O EMPIRISMO TRANSCENDENTAL e o INVOLUNTÁRIO

(resposta 😉 espero que ajude 😉 > A estrutura categorial não pode portanto, ser mais tida como um poder autónomo do pensamento, pela qual nós o reduzimos a reencontrar a imagem que lhe dá o senso-comum. A autonomia do pensamento redu-lo a esse decalque empírico (dóxico). Para garantir ao pensamento a sua potência de libertação perante as representações já feitas, Deleuze articula a sua potência dedutiva com uma verdadeira PASSIVIDADE.

A repartição kantiana da ESPONTANEIDADE categorial e da RECEPTIVIDADE sensível encontra-se deslocada, mas ela não está ausente da concepção de Deleuze, que a aloja no coração do pensamento:
EM VEZ DE repartir as tarefas de conhecimento entre o ENTENDIMENTO e a SENSIBILIDADE, reservando a espontaneidade às questões QUID JURIS da experiência, e a afecção ao reencontro intensivo da matéria na sensação [questões QUID FACTI],

DELEUZE EXIGE para o pensamento uma afecção, uma RECEPTIVIDADE que gere o seu ACESSO DIRECTO À EXPERIÊNCIA (arruinando assim a separação entre fenomenal e noumenal) para garantir ao pensamento aquilo que ele considera ser a sua verdadeira autonomia: uma emancipação em relação aos conteúdos dóxicos da experiência, uma independência, uma potência de afirmação que lhe permite CRIAR, e NÃO REENCONTRAR nela os conteúdos de uma ciência anciã, de uma moral conveniente, de um bem conhecido.

Esta autonomia é na realidade uma heteronomia, uma afecção que se reclama de um pensamento criativo. A passividade aparece como a oportunidade da filosofia: é ela que lhe permite escapar à postura reflexiva da representação e de proceder por construção do conceito: se a filosofia é a arte de “formar, de inventar, de fabricar os conceitos”, se ela é a potência de invenção e não de reflexão, é porque ela pensa sob a violência do signo. O Empirismo transcendental, segundo Deleuze, permanece assim transcendental já que exige que o pensamento institua o direito sobre as suas condições de exercício, mas ele afirma-se empírico para garantir à dedução QUID JURIS uma ancoragem ao real.

Este ponto, da qual a importância não é contestável na elaboração de Diferença e Repetição, não tem nada de um kantismo de circunstância, inconsequência juvenil ou máscara provisória de um pensamento  que ainda não encontrou o seu acesso próprio. Nas primeiras páginas de O que é a filosofia?, é bem a Kant que Deleuze faz de novo apelo para definir a filosofia como conhecimento por conceitos puros. “Podemos considerar como decisivo, por contrário, esta definição de Filosofia: conhecimento por conceitos puros”. Somente, Kant à força de distinguir o conhecimento por conceitos da filosofia e o conhecimento por construção de conceitos pelas ciências e as matemáticas, que se alimentam directamente da intuição, reservam para elas apenas uma capacidade de invenção dedutiva que Deleuze exige para a filosofia, “Porque, segundo o veredicto Nietzscheniano, vocês não conhecem nada por conceitos se vocês não os criarem(…)”.

O uso transcendente das faculdades determina assim a criação do pensamento, a sua genitalidade para falar com Artaud: pensar não é inato mas deve ser engendrado no pensamento. Aquilo que engendra o pensamento no pensamento, é a irrupção violenta do signo, que traz o pensamento ao seu uso transcendental que é ao mesmo tempo o seu ponto de ruptura. Criar consiste por isso em fazer a experiência da impotência do pensamento, trazendo-o aos seus limites , ali onde aquilo que ele é forçada a pensar, é também o seu afundamento central, a sua dobra, o seu próprio “IMPODER”. Só nesta condição apenas, o transcendental pode ser justificado por um empirismo superior que não se decalca mais sob as formas empricas do senso comum vulgar. É também a ocasião de salvar a inventividade profunda de Kant, ao ter mostrado que para a imaginação e no caso do sublime, é Kant quem inventa o uso disjuntivo, a violência feita ao pensamento e a discordância essencial entre pensamento e imaginação que condiciona um novo tipo de acordo.”

Anne Sauvagnargues “Deleuze: L’ Empirisme transcendental” PUF, Jan 2010

Cap 3.3 p. 76(…) fim  p. 83-85

Tradução minha

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