de pesar qualquer idiotice que lhes apetecer.

Qual é o problema de fazer juízos de valor subjectivos? O que seria um juízo de valor objectivo? E como pode alguém que defende autores que defendem que a objectividade é um mito atacar juízos de valor subjectivos?

29 de Dezembro de 2009 15:46
José Oliveira disse…
Desidério,
Quando afirma que “nenhuma prática artística, científica ou filosófica tem interesse se não for possível fazê-la mal”, o que quer dizer em concreto com isso?

Té,

30 de Dezembro de 2009 03:33
Sophia disse…
A História demonstra que não se deu esse progresso linear que afirma. Não caminhámos de uma Antiguidade que desrespeitava as mulheres para uma contemporaneidade que as respeita. É escusado referir exemplos, infelizmente demasiado célebres, que circulam nos media. No passado, muitas sociedades eram matriarcais (ainda hoje, há tribos que o são) e as mulheres ocupavam lugares privilegiados na hierarquia. Duvido que actualmente as hierarquias religiosas autorizassem uma En-hedu-Ana, por exemplo.
Quanto à superstição ser mais antiga que o estudo cuidadoso das coisas também é altamente questionável. Há um ensaio de Umberto Eco que expõe como racionalidade e irracionalidade trocam tantas vezes de papéis, e como o seu sentido se altera ao longo do tempo.

«Any way of thinking is always seen as irrational by the historical model of another way of thinking, which views itself as rational. Aristotle’s logic is not the same as Hegel’s; ratio, ragione, raison, reason, and Vernuft do not mean the same thing. (…) Historiography has shown us that it is impossible to separate the Hermetic thread from the scientific one or Paracelsus from Galileo. Hermetic knowledge influences Francis Bacon, Copernicus, Kepler, and Newton, and modern quantitative science is born, inter alia, in a dialogue with the qualitative knowledge of Hermetism.» –

http://books.google.pt/books?id=wbhROmD3guQC&lpg=PA33&ots=LNWYUnDBQ-&dq=%22umberto%20eco%22%20mystic%20reason&pg=PA23#v=onepage&q=&f=false

É claro que pode sempre dizer que Umberto Eco não é sério e desatar a pôr em causa uma série de autores reconhecidos e laureados em todo o mundo – uma coisa é certa, não granjeará mais credibilidade por isso.

[Vou ter de dividir o meu comentário em duas partes, dado que a plataforma não deixa de uma vez só]

Como já o vi defender que «em relação à filosofia analítica (…) para a fazer é preciso dominar uma série de instrumentos teóricos que quem não tem formação analítica desconhece», surpreende-me que reconheça tão depressa competências filosóficas a Alan Sokal, professor de Física e Matemática. Parece que, afinal, não é preciso ter a tal formação e que Física e Filosofia é tudo a mesma coisa. Como dizia Wittgenstein, «os matemáticos são tão maus filósofos».

Tendo lido os argumentos de Sokal, subscrevo o que leitores informados e autênticos filósofos disseram: que não é sério. Críticas a Sokal (disponibilizadas na página do próprio):
http://www.physics.nyu.edu/faculty/sokal/folha.html#prado
http://www.physics.nyu.edu/faculty/sokal/folha.html#derrida

Nunca disse que a filosofia analítica era só lógica. O seu discurso é que parece reduzi-la a tal, pela forma como define «formação analítica»: «Quem não tem formação analítica não sabe o que é um argumento, nem um argumento válido, nem distingue a validade da verdade (…)»

Sei bem o quanto a filosofia analítica anda imiscuída de Teologia e respectivo fervor religioso.

«J’entends que Wittgenstein ne me paraît pas être une source de paradoxes mais être une espèce de grand inquisiteur, lui. C’est terrible tout ça, vous savez. On a pas le temps, mais retenez ça, le lien fondamental entre la logique et la Théologie. Je crois que la théologie est la matière naturelle de la logique jusqu’à un certain temps(…)» – Deleuze, http://www.webdeleuze.com/php/texte.php?cle=139&groupe=Leibniz&langue=1

Respondendo à sua pergunta «como pode alguém que defende autores que defendem que a objectividade é um mito atacar juízos de valor subjectivos?». Refere-se ao aforismo foucauldiano «Não escrevi senão ficções»?

A sua interpretação é, portanto, de que Foucault defende que a objectividade é um mito e, como tal, impera a relatividade subjectiva. É o tipo de interpretação que chamaria de “cartesiana”, limitada pelo dualismo sujeito-objecto. Está longe de ser a interpretação mais adequada.

Deleuze, no seu livro sobre Foucault (p. 114), expõe de que forma o dualismo foucauldiano não é um dualismo cartesiano.

Enfim, leituras que qualquer professor de Filosofia, mais não fosse por brio profissional, devia fazer e procurar compreender.

Parafraseando um notável escritor português, Deus deve gostar muito de idiotas, para haver tantos!

30 de Dezembro de 2009 12:22
Desidério Murcho disse…
Sem saber o que é um argumento não é possível fazer filosofia, e isto nada tem a ver com reduzir a filosofia à lógica. A física não se reduz à matemática, nem a sociologia à estatística, mas nenhum físico competente pode desconhecer os instrumentos matemáticos fundamentais nem um sociólogo pode desconhecer a estatística.

Não estou interessado em persuadir seja quem for que a filosofia continental é uma trapaça intelectual. As pessoas fazem o que lhes apetecer.

O seu argumento inicial baseava-se nas credenciais da tradição. Eu ripostei dizendo que a tradição não é autoridade para coisa alguma. E você responde que há muitas tradições. Pois há. Mas precisamente por haver muitas nenhuma pode constituir um argumento último que confira credenciais absolutas. Temos de pensar. Temos de argumentar. E temos de saber se os nossos argumentos são bons ou não, e para isso precisamos de saber o que é um argumento e o que é uma falácia e o que faz um argumento ser válido ou inválido. E nada disto é reduzir a filosofia à lógica. É apenas querer discutir ideias seriamente, em vez de fazer séries de citações.

Quanto à racionalidade, o seu inargumento consiste em apresentar-me uma autoridade. Ou seja, demonstra o que eu afirmei: a filosofia continental é fundamentalmente pensamento religioso disfarçado. Consulta-se a Bíblia, os Evangelhos, e temos a resposta. Em vez de apresentarmos argumentos por nós mesmos. Uma pessoa até pode concordar com Eco. Mas a questão é: qual é o argumento a favor de tal ideia de Eco? Do seu ponto de vista não é preciso argumento algum; basta ler Eco. Daí que a expressão “hipnose do intelecto”, usada por M. S. Lourenço para caracterizar a filosofia continental, tenha todo o cabimento.

Agradeço-lhe a sua bonomia e simpatia, mas devo dizer que parece que esta discussão não tem interesse. Como comecei por dizer, você tem todo o direito de estudar, publicar e pensar o que lhe apetecer da filosofia continental.

30 de Dezembro de 2009 13:36
Desidério Murcho disse…
Olá, Zé

Quero dizer que seria bizarro defender a seriedade de uma forma de arte, da ciência, ou da filosofia se não for possível fazer essas coisas mal. Pois se qualquer tolice serve, é porque a coisa em si não serve. O que seria uma gramática sem erros de gramática? O que seria uma forma de composição musical em que qualquer coisa serve? O que seria uma maneira de tocar piano em que qualquer coisa serve? Resposta: seria uma completa aleatoriedade, sem qualquer interesse.

É isso que ocorre na filosofia continental. Pode-se fazer qualquer coisa, e nada pode estar errado. Não há erros filosóficos na filosofia continental. Há erros históricos, erros de português, erros de interpretação dos filósofos do passado, mas não há erros filosóficos. Não se pode errar. Não se pode escrever seja o que for que outra pessoa com a mesma formação continental possa mostrar que está errado e porquê.

30 de Dezembro de 2009 13:40
José Oliveira disse…
Desidério,

agora compreendo.
Principalmente quem ensina (e todos temos esse papel, numa altura ou outra) deve aprender a lidar com o erro. Com o erro alheio, mas também, e fundamentalmente, com o seu próprio.
A forma como a filosofia aborda e sistematiza o erro (mesmo quando as opiniões se dividem!) pode ser de grande utilidade para as demais disciplinas e até para moldar atitudes – como a criatividade, sentido crítico e a solidariedade.
Prestará mau serviço (no ensino ou em qualquer outro ramo) aquele que não souber ajuizar a melhor maneira de abordar o erro do outro ou de admitir o seu próprio erro.
Será difícil, mas nestas matérias deve-se pôr sempre de lado o orgulho e a vaidade.

Quanto ao tema em foco:
O Desidério já o referiu e eu agora cito-o (Carl Sagan, “O Mundo Infestado de Demónios”):
“Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer – mesmo coisas que sabemos serem erradas.”

té,

30 de Dezembro de 2009 14:26
Sophia disse…
Deixe-me dizer uma última coisa…

É redutor açambarcar e colocar sob um mesmo epíteto autores tão diferentes, rivais e até incompatíveis – e isto é válido tanto para a Filosofia Analítica como para a Continental.

Por exemplo, do lado dos analíticos, A. J. Ayer critica Wittgenstein; do lado dos continentais, Foucault critica Derrida e vice-versa; etc., etc.

Como pode afirmar que na filosofia continental não há crítica nem erros? Então nunca se criticou Heidegger, Lyotard, Badiou? Como pode desconhecê-lo?

Essa divisão Analíticos vs. Continentais é artificial, simplista, e hipnotiza muitos intelectuais, mas não a mim. Só serve para abastardar diferenças irredutíveis e massificar a Filosofia como se fosse um receituário de clichés.

A sua observação sobre Eco não tem pernas para andar… Você, de forma idêntica, remeteu-me para Sagan! Quantos textos, quer seus, quer de filósofos analíticos, estão pejados de citações! E vem-me dizer que citar não é válido como argumento? Quem não cita, parafraseia, omitindo as fontes.

Seria presunção a mais atribuir-se um discurso original, quando tudo o que disse são ideias já feitas e conhecidas.

Um velho provérbio traduz a melhor atitude a adoptar por quem gosta de aprender – é ele: “não negar à partida aquilo que se desconhece”.

Esse abismo Analíticos vs. Continentais só servido de pretexto para a preguiça académica (“Não pertence à seita, então não leio”), para militâncias nacionalistas (“Nós os Anglo-Saxões, vocês os Franceses”), e para formar profissionais mentecaptos cada vez mais convencidos da auto-suficiência da sua razão e do seu ego, fechados no cadinho da sua especialização, com palas nos olhos para não verem mais nada senão o seu partido.

Esperava dos profissionais da Filosofia um comportamento diferente dos adeptos dos clubes de futebol.

30 de Dezembro de 2009 20:34
mecanosfera disse…
Caro Sr. Prof Desiderio

Acredito que partilhamos o mesmo desconforto quando vemos utilizações abusivas da metáfora cientifica, seja ela em redor da relatividade de Einstein, a incerteza de Heisenberg, o teorema de Godel, a dicotomia onda-particula da quântica, a máquina de Turing, a indeterminação do caos, a selecção natural do Darwin, etc, etc, etc. A critica que devemos dirigir ao seu uso displicente, seja na sua descrição seja nas inferências devem ser apontadas e retiradas as devidas consequências para a construção das variáveis, dependentes e independentes, assim como para o valor de verdade dos argumentos. Em última instancia reduzindo a nada a empreitada teórica do seu autor. Penso que concordamos e não saímos aqui de um “senso-comum” e de um “bom senso” partilhado.

Todos nós teremos tido senão lógica pelo menos metodologia científica e penso não ser abusivo dizer que neste campo a aprendizagem da filosofia não difere da de qualquer outra disciplina, seja das ciências ditas naturais seja das ciências ditas humanas. Todos por isso teremos aprendido o que é um Argumento, uma proposição, um termo. Todos nós teremos, melhor ou pior, aprendido a tabela dos juízos e teremos adquirido um conhecimento, pelo menos elementar, das falácias lógicas que ameaçam a construção de qualquer variável como de qualquer argumento. Só depois de muita evidência coloco a hipótese de um trabalho académico, publicado, ignorar estes requisitos formais mínimos. Mais ainda considerar que erros neste campo não se limitam a momentos infelizes numa obra, que os há entre os melhores, mas caracteriza na verdade um estado de ignorância geral do seu autor, mais ainda dos seus leitores. Falta-me soberba para tanto, admito, e dou sempre o benefício da dúvida ao autor, mais ainda às instituições que o avaliam e avalizam, assim como, claro, aos seus leitores.

Todos sabemos que em qualquer programa de investigação o momento talvez mais crítico é exactamente a determinação das variáveis independentes que, sustentado as premissas, põem em jogo toda a credibilidade da empreitada posterior. Em sociologia, por exemplo, tanto Giddens como Bourdieu, para apenas referir autores no campo da sociologia, reforçam a importância deste momento nas suas obras metodológicas, alertando para o perigo da construção do objecto “o imigrante”, o “burguês”, o “operário”, o “racista”, por exemplo, não ser mais que o depósito de preconceitos não criticados do investigador, aos quais os factos, enquanto valores, apenas poderão se submeter, fazendo proliferar generalizações, distorções e as inevitáveis zonas cegas. É em termos como “raça” ou “desvio sexual” que podemos detectar com maior facilidade a ideologia condicionar o valor de verdade de inúmeros argumentos pretensamente científicos que se produziram ao longo dos últimos séculos neste campo. Até no “marketing” esta é uma lição incontornável quando se trata da construção de “segmentos de mercado” por exemplo.

Espanta-me muito, por isso que, num programa que toma para si as maiores exigências formais, não tanto na arquitectónica da teoria quanto na exposição dos argumentos, privilegiando o momento analítico ao momento estético e, talvez mais ainda, ao dialéctico, se encontrem com tanta facilidade variáveis independentes descritas de forma tão difusa, mesmo preconceituosa e incompetente, sustentando-se muitas vezes mais em raciocínios que parecem dever à dialéctica tese-antitese do que propriamente a algo que consigamos identificar como análise. Sabemos, por exemplo, que o par ordenado Nominalista-Realista é problemático e exige do autor que a propõe que fixe claramente as condições de referencia que darão os limites nos quais a variável, tida como “independente”, entra numa proposição verdadeira (gosto aqui de dar o exemplo de Quine, no seu Word and Objects, último capítulo “Ontic Decision”, p. 233, primeiro parágrafo, porque me parece um momento particularmente hilariante na história da filosofia – mas sobre isso não irei argumentar aqui. Penso porém que qualquer leitor inteligente poderá reflectir por si sobre o momento em que passamos da duvida sobre a existência de “objectos abstractos” para, na proposição seguinte, se propor ostensivamente as categorias referidas, etc…😉 .

É por isso sempre com grande estupefacção que assisto à utilização abusiva e incompetente, entre pessoas que deveriam sem duvida saber mais e servir de modelo aos seus formandos, de funções proposicionais “É Continental” ou, talvez ainda pior, “pós-estruturalista” (que, supostamente, deverá formar um par ordenado com “Analítico”). Desde logo porque se por um lado podemos encontrar autores que explicitamente assumem o programa, a sua posição tética e o nome “Analítico”, nunca li ninguém minimamente interessante a assumir-se como “continental” ou “pós-estruturalista”, o que nos leva desde logo a suspeitar estarmos perante categorias que se constroem mais numa falsa relação dialética “analítico/não-analitco”, do que a partir de uma analise fina de ambas as linhas de argumentação.

Se tudo isto é problemático, um livro de Sokal torna-o ainda mais, já que não se pretende apenas construir uma variável “difusa “É Continental”, onde parece poder caber tudo e mais alguma coisa (incluindo supostos “analíticos” se atendermos às condições de referencia propostos, mas, mais grave ainda, pretende julgar sobre o valor de verdade “X é impostor” (e aqui não sentimos na verdade grande necessidade que se descreva a função proposicional “é impostor”).

É muito mau sinal que seja no próprio seio de pessoas mais ligadas ao projecto analítico que livros, medíocres em termos metodológicos, e banais ao nível das ambições teóricas, como o é o de Sokal, passem por “obras académicas” com “valor de verdade”. Conto que a academia nunca leve tão baixo a suas exigências ou temo que seremos subterrados pelas maiores aberrações teóricas enquanto teses defensáveis por qualquer aluno menos capaz ou honesto e difundidas lado a lado com os mestres.

É desastroso se o campo Analítico necessita de recorrer a este tipo de fenómenos editoriais que pouco parecem ter a ver com a vida académica para consolidar as suas posições metodológicas e teóricas.

Last but not the least, é um péssimo precedente que professores, divulgadores, tradutores, coordenadores editoriais, façam passar “Imposturas Intelectuais” como um exemplo teórico capaz de retirar o interesse de autores consagrados e com os quais a academia tem beneficiado largamente pelo nível do debate criado em todas as direcções, apesar dos inevitáveis abusos e generalizações grosseiras de que a retórica mais despudorada é capaz, fazendo-nos sempre lembrar que, para além do logos entram sempre em jogo, na argumentação, o ethos do autor e o pathos do auditório. Sokal parece-me dever todo o seu sucesso ao pathos, pouco ao logos e quase nenhum ao ethos… ele e os seus tristes defensores.

Não concorda comigo? Considera, segundo os seus exigentes critérios, a metodologia, as variáveis independentes, os argumentos de Sokal válidos? Deixaria um trabalho desta natureza passar como tese? Dá-o como exemplo? Utiliza as suas conclusões como premissas?

Pelo bem da disciplina que ensina e das instituições que representa, a todos faria um grande serviço se se retratasse e denunciasse a falta de rigor deste senhor, independentemente do assunto que trata. Fazia também um favor a todos se ajudasse a combater categorias difusas como “continentais” onde se pretende fazer caber autores tão distintos e distantes como Lyotard e Habermas, Heidegger e Levy Strauss, Derrida e Adorno, Deleuze e Badiou, Lautman e Serres, etc etc etc.

Finalmente, recomendo sinceramente, por bem da sua credibilidade, na academia como na agora, que leia mais e opine menos sobre o que não lê.

Melhores cumprimentos
Rui Mascarenhas

31 de Dezembro de 2009 12:44
Desidério Murcho disse…
Por que razão as pessoas se irritam tanto com as opiniões que as pessoas que escolheram fazer filosofia analítica do género de filosofia que fazem? Porque, evidentemente, não gostam de saber que há pessoas, muitas, que consideram que eles fazem trabalho sem interesse intelectual algum, ou que estudam autores que não têm qualquer interesse intelectual — autores que, depois de finalmente se entender o que querem dizer, no meio de tanta confusão linguística pretensiosa, nenhuma ideia interessante resta.

Estarão estas pessoas enganadas quanto ao interesse de autores como Derrida ou Deleuze ou Heidegger? Sim, podem estar enganadas. Mas é isto que as pessoas que têm hoje formação analítica mas que passaram pelas universidades dominadas pela filosofia continental pensam.

E como podem pensar isto, se obviamente não estudam esses autores que desprezam? Não é isso idiota? Sim, em parte. É como um astrónomo ou um matemático, que considera a astrologia ou a numerologia uma trapaça, mas na verdade não conhece bem essas áreas. No meu caso, o que conheço de autores como Heidegger? O que estudei dele nas aulas de graduação, e o pouco que dele li. Que foi suficiente para considerar que é uma tolice completa. Estarei enganado? Talvez. E há certamente pessoas que consideram Heidegger um grande filósofo. Eu, e muitas outras pessoas, consideram-no apenas um trapaceiro, que cativa apenas porque escreve de uma maneira bíblica, mas nenhuma ideia interessante defende adequadamente.

Note-se, contudo, que um dado autor pode ser uma trapaça intelectual e os estudos que se fazem dele terem qualidade. Lixo é lixo, mas um estudo sobre o lixo não tem de ser lixo. A minha experiência de aluno de graduação, contudo, foi assistir a tolices ainda maiores nos comentários a autores como Heidegger do que ao próprio Heidegger. Na verdade, comparando com o que eu ouvia nas aulas sobre Heidegger, o próprio autor era até um alívio perante tanto disparate.

Repito: as pessoas devem ter a liberdade de estudar, ensinar, publicar, e pensar o que quiserem. Mas não podemos fingir que não há quem considere que alguns autores são desinteressantes e até trapaceiros. Na verdade, isso é sistematicamente ocultado dos alunos. Carnap ou Russell são apresentados como figuras indignas da nossa atenção, mas oculta-se dos alunos que muitos académicos consideram que o trabalho de Heidegger ou Derrida ou Foucault ou Deleuze são puro lixo intelectual. Não estou a defender que quem pensa isto desses autores tem razão. Mas estou a defender duas coisas: 1) essas pessoas têm o direito de o pensar e divulgar; e 2) os alunos têm o direito que essas pessoas existem. E depois, compete a cada qual tomar a sua posição.

1 de Janeiro de 2010 12:35
Desidério Murcho disse…
Quanto à classificação cega entre filósofos analíticos e continentais, é irrelevante para a discussão. Podemos discordar da classificação, mas tudo fica igual. Em vez de dizer “filosofia continental” diga-se “autores como Heidegger, Foucault, Derrida, Deleuze, Lacan” e em vez de filosofia analítica diga-se “autores como Russell, Kripke, Swinburne, Plantinga”.

O que irrita na classificação é que se as pessoas que têm formação analítica não falarem de toda uma tradição filosófica que se auto-intitula “analítica,” os alunos nem nunca ficam saber que a única coisa que estudam é uma maneira peculiar de estudar filosofia, e que os comentadores e filósofos que estudam não são os únicos que existem, e nem sequer são consensualmente tidos como importantes no mundo académico.

Portanto, apesar de eu compreender que é irritante falar de filosofia continental, porque quem sempre fez filosofia continental fê-lo pensando que estava apenas a fazer filosofia, sem mais, é pura e simplesmente mentira dizer que o que essas pessoas estão a fazer é filosofia sem mais. O que estão a fazer é filosofia exclusivamente dentro de um determinado universo bibliográfico e metodológico, com contornos muitíssimo bem definidos. Chame-se-lhe o que se quiser, “Filosofia Autêntica,” por exemplo. Mas pretender que essa é a única maneira de fazer filosofia e passar essa ideia aos alunos é pura e simplesmente mentir-lhes.

1 de Janeiro de 2010 12:43
Sophia disse…
«…consideram-no apenas um trapaceiro, que cativa apenas porque escreve de uma maneira bíblica, mas nenhuma ideia interessante defende adequadamente».

O que diz aplica-se aos analíticos

– Alvin Plantinga:
http://philofreligion.homestead.com/Papersbyplantinga.html

– e Richard Swinburne:
http://www.leaderu.com/truth/3truth09.html

Acabou por nos fornecer as referências que corroboram «a ligação fundamental entre a Lógica e a Teologia».

De facto, esta discussão deixou de ter interesse – abandonou-se o campo da Filosofia e entrou-se no domínio do fanatismo religioso.

1 de Janeiro de 2010 19:47
Desidério Murcho disse…
Sophia, você está a confundir dois pares de coisas.

1) Não estou a defender que certos filósofos são trapaceiros, mas apenas que há quem considere que são trapaceiros. E isso não pode ser ocultado dos alunos e das pessoas em geral. É sobretudo esse o valor do livro de Sokal, e o meu argumento é que pessoas como a Sophia querem apenas queimar o livro de Sokal, escondê-lo, fingir que não existe, porque não querem que as alunos saibam que há quem considere esses filósofos trapaceiros. Saber se quem os considera trapaceiros tem razão ou não já é outra discussão — mas uma discussão que tem de começar por aceitar que há realmente quem os considera trapaceiros. Ora, por que razão você não quer que os alunos e as pessoas em geral saibam que há quem os considere trapaceiros? Porque basta as pessoas saberem que não é consensual que esses são grandes pensadores para as pessoas os começarem a ler com uma atitude mais crítica. E é isso que você não quer.

2) Você está a confundir um texto de estilo bíblico com um texto que discute clara e directamente problemas de filosofia da religião. Um texto bíblico pode até ser ateu — como é o caso de Nietzsche. É bíblico no sentido em que não apresenta argumentos cuidadosamente, não articula ideias, limita-se a fazer jogos de palavras e afirmações panfletárias, mas fá-lo de maneira a ser cativante para um certo tipo de leitores. Nem Plantinga nem Swinburne escrevem de maneira bíblica, apesar de serem filósofos crentes e que defendem a existência do deus teísta e a legitimidade epistémica da fé.

2 de Janeiro de 2010 13:27
Desidério Murcho disse…
O fanatismo precisa de fingir que não existe quem pensa de maneira diferente. Logo, quem é fanático é quem quer silenciar quem pensa que alguns filósofos são incompetentes e trapaceiros.

2 de Janeiro de 2010 13:35
mecanosfera disse…
Caro Sr Prof. Desiderio

Antes demais quero agradecer a amabilidade da sua atenção. Gostava de poder agradecer a sua resposta mas, sendo honesto, não me pareceu que o seu comentário tivesse os meus argumentos como contraponto, muito menos a minha pessoa como interlocutor já que me pareceu dirigir-se aos seus fantasmas e não ás minhas posições.

Penso ter resumido de forma clara as razões da minha intervenção: a mediocridade metodológica e a banalidade nas ambições teóricas de Sokal que deveriam coibir qualquer académico (diga-se ele “analítico”, “fenomenológico”, “construtivista genético”, sociólogo, historiador, físico, etc) de a utilizar nos seus argumentos, especialmente para denegrir os seus pares – “impostor” é um termo que deverá ser utilizado com grande cuidado na academia se não queremos transformar o debate no seu seio na mais ignóbil “peixeirada”. Cabe aos Srs professores garantir a elevação dos argumentos e não o deixar resvalar para a troca gratuita de piropos e insultos. Mais ainda, não permitir que qualquer das partes se faça valer de argumentos desinformados, turvados pelas paixões e, definitivamente, dos desonestos.

Repito o meu repto:
“Considera, segundo os seus exigentes critérios, a metodologia, as variáveis independentes, os argumentos de Sokal válidos? Deixaria um trabalho desta natureza passar como tese? Dá-o como exemplo? Utiliza as suas conclusões como premissas?”

Em geral pareceu-me que respondia positivamente a todas as minhas questões mas não fiquei certo disso já que só indirectamente vi estas questões presentes nos seus argumentos. Se assim é receio que a exigência ao nível dos cuidados sobretudo na construção das variáveis independentes mas igualmente na recolha das fontes indirectas, e a seriedade no desenvolvimento dos argumentos, estejam hoje, pelo menos no campo onde o Sr. intervém, mais descuradas do que no mais banal curso de marketing… sintoma ao que terá chegado o descuido e a displicência no campo da nossa amada filosofia.

Quero assim centrar a minha intervenção neste ponto que se tornou critico pela forma despudorada como tem vindo a ser utilizado enquanto premissa: Sokal não fornece argumentos dignos do debate académico, nem mesmo do espaço público, pelo que deve manter-se fora das suas arcadas, remetendo-o enquanto “hoax” para os jornais e a sociedade do espectáculo onde foi realmente criado e divulgado

Servido como exemplo para os formandos deve-o ser apenas enquanto trabalho que independentemente do seu sucesso comercial é nulo em termos académicos pela sua metodologia, pela forma tosca como “constrói” as suas variáveis independentes e, pior ainda, desenvolve os seus argumentos, chegando à incompetência e mesmo à desonestidade no que diz respeito a alguns dos autores tratados (nomeadamente Deleuze).

Referir-se autores como Derrida ou Heidegger ,que não são tratados por Sokal, como fazendo parte das mesmas “imposturas” detectadas é altamente criticável nos jornais e absolutamente inadmissível numa sala de aula.

Penso por isso que é urgente o Sr Professor evitar todas as referências a Derrida e Heidegger quando refere este triste caso (já que, repito uma e outra vez, eles não são nele tratados). Por favor, retire daqui as devidas consequências para a sua conduta. Retratar-se, pelo menos neste ponto, era extremamente saudável para o debate no nosso país e a sua própria credibilidade.

Aceitando por fim, o repto difuso que me lança, procurarei explicitar melhor a minha posição.

O Sr. fala como se eu tivesse defendido Heidegger, por exemplo (deixarei por agora de lado Deleuze e Derrida). Não o faço. Tenho mesmo criticas extremamente sérias a fazer a toda a empreitada da fenomenologia e, consequentemente, ao que poderíamos identificar como existencialismo, a hermenêutica contemporânea, etc. Sou mesmo tentado a dizer que os autores que aprecio desenvolvem a sua argumentação, num primeiro momento, contra estas posições. Mais ainda, as ilusões da empreitada Analítica surgem-me como paralelas às da Fenomenologia, ficando-se uns pela função como referência ao pretensamente “objectivo”, os outros pela função como referencia ao pretensamente“vivido”, digamos que ao “subjectivo”. Ambos se ficam assim, segundo a minha imagem do pensamento, por uma endo e exo referencia, ao nível da extensão e da intenção, respectivamente, não alcançando uma endo e exo-consistência, muito menos uma auto-referencia (para o qual são necessários outros instrumentos para traçar as condições problemáticas, encenar as incógnitas e avançar com soluções).

Pode portanto confirmar que o seu “terceiro excluído” tem mesmo a pretensão de tratar Carnap e Heidegger como sendo ilusões paralelas, independentemente do interesse das suas empreitadas. Tem consciência disto? Consegue articular realmente a posição do construtivismo genético, compreendendo a sua diferença (quer de Analíticos, quer de Fenomenólogos)? Percebe realmente alguma coisa do que se produz desde os anos 50 e que se distancia criticamente de Husserl como de Frege?

Fico porém estupefacto quando leio um licenciado em Filosofia, mais ainda um professor (seria mesmo hilariante se não fosse sintoma de que algo vai mal na nossa academia), dizer que “não percebeu” Heidegger ou que ele é ininteligível!!!

Não concordando com ele não vejo porque será ele obscuro (isto em todas as obras? Desde o “o que é uma coisa”, que dialoga de forma particular com a empreitada Analítica ao seu “Kant e o problema da Metafísica” que me parece dirigido a todos os amantes do saber? Tudo ininteligível?).

Uma tal avaliação só pode resultar da falta de domínio do jargão e das problemáticas próprias do “jogo de linguagem” especulativo, assim como de leituras que o permitiriam exercitar neste campo. Falha de competências que inevitavelmente tornará difícil o texto não apenas de Heidegger como, segundo creio, de todos os demais, de Anselmo a Dun Scoto, de Espinosa a Leibniz, de Kant a Hume, de Fichte a Schelling, de Hegel a Marx, de Schoppenhauer a Nietzsche, de Husserl a Bergson e Russel, etc, etc, etc.

Não concordando com Heidegger, não vejo como o Sr Prof não o percebe. O mesmo com Derrida que, não sendo nada fácil, pelo domínio do “jogo” que exige ao seu leitor, não é menos acessível a quem goste e leia filosofa. Basta ir, por exemplo, à Wikipedia para ter uma exposição, necessariamente esquemática, das suas posições… nada de muito transcendente, sr. professor. Evite por isso mostrar a sua ignorância, reiterada, aos seus formandos já que dá aí um mau exemplo além de perder em legitimidade, quanto mais em autoridade.

Uma coisa é procurar demonstrar as ilusões que podem nascer se se aceita a “intuição intelectual”, outra é barafustar contra fantasmas próprios que apenas embaraçam o seu interlocutor que o vê fazer “uma triste figura pública”.

O senhor professor teve boas notas a história da filosofia, hermenêutica, etc? Não precisará de uma reciclagem? Parecem faltar-lhe instrumentos conceptuais algo basilares…para ter este tipo de dificuldades…

(…)

2 de Janeiro de 2010 16:33
mecanosfera disse…
Procurando, da minha parte, dar o exemplo, devemos todos perceber e retirar as devidas consequências de se considerar, em termos TEÓRICOS, uma receptividade espontânea, dando lugar central à reflexão sobre o belo e o sublime, e não uma espontaneidade receptiva, com atenção à reflexão sobre a teleologia e a teologia, o que leva, em termos PRÁTICOS, a assumir-se uma heteronomia autónoma, com seu enfoque nos “incentivos” morais, ou, por outro lado, uma autonomia heterónoma, com seu enfoque nos princípios racionais (que irão todos dar diferentes combinações de imanência-transcendente, como de empírico-transcendental quando questionados sobre causas eficientes e finais), assim como diferentes visões do que está em jogo nesta querela/debate

2 de Janeiro de 2010 16:35
mecanosfera disse…
No que diz respeito a “Analíticos”, não tenho qualquer dificuldade em percebe-los (teria imensa vergonha de dizer uma coisa destas sem procurar colmatar o meu défice) e, acho importante ler, na fonte, quer o Tractactus quer as Investigações de Wittgenstein, de conhecer o debate entre Carnap (e Cassirer) com Heidegger, perceber as ambições e limitações assumidas por Ayer, os trabalhos de Quine, Church, Tarki, Davidson, Kripke, Austin, Searle, de Khun e de Popper, de Goodman e de Danto, de Rawls e de Nozick, tendo particular interesse, por questões de formação e profissinais, por Putnam e Fodor (concordando totalmente com este último quando a delineação das ambições da CTM ).

Poderia citar outros auto-intitulados “analíticos” que não deixaria de recomendar a possíveis formandos como leituras importantes para se ter consciência do debate e das linhas de investigação da Filosofia contemporânea. Reforçando a importância de lerem por eles na fonte e não se ficarem pelos “readers”, muito menos os “digest”. São autores imprescindíveis para traçar o espaço de debate em termos teóricos, práticos e estéticos contemporâneo. Ficar por ai seria porém, para mim, apenas ter uma nota fraca por compreensão limitada do espaço problemático, no levantamento das variáveis e na capacidade de dar consistência geral ás suas respostas.

Pessoalmente, a leitura e o estudo dos autores ligados ao campo da Fenomenologia, de Husserl a Heidegger, de Sartre a Ponty, de Jaspers a Ricouer, de Habermas a Gadamer (etc etc), se pretendemos realmente ultrapassar a ilusão que identificamos em ambos (deixo aqui de lado a argumentação sobre a possibilidade desta “desmistificação” limitando-me a apontar o quanto pode ser erróneo o saco “continental”). Porque utilizar uma unidade que parece conotar descrições geográficas para a contrapor a uma que parece conotar descrições metodológicas? Falta de rigor na descrição das variáveis independentes? O sr. prof. não está desperto para as aberrações que é comum encontrar neste momento crítico da argumentação?

Utilizar-se a variável independente “Continental”, como outra qualquer, e como referi anteriormente, “exige do autor que a propõe que fixe claramente as condições de referência que darão os limites (ou intervalos) nos quais a variável, tida como “independente”, entra numa proposição verdadeira”: X é um Continental, X é um impostor, Deleuze é um Continental e um impostor, porque fez isto, porque se apresenta de determinada maneira… tais condições de referencia constituem, não a compreensão, mas a intenção do conceito/função”, parafraseando aqui Deleuze.

2 de Janeiro de 2010 16:38
mecanosfera disse…
Posso referir por exemplo um livro brilhante como “Continental Philosophy” onde isto é feito com grande rigor e poveito para o debate, outraos, como as de Sokal (e as que vejo o sr utilizar) que são apenas demonstração de incompetência e preconceitos, não ficando atrás da utilização do termo “pretos” da parte de xenófobos.

Achamos natural o ressentimento dos que tentam ler Herberto Helder e, com poucos hábitos de leitura de poesia, muito menos de debate de teoria da literatura, “não percebem” nada nem ali vêm “qualquer valor”: “isto até dizia eu”. Achamos natural o azedume dos que não apreciam “Picasso” e, com poucos hábitos de visita a museus, muito menos de reflexão sobre estética no campo das artes plásticas, enchem os museus com os seus comentários depreciativos “isto até eu fazia”. Conhecemos a antipatia a Ligeti como a Albert Ayler: assim eu compunha.

Tudo que nos surge como difícil e frustra inicialmente a nossa capacidade de entendimento tende a despertar em nós este tipo de ressentimento que nos protege de, com ele, aceitar as nossas próprias limitações. A minha avó contava-me a história da raposa e das uvas verdes … hoje agradeço-lhe porque rara foi a área onde a frustração momentânea não foi substituída por um grande prazer quando tudo se fez claro e distinto, elevando a minha potência de pensar, de agir, de sentir.

É também comum vermos pessoas que nada compreendem (e por isso em nada apreciam) a Arte moderna e contemporânea chamar-lhe de forma homogeneizante de “Piscassadas”. Ouvimos isto e está tudo dito…

Agradecia-lhe que se juntasse ao combate de todos os preconceitos escondidos nos termos mais banais, alojados nos discursos mais desinteressados. Seria também benéfico para todos que promovesse a leitura de todos os autores, auqeles que nos são simp
Áticos, sem duvida, mas igualmente aqueles que mais repudiamos mas encontrar os seus defensores legitimados na academia e por isso, interlocutores a respeitar. Para perceber o que pretendo dizer, com um exemplo, estou neste momento a ler Carl Schmitt!!! Poderosos! Perigosíssimo!!! A não perder se queremos estar à altura do pior!

Obrigado pela atenção
Rui

2 de Janeiro de 2010 16:39
mecanosfera disse…
Recomendação como alternativa positiva (a ler de forma critica, obviamente), da utilização da variável “Continental”:
“Continental Philosophy – a Contemporary Introduction” de Andrew Cutrofello
Routledge Contemporary Introduction to Philosophy
2005

2 de Janeiro de 2010 17:43
mecanosfera disse…
peço desculpas pelas gralhas e, obviamente, as limitações pessoais.

Uma gralha, particularmente, por copy-paste, truncou seriamente ao interesse da argumentação  Reponho:

“Pessoalmente, a leitura e o estudo dos autores ligados ao campo da Fenomenologia, de Husserl a Heidegger, de Sartre a Ponty, de Ricouer a Gadamer, de Jaspers a Arendt, como ao campo da Teoria Critica, de Adorno a Benjamim, de Habermas s Marcuse (etc etc), são imprescindíveis como o são igualmente os trabalhos no campo do estruturalismo, de Levy Straus a Althuser, de Barthes a Lacan e de um construtivismo genético de Deleuze, em certo sentido paralelo aos desconstrutivismo de Derrida, que só por ignorância são interpretado a partir de uma critica de Heidegger mais do que de Saussure e de Freud e nunca chegando a compreender-se a inovadora centralidade dada á génese ideal da Diferença, antes que possamos falar de Fenomenologos ou Analíticos. Os trabalhos no campo da cibernética, na linha de Turing e Von Neumann como da teoria sistémica, na linha de Luhman contém igualmente contributos incontornáveis, quer nos campos da reflexão epistemológica como prática, colocando-nos também, profundamente, a questão do ôntico e do ontológico, da poiesis e da praxis.

Tudo isto é o sec. XX e tudo nele é preciso, mesmo que amalgamado nos pólos analítico-continental, se pretendemos realmente ultrapassar a ilusão que identificamos em ambos (deixo aqui de lado a argumentação sobre a possibilidade desta “desmistificação” limitando-me a apontar o quanto pode ser erróneo o saco “continental”). Porque utilizar uma unidade que parece conotar descrições geográficas para a contrapor a uma que parece conotar descrições metodológicas? Falta de rigor na descrição das variáveis independentes? O sr. prof. não está desperto para as aberrações que é comum encontrar neste momento crítico da argumentação?”

2 de Janeiro de 2010 18:36
Sophia disse…
Respondendo ao que me dirigiu:

1) Onde foi buscar que, actualmente, se pode ocultar alguma publicação, quando a Internet nos providencia uma biblioteca colossal de fácil acesso e uma memória quase permanente via Google cache? Você anda a ver fantasmas… Se mais professores não falam de Sokal nas aulas, é porque têm autores de maior porte para referir. Para anedota, Sokal até está por demais divulgado. Porque haveria de querer queimá-lo? O facto de um tal autor publicar sem assegurar a consistência da sua tese é o suficiente para se “queimar” na praça pública. Portanto, o próprio Sokal tratou de se queimar – o mesmo se aplica aos seus defensores. Além disso, serve de exemplo sobre o que não fazer a nível metodológico se se quiser ser levado a sério.

2) Acho curioso que alguém que alude ao “estilo bíblico” de Heidegger (desconhecendo o episódio da ruptura deste com os padres seminaristas, e a troca do curso de Teologia pelo de Filosofia), declare como referência Plantinga e Swinburne que, como qualquer um poderá aferir pelos textos dos próprios, tresandam a religião. Comparado com estes, Heidegger, em virtude de ter sido apreciador do “Anti-Cristo” de Nietzsche, não é suficientemente bíblico para agradar a crentes.

3) Com tanto material disponível online, de forma gratuita, não há desculpas para dizer «…o que conheço de autores como Heidegger? O que estudei dele nas aulas de graduação, e o pouco que dele li. Que foi suficiente para considerar que é uma tolice completa».

O que é uma completa tolice, Sr. Prof., é tirar conclusões apressadas, tendo lido pouco ou quase nada. Preconceito…

Celebrando o regresso dos sites do Prof. Horacio Portel – um óptimo exemplo de serviço público e de divulgação filosófica – recomendo-lhe:

http://www.heideggeriana.com.ar/
http://www.nietzscheana.com.ar/
http://www.jacquesderrida.com.ar/

3 de Janeiro de 2010 03:55
Sophia disse…
Deixo em baixo um excerto (que não dispensa a leitura completa do original “O que é a Filosofia”?) onde se evidenciou:

– o ataque a um pretensamente chamado “Continental”, Heidegger, (“só um deus pode salvar-nos”) movido por outros dois “Continentais”, Deleuze e Guattari – confira-se que ambos os sistemas de pensamento estão a milhas um do outro, o que torna ainda mais flagrante que caibam na mesma etiqueta de supermercado (“Continental”), como se fosse tudo farinha do mesmo saco;

– a crítica simultânea da Fenomenologia e da Crítica (que, além do mais, é o nome que este blog abraça);

– como a Filosofia se trai, degradando-se (descendo de grau) em figuras de religião;

– de que forma a Lógica, aliada à “objectividade” científica, constitui um mero modelo de recognição encerrado na doxa.

«As três espécies de Universais, contemplação, reflexão, comunicação, são como três idades da filosofia, a Eidética, a Crítica e a Fenomenologia, que não se separam da história de uma longa ilusão. Era necessário ir até aí na inversão dos valores: fazer-nos acreditar que a imanência é uma prisão (solipsismo…) de que o Transcendente pode salvar-nos. (…) Os conceitos filosóficos reproduzem figuras toda a vez que a imanência é atribuída a algo, objetidade de contemplação, sujeito de reflexão, intersubjetividade de comunicação: as três “figuras” da filosofia. É preciso ainda constatar que as religiões não atingem o conceito sem se renegar, tal como as filosofias não atingem a figura sem se trair. Entre as figuras e os conceitos há diferença de natureza, mas também todas as diferenças de grau possíveis. (…) Não é de se surpreender que o cérebro, tratado como objeto constituído da ciência, só possa ser um órgão de formação e de comunicação da opinião: é que as conexões graduais e as integrações centradas permanecem sob o modelo estreito da recognição (gnosias e praxias, “é um cubo”, “é um lápis”…), e que a biologia do cérebro se alinha aqui com os mesmos postulados da lógica mais obstinada. (…) Parece então difícil tratar a filosofia, a arte e mesmo a ciência como “objetos mentais”, simples conjuntos de neurônios no cérebro objetivado, já que o modelo derrisório da recognição os encerra na doxa».

P.S.: Não pude deixar de reparar que as referências ditas “analíticas” fornecidas pelo Mecanosfera têm um calibre diferente das suas. Isso vindo de alguém que nem sequer é de Filosofia, põe-nos realmente a pensar sobre o que se passa com as instituições de ensino (e não só em Portugal…).

3 de Janeiro de 2010 07:45
Desidério Murcho disse…
Ambos continuam a querer ocultar o óbvio e a baralhar o simples. Eu não estou a defender que Sokal tem razão. Pode estar errado. Estou a defender apenas que não tem razão quem mente às pessoas em geral ocultando o facto de que muitos filósofos são tidos como incompetentes e trapaceiros por muitos académicos.

E o que querem vocês ocultar, por detrás dos insultos? Que defendem uma posição incómoda. Defendem que Sokal deve ser silenciado, ignorado, devemos fingir que ele, e tantos outros como ele, não existem.

E isto porquê? Porque a partir do momento em que se sabe que há quem considere que alguns filósofos vivem apenas de jogos de palavras vácuos, as pessoas terão de pensar por si mesmas se os filósofos que estão a ler são ou não meros jogos de palavras que nada querem dizer.

Finalmente, há outro aspecto. A maior parte de nós tem de fazer juízos com pouco conhecimento de causa. Nunca li Derrida, excepto uns parágrafos. Nunca li Foucault. Li Heidegger o suficiente para achar uma tolice. Tenho, pois, uma opinião sobre estes autores baseada em informações muito incompletas. Qual é o problema disso? Seria um problema se eu me recusasse a ouvir ou a ler esses autores, ou a considerar a possibilidade de eu estar errado e de esses autores não viverem apenas de jogos de palavras. Mas eu não tenho essa atitude. Se alguém me quiser explicar algo sobre esses autores eu oiço atentamente. Se nos temas que estudo esses autores aparecerem, estudo-os. Ontem até divulguei Zizek neste mesmo blog, apesar de considerar que este é mais um dos pseudo-filósofos de uma cultura filosófica que me parece mero espectáculo palavroso sem interesse. Divulguei porque nesta entrevista ele diz coisas com pés e cabeça, ainda que algo atabalhoadamente. Portanto, não tenho preconceitos.

E portanto o que está em causa é isto: o que vocês os dois não querem é que eu faça esta pergunta simples, perante um filósofo: será que isto é só uma palhaçada para impressionar incautos? Não querem que eu faça esta pergunta precisamente porque sabem, no fundo, que a resposta a esta pergunta é muitas vezes afirmativa.

O que leva as pessoas a gostar de filósofos ditos continentais é o facto de ser um discurso bonito, que aquece a alma. E têm todo o direito a isso. Mas não podem fingir que quem encara a filosofia como uma actividade primariamente cognitiva pense que esses filósofos são minimamente interessantes.

3 de Janeiro de 2010 13:35
Silvio disse…
Estou acompanhando a discussão e creio que posso dizer que conheço os dois campos de batalha. Eu entendo muito bem a posição de Desidério, embora não concorde com tudo o que ele diz. Penso que não somos obrigados a conhecer todos os filósofos e podemos conhecer pouco um ou outro filósofo consagrado. Por outro lado, se conhecemos pouco um ou outro filósofo, e buscamos fazer críticas, estas correm o risco de serem injustas. Desidério, por outro lado, tem razão em dizer que os filósofos continentais não prezam pela clareza e pela simplicidade. A obra Ser e Tempo de Heidegger é pouco clara e, em muitos momentos, confusa. Hubert Dreyfus, que é um scholar americano de Heidegger – e que conhece muito bem filosofia analítica – afirma isso com todas as letras e, no entanto, não diz que Heidegger é um mau filósofo. Pelo contrário, ele tenta tornar a filosofia de Heidegger mais clara recorrendo às “tecnicas analíticas” e à visão filosófica de Wittgenstein. Assim, ele estuda Heidegger criticamente.
Creio que esta postura só se encontra entre os filósofos analíticos, pois, do lado continental, o que se vê são posturas como a de Deleuze, que critica Wittgenstein sem, ao menos, buscar compreendê-lo ou compreendendo-o mal. Deleuze, aliás, é um filósofo de quem tenho grandes suspeitas, pois sua escrita é cheia de “efeitos especiais” – o que pode desviar a atenção do leitor e cegar-lhe o espírito crítico – e suas teses me parecem extremamente frágeis.

Nas próximas postagens, exporei algumas dúvidas sobre a citação de Deleuze e ficaria muito feliz se as explicações fossem dadas sem o uso do “jargão deleuziano”. Este fato é importante, pois se o que ele diz é importante para todas as pessoas, então deve ser expressa em uma linguagem que seja acessível para todas as pessoas. Antecipando uma crítica, digo que este gesto não significa necessariamente vulgarização. É perfeitamente possível expor teses de tal forma que seja compreensível para o maior número de pessoas interessadas em refletir filosoficamente e para que possamos apontar erros e méritos. Esta é, aliás, a tarefa do professor de filosofia.

31 de Janeiro de 2010 18:19
Silvio disse…
Sophia,

Começarei com uma parte de sua citação:

1) AS TRÊS ESPÉCIES DE UNIVERSAIS, CONTEMPLAÇÃO, REFLEXÃO, COMUNICAÇÃO, SÃO COMO TRÊS IDADES DA FILOSOFIA, A EIDÉTICA, A CRÍTICA E A FENOMENOLOGIA, QUE NÃO SE SEPARAM DA HISTÓRIA DE UMA LONGA ILUSÃO (Deleuze citado por Sophia).

A afirmação acima está aberta a uma série de interpretações em função de ter sido descontextualizada e, além disso, em função de ser muito alusiva e pouco clara e direta. Em razão disso, a interpretação que vou expor trata-se, antes de tudo, de uma especulação ou hipótese.
Comecemos. Para Deleuze, os conceitos de contemplação, reflexão e comunicação correspondem aos modelos ou paradigmas filosóficos que foram aceitos em determinadas épocas. Eles estão conectados à “história de uma longa ilusão”.

2 de Fevereiro de 2010 12:50
Silvio disse…
2) ERA NECESSÁRIO IR ATÉ AI NA INVERSÃO DOS VALORES: FAZER-NOS ACREDITAR QUE A IMANÊNCIA É UMA PRISÃO (SOLIPSISMO…) DE QUE O TRANSCENDENTE PODE SALVAR-NOS. (…)(Deleuze).

Percebe-se aqui uma oposição entre interno (imanência – subjetividade) e externo (transcendência – objetividade). É possível pensar que, inicialmente, há a predominância da perspectiva interna ou subjetivista. Ora, a subjetividade é interpretada (por quem? pelo quê?)como algo que impede ou limita, ou seja, como “uma prisão”. O princípio da “inversão de valores”, segundo Deleuze, nos faz crer que o transcendente é necessário para nos “salvar” (de quê?). Isto significa: o imanente deve ser substituído pelo transcendente, ou seja, o objetivo deve substituir o subjetivo.

As outras partes da citação comentarei mais tarde. Mas, devo deixar registrado o seguinte: penso que as “idéias” expressas podem ser criticadas sob muitos pontos de vistas. Primeiro, ele não faz nada que os filósofos tradicionais não façam: observem alguns escritos de Hegel, e de sua suposta “lógica dialética”, e os comparem ao que Deleuze está dizendo. Além disso, em certo aspecto, ele é bastante tradicional: classifica, descreve, analisa. Mas, por outro lado, as argumentações e justificativas são escassas. Segundo, o que ele expressa é uma visão reducionista: classifica a filosofia em “idades” e subordina uma rica e complexa história da filosofia a três perspectivas. Ao que tudo indica, as ‘três idades’ estão, de alguma forma, associadas às filosofias de Platão e de Kant, e obscuramente à “fenomenologia” (o que se quer dizer com “fenomenologia”? a) Fenomenalismo? b) A filosofia iniciada por Husserl? c) a fenomenologia de Hegel? d) à teoria da percepção? d) N.D.A? Terceiro, quer dizer que o conflito entre subjetividade e objetividade já está resolvido? Ora, se esta é a opinião de Deleuze, então podemos acusá-lo de ser dogmático. Quarto, o que ele quer dizer com a palavra “reflexão”? Se a entendermos de um ponto de vista comum, então cabe a seguinte pergunta: se a reflexão e a comunicação são ilusões, então o que Deleuze está fazendo? Por acaso não refletiu sobre algo e está comunicando para os seus leitores a sua reflexão? Creio que se dissermos que ele não está refletindo, nem comunicando, então não é possível compreendê-lo e muito menos levá-lo a sério.

Depois exponho mais dúvidas.

Um abraço

2 de Fevereiro de 2010 12:52
Sophia disse…
Olhe, Sílvio, se acha que descontextualizei, leia no original (está em .pt e tudo):

Estou farta de discussões que tentam “endeusar” a facilidade com que o senso comum acede aos analíticos em detrimento dos continentais.

Falar mal é fácil quando compreender é difícil.

Bom proveito para quem souber ler com gosto.

20 de Março de 2010 17:41

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