“Debate” com Desidério Murcho sobre Sokal

Desidério Murcho volta ao ataque recrrendo à impostura de Sokal no blog Criticana rede: revista de filosofia

Desidério Murcho VOLTA a publicar,a 12AGO2010, na Criticanarede: revista de
filosofia um artigo na Folha de São Paulo de 1999 (!!!) sobre o caso
Sokal “O Rei vai nú”…de um “tal” Roberto Fernandes numa resenha ao “imposturas intelectuais”…
http://criticanarede.com/html/imposturas.html

http://blog.criticanarede.com/2010/08/o-embuste-de-sokal.html
o q importa a estes srs é manter o boato, o hoax, vivo entre os  professores e alunos mal informados, pouco dados a leituras complicadas ,muito menos com terminologia difícil e q falam de Husserl e formalismos (e mal traduzidos do fr), gente por isso facilmente manipulável por
maniqueismos de envangelizadores e golpes mediaticos à americana.. idto é filosofia???😦 … esta gente n é mesmo séria…

Volto a deixar-vos o debate que tive com este senhor dia 31 de Dezembro de 2009, no mesmo site, apelando a uma “outra postura” pelo bem da Filosofia:

http://blog.criticanarede.com/2008/09/o-regresso-de-sokal.html

mecanosfera disse…

Caro Sr. Prof Desiderio

Acredito que partilhamos o mesmo desconforto quando vemos utilizações abusivas da metáfora cientifica, seja ela em redor da relatividade de Einstein, a incerteza de Heisenberg, o teorema de Godel, a dicotomia onda-particula da quântica, a máquina de Turing, a indeterminação do caos, a selecção natural do Darwin, etc, etc, etc. A critica que devemos dirigir ao seu uso displicente, seja na sua descrição seja nas inferências devem ser apontadas e retiradas as devidas consequências para a construção das variáveis, dependentes e independentes, assim como para o valor de verdade dos argumentos. Em última instancia reduzindo a nada a empreitada teórica do seu autor. Penso que concordamos e não saímos aqui de um “senso-comum” e de um “bom senso” partilhado.

Todos nós teremos tido senão lógica pelo menos metodologia científica e penso não ser abusivo dizer que neste campo a aprendizagem da filosofia não difere da de qualquer outra disciplina, seja das ciências ditas naturais seja das ciências ditas humanas. Todos por isso teremos aprendido o que é um Argumento, uma proposição, um termo. Todos nós teremos, melhor ou pior, aprendido a tabela dos juízos e teremos adquirido um conhecimento, pelo menos elementar, das falácias lógicas que ameaçam a construção de qualquer variável como de qualquer argumento. Só depois de muita evidência coloco a hipótese de um trabalho académico, publicado, ignorar estes requisitos formais mínimos. Mais ainda considerar que erros neste campo não se limitam a momentos infelizes numa obra, que os há entre os melhores, mas caracteriza na verdade um estado de ignorância geral do seu autor, mais ainda dos seus leitores. Falta-me soberba para tanto, admito, e dou sempre o benefício da dúvida ao autor, mais ainda às instituições que o avaliam e avalizam, assim como, claro, aos seus leitores.

Todos sabemos que em qualquer programa de investigação o momento talvez mais crítico é exactamente a determinação das variáveis independentes que, sustentado as premissas, põem em jogo toda a credibilidade da empreitada posterior. Em sociologia, por exemplo, tanto Giddens como Bourdieu, para apenas referir autores no campo da sociologia, reforçam a importância deste momento nas suas obras metodológicas, alertando para o perigo da construção do objecto “o imigrante”, o “burguês”, o “operário”, o “racista”, por exemplo, não ser mais que o depósito de preconceitos não criticados do investigador, aos quais os factos, enquanto valores, apenas poderão se submeter, fazendo proliferar generalizações, distorções e as inevitáveis zonas cegas. É em termos como “raça” ou “desvio sexual” que podemos detectar com maior facilidade a ideologia condicionar o valor de verdade de inúmeros argumentos pretensamente científicos que se produziram ao longo dos últimos séculos neste campo. Até no “marketing” esta é uma lição incontornável quando se trata da construção de “segmentos de mercado” por exemplo.

Espanta-me muito, por isso que, num programa que toma para si as maiores exigências formais, não tanto na arquitectónica da teoria quanto na exposição dos argumentos, privilegiando o momento analítico ao momento estético e, talvez mais ainda, ao dialéctico, se encontrem com tanta facilidade variáveis independentes descritas de forma tão difusa, mesmo preconceituosa e incompetente, sustentando-se muitas vezes mais em raciocínios que parecem dever à dialéctica tese-antitese do que propriamente a algo que consigamos identificar como análise. Sabemos, por exemplo, que a dicotomia  Nominalista-Realista é problemático e exige do autor que a propõe que fixe claramente as condições de referencia que darão os limites nos quais a variável, tida como “independente”, entra numa proposição verdadeira (gosto aqui de dar o exemplo de Quine, no seu Word and Objects, último capítulo “Ontic Decision”, p. 233, primeiro parágrafo, porque me parece um momento particularmente hilariante na história da filosofia – mas sobre isso não irei argumentar aqui. Penso porém que qualquer leitor inteligente poderá refletir por si sobre o momento em que passamos da duvida sobre a existência de “objectos abstractos” para, na proposição seguinte, se propor ostensivamente as categorias referidas, etc…😉 .

É por isso sempre com grande estupefacção que assisto à utilização abusiva e incompetente, entre pessoas que deveriam sem duvida saber mais e servir de modelo aos seus formandos, de funções proposicionais “É Continental” ou, talvez ainda pior, “pós-estruturalista” (que, supostamente, deverá formar uma dicotomia com “Analítico”). Desde logo porque se por um lado podemos encontrar autores que explicitamente assumem o programa, a sua posição tética e o nome “Analítico”, nunca li ninguém minimamente interessante a assumir-se como “continental” ou “pós-estruturalista”, o que nos leva desde logo a suspeitar estarmos perante categorias que se constroem mais numa falsa relação dialéctica “analítico/não-analitco”, do que a partir de uma analise fina de ambas as linhas de argumentação.

Se tudo isto é problemático, um livro como o de Sokal torna-o ainda mais, já que não se pretende apenas construir uma variável “difusa “É Continental”, onde parece poder caber tudo e mais alguma coisa (incluindo supostos “analíticos” se atendermos às condições de referencia propostos, mas, mais grave ainda, pretende julgar sobre o valor de verdade “X é impostor” (e aqui não sentimos na verdade grande necessidade que se descreva a função proposicional “é impostor”).

É muito mau sinal que seja no próprio seio de pessoas mais ligadas ao projecto analítico que livros, medíocres em termos metodológicos, e banais ao nível das ambições teóricas, como o é o de Sokal, passem por “obras académicas” com “valor de verdade”. Conto que a academia nunca leve tão baixo a suas exigências ou temo que seremos soterrados pelas maiores aberrações teóricas enquanto teses defensáveis por qualquer aluno menos capaz ou honesto e difundidas lado a lado com os mestres.

É desastroso se o campo Analítico necessita de recorrer a este tipo de fenómenos editoriais que pouco parecem ter a ver com a vida académica para consolidar as suas posições metodológicas e teóricas.

Last but not the least, é um péssimo precedente que professores, divulgadores, tradutores, coordenadores editoriais, façam passar “Imposturas Intelectuais” como um exemplo teórico capaz de retirar o interesse de autores consagrados e com os quais a academia tem beneficiado largamente pelo nível do debate criado em todas as direcções, apesar dos inevitáveis abusos e generalizações grosseiras de que a retórica mais despudorada é capaz, fazendo-nos sempre lembrar que, para além do logos entram sempre em jogo, na argumentação, o ethos do autor e o pathos do auditório. Sokal parece-me dever todo o seu sucesso ao pathos, pouco ao logos e quase nenhum ao ethos… ele e os seus tristes defensores.

Não concorda comigo? Considera, segundo os seus exigentes critérios, a metodologia, as variáveis independentes, os argumentos de Sokal válidos? Deixaria um trabalho desta natureza passar como tese? Dá-o como exemplo? Utiliza as suas conclusões como premissas?

Pelo bem da disciplina que ensina e das instituições que representa, a todos faria um grande serviço se se retratasse e denunciasse a falta de rigor deste senhor, independentemente do assunto que trata. Fazia também um favor a todos se ajudasse a combater categorias difusas como “continentais” onde se pretende fazer caber autores tão distintos e distantes como Lyotard e Habermas, Heidegger e Levy Strauss, Derrida e Adorno, Deleuze e Badiou, Lautman e Serres, etc etc etc.

Finalmente, recomendo sinceramente, por bem da sua credibilidade, na academia como na agora, que leia mais e opine menos sobre o que não lê.

Melhores cumprimentos
Rui Mascarenhas

31 de Dezembro de 2009 12:44

Desidério Murcho disse…

Por que razão as pessoas se irritam tanto com as opiniões que as pessoas que escolheram fazer filosofia analítica do género de filosofia que fazem? Porque, evidentemente, não gostam de saber que há pessoas, muitas, que consideram que eles fazem trabalho sem interesse intelectual algum, ou que estudam autores que não têm qualquer interesse intelectual — autores que, depois de finalmente se entender o que querem dizer, no meio de tanta confusão linguística pretensiosa, nenhuma ideia interessante resta.

Estarão estas pessoas enganadas quanto ao interesse de autores como Derrida ou Deleuze ou Heidegger? Sim, podem estar enganadas. Mas é isto que as pessoas que têm hoje formação analítica mas que passaram pelas universidades dominadas pela filosofia continental pensam.

E como podem pensar isto, se obviamente não estudam esses autores que desprezam? Não é isso idiota? Sim, em parte. É como um astrónomo ou um matemático, que considera a astrologia ou a numerologia uma trapaça, mas na verdade não conhece bem essas áreas. No meu caso, o que conheço de autores como Heidegger? O que estudei dele nas aulas de graduação, e o pouco que dele li. Que foi suficiente para considerar que é uma tolice completa. Estarei enganado? Talvez. E há certamente pessoas que consideram Heidegger um grande filósofo. Eu, e muitas outras pessoas, consideram-no apenas um trapaceiro, que cativa apenas porque escreve de uma maneira bíblica, mas nenhuma ideia interessante defende adequadamente.

Note-se, contudo, que um dado autor pode ser uma trapaça intelectual e os estudos que se fazem dele terem qualidade. Lixo é lixo, mas um estudo sobre o lixo não tem de ser lixo. A minha experiência de aluno de graduação, contudo, foi assistir a tolices ainda maiores nos comentários a autores como Heidegger do que ao próprio Heidegger. Na verdade, comparando com o que eu ouvia nas aulas sobre Heidegger, o próprio autor era até um alívio perante tanto disparate.

Repito: as pessoas devem ter a liberdade de estudar, ensinar, publicar, e pensar o que quiserem. Mas não podemos fingir que não há quem considere que alguns autores são desinteressantes e até trapaceiros. Na verdade, isso é sistematicamente ocultado dos alunos. Carnap ou Russell são apresentados como figuras indignas da nossa atenção, mas oculta-se dos alunos que muitos académicos consideram que o trabalho de Heidegger ou Derrida ou Foucault ou Deleuze são puro lixo intelectual. Não estou a defender que quem pensa isto desses autores tem razão. Mas estou a defender duas coisas: 1) essas pessoas têm o direito de o pensar e divulgar; e 2) os alunos têm o direito que essas pessoas existem. E depois, compete a cada qual tomar a sua posição.

1 de Janeiro de 2010 12:35

Desidério Murcho disse…

Quanto à classificação cega entre filósofos analíticos e continentais, é irrelevante para a discussão. Podemos discordar da classificação, mas tudo fica igual. Em vez de dizer “filosofia continental” diga-se “autores como Heidegger, Foucault, Derrida, Deleuze, Lacan” e em vez de filosofia analítica diga-se “autores como Russell, Kripke, Swinburne, Plantinga”.

O que irrita na classificação é que se as pessoas que têm formação analítica não falarem de toda uma tradição filosófica que se auto-intitula “analítica,” os alunos nem nunca ficam saber que a única coisa que estudam é uma maneira peculiar de estudar filosofia, e que os comentadores e filósofos que estudam não são os únicos que existem, e nem sequer são consensualmente tidos como importantes no mundo académico.

Portanto, apesar de eu compreender que é irritante falar de filosofia continental, porque quem sempre fez filosofia continental fê-lo pensando que estava apenas a fazer filosofia, sem mais, é pura e simplesmente mentira dizer que o que essas pessoas estão a fazer é filosofia sem mais. O que estão a fazer é filosofia exclusivamente dentro de um determinado universo bibliográfico e metodológico, com contornos muitíssimo bem definidos. Chame-se-lhe o que se quiser, “Filosofia Autêntica,” por exemplo. Mas pretender que essa é a única maneira de fazer filosofia e passar essa ideia aos alunos é pura e simplesmente mentir-lhes.

1 de Janeiro de 2010 12:43

Sophia disse…

«…consideram-no apenas um trapaceiro, que cativa apenas porque escreve de uma maneira bíblica, mas nenhuma ideia interessante defende adequadamente».

O que diz aplica-se aos analíticos

– Alvin Plantinga:
http://philofreligion.homestead.com/Papersbyplantinga.html

– e Richard Swinburne:
http://www.leaderu.com/truth/3truth09.html

Acabou por nos fornecer as referências que corroboram «a ligação fundamental entre a Lógica e a Teologia».

De facto, esta discussão deixou de ter interesse – abandonou-se o campo da Filosofia e entrou-se no domínio do fanatismo religioso.

1 de Janeiro de 2010 19:47

Desidério Murcho disse…

Sophia, você está a confundir dois pares de coisas.

1) Não estou a defender que certos filósofos são trapaceiros, mas apenas que há quem considere que são trapaceiros. E isso não pode ser ocultado dos alunos e das pessoas em geral. É sobretudo esse o valor do livro de Sokal, e o meu argumento é que pessoas como a Sophia querem apenas queimar o livro de Sokal, escondê-lo, fingir que não existe, porque não querem que as alunos saibam que há quem considere esses filósofos trapaceiros. Saber se quem os considera trapaceiros tem razão ou não já é outra discussão — mas uma discussão que tem de começar por aceitar que há realmente quem os considera trapaceiros. Ora, por que razão você não quer que os alunos e as pessoas em geral saibam que há quem os considere trapaceiros? Porque basta as pessoas saberem que não é consensual que esses são grandes pensadores para as pessoas os começarem a ler com uma atitude mais crítica. E é isso que você não quer.

2) Você está a confundir um texto de estilo bíblico com um texto que discute clara e directamente problemas de filosofia da religião. Um texto bíblico pode até ser ateu — como é o caso de Nietzsche. É bíblico no sentido em que não apresenta argumentos cuidadosamente, não articula ideias, limita-se a fazer jogos de palavras e afirmações panfletárias, mas fá-lo de maneira a ser cativante para um certo tipo de leitores. Nem Plantinga nem Swinburne escrevem de maneira bíblica, apesar de serem filósofos crentes e que defendem a existência do deus teísta e a legitimidade epistémica da fé.

2 de Janeiro de 2010 13:27

Desidério Murcho disse…

O fanatismo precisa de fingir que não existe quem pensa de maneira diferente. Logo, quem é fanático é quem quer silenciar quem pensa que alguns filósofos são incompetentes e trapaceiros.

2 de Janeiro de 2010 13:35

mecanosfera disse…

Caro Sr Prof. Desiderio

Antes demais quero agradecer a amabilidade da sua atenção. Gostava de poder agradecer a sua resposta mas, sendo honesto, não me pareceu que o seu comentário tivesse os meus argumentos como contraponto, muito menos a minha pessoa como interlocutor já que me pareceu dirigir-se aos seus fantasmas e não ás minhas posições.

Penso ter resumido de forma clara as razões da minha intervenção: a mediocridade metodológica e a banalidade nas ambições teóricas de Sokal que deveriam coibir qualquer académico (diga-se ele “analítico”, “fenomenológico”, “construtivista genético”, sociólogo, historiador, físico, etc) de a utilizar nos seus argumentos, especialmente para denegrir os seus pares – “impostor” é um termo que deverá ser utilizado com grande cuidado na academia se não queremos transformar o debate no seu seio na mais ignóbil “peixeirada”. Cabe aos Srs professores garantir a elevação dos argumentos e não o deixar resvalar para a troca gratuita de piropos e insultos. Mais ainda, não permitir que qualquer das partes se faça valer de argumentos desinformados, turvados pelas paixões e, definitivamente, dos desonestos.

Repito o meu repto:
“Considera, segundo os seus exigentes critérios, a metodologia, as variáveis independentes, os argumentos de Sokal válidos? Deixaria um trabalho desta natureza passar como tese? Dá-o como exemplo? Utiliza as suas conclusões como premissas?”

Em geral pareceu-me que respondia positivamente a todas as minhas questões mas não fiquei certo disso já que só indiretamente vi estas questões presentes nos seus argumentos. Se assim é receio que a exigência ao nível dos cuidados sobretudo na construção das variáveis independentes mas igualmente na recolha das fontes indiretas, e a seriedade no desenvolvimento dos argumentos, estejam hoje, pelo menos no campo onde o Sr. intervém, mais descuradas do que no mais banal curso de marketing… sintoma ao que terá chegado o descuido e a displicência no campo da nossa amada filosofia.

Quero assim centrar a minha intervenção neste ponto que se tornou critico pela forma despudorada como tem vindo a ser utilizado enquanto premissa: Sokal não fornece argumentos dignos do debate académico, nem mesmo do espaço público, pelo que deve manter-se fora das suas arcadas, remetendo-o enquanto “hoax” para os jornais e a sociedade do espetáculo onde foi realmente criado e divulgado

Servido como exemplo para os formandos deve-o ser apenas enquanto trabalho que independentemente do seu sucesso comercial é nulo em termos académicos pela sua metodologia, pela forma tosca como “constrói” as suas variáveis independentes e, pior ainda, desenvolve os seus argumentos, chegando à incompetência e mesmo à desonestidade no que diz respeito a alguns dos autores tratados (nomeadamente Deleuze).

Referir-se autores como Derrida ou Heidegger ,que não são tratados por Sokal, como fazendo parte das mesmas “imposturas” detectadas é altamente criticável nos jornais e absolutamente inadmissível numa sala de aula.

Penso por isso que é urgente o Sr Professor evitar todas as referências a Derrida e Heidegger quando refere este triste caso (já que, repito uma e outra vez, eles não são nele tratados). Por favor, retire daqui as devidas consequências para a sua conduta. Retratar-se, pelo menos neste ponto, era extremamente saudável para o debate no nosso país e a sua própria credibilidade.

Aceitando por fim, o repto difuso que me lança, procurarei explicitar melhor a minha posição.

O Sr. fala como se eu tivesse defendido Heidegger, por exemplo (deixarei por agora de lado Deleuze e Derrida). Não o faço. Tenho mesmo criticas extremamente sérias a fazer a toda a empreitada da fenomenologia e, consequentemente, ao que poderíamos identificar como existencialismo, a hermenêutica contemporânea, etc. Sou mesmo tentado a dizer que os autores que aprecio desenvolvem a sua argumentação, num primeiro momento, contra estas posições. Mais ainda, as ilusões da empreitada Analítica surgem-me como paralelas às da Fenomenologia, ficando-se uns pela função como referência ao pretensamente “objectivo”, os outros pela função como referencia ao pretensamente“vivido”, digamos que ao “subjectivo”. Ambos se ficam assim, segundo a minha imagem do pensamento, por uma endo e exo referencia, ao nível da extensão e da intensão, respectivamente, não alcançando uma endo e exo-consistência, muito menos uma auto-referencia (para o qual são necessários outros instrumentos para traçar as condições problemáticas, encenar as incógnitas e avançar com soluções).

Pode portanto confirmar que o seu “terceiro excluído” tem mesmo a pretensão de tratar Carnap e Heidegger como sendo ilusões paralelas, independentemente do interesse das suas empreitadas. Tem consciência disto? Consegue articular realmente a posição do construtivismo genético, compreendendo a sua diferença (quer de Analíticos, quer de Fenomenólogos)? Percebe realmente alguma coisa do que se produz desde os anos 50 e que se distancia criticamente de Husserl como de Frege?

Fico porém estupefacto quando leio um licenciado em Filosofia, mais ainda um professor (seria mesmo hilariante se não fosse sintoma de que algo vai mal na nossa academia), dizer que “não percebeu” Heidegger ou que ele é ininteligível!!!

Não concordando com ele não vejo porque será ele obscuro (isto em todas as obras? Desde o “o que é uma coisa”, que dialoga de forma particular com a empreitada Analítica ao seu “Kant e o problema da Metafísica” que me parece dirigido a todos os amantes do saber? Tudo ininteligível?).

Uma tal avaliação só pode resultar da falta de domínio do jargão e das problemáticas próprias do “jogo de linguagem” especulativo, assim como de leituras que o permitiriam exercitar neste campo. Falha de competências que inevitavelmente tornará difícil o texto não apenas de Heidegger como, segundo creio, de todos os demais, de Anselmo a Dun Scoto, de Espinosa a Leibniz, de Kant a Hume, de Fichte a Schelling, de Hegel a Marx, de Schoppenhauer a Nietzsche, de Husserl a Bergson e Russel, etc, etc, etc.

Não concordando com Heidegger, não vejo como o Sr Prof não o percebe. O mesmo com Derrida que, não sendo nada fácil, pelo domínio do “jogo” que exige ao seu leitor, não é menos acessível a quem goste e leia filosofa. Basta ir, por exemplo, à Wikipedia para ter uma exposição, necessariamente esquemática, das suas posições… nada de muito transcendente, sr. professor. Evite por isso mostrar a sua ignorância, reiterada, aos seus formandos já que dá aí um mau exemplo além de perder em legitimidade, quanto mais em autoridade.

Uma coisa é procurar demonstrar as ilusões que podem nascer se se aceita a “intuição intelectual”, outra é barafustar contra fantasmas próprios que apenas embaraçam o seu interlocutor que o vê fazer “uma triste figura pública”.

O senhor professor teve boas notas a história da filosofia, hermenêutica, etc? Não precisará de uma reciclagem? Parecem faltar-lhe instrumentos conceptuais algo basilares…para ter este tipo de dificuldades…

(…)

2 de Janeiro de 2010 16:33

mecanosfera disse…

Procurando, da minha parte, dar o exemplo, devemos todos perceber e retirar as devidas consequências de se considerar, em termos TEÓRICOS, uma receptividade espontânea, dando lugar central à reflexão sobre o belo e o sublime, e não uma espontaneidade receptiva, com atenção à reflexão sobre a teleologia e a teologia, o que leva, em termos PRÁTICOS, a assumir-se uma heteronomia autónoma, com seu enfoque nos “incentivos” morais, ou, por outro lado, uma autonomia heterónoma, com seu enfoque nos princípios racionais (que irão todos dar diferentes combinações de imanência-transcendente, como de empírico-transcendental quando questionados sobre causas eficientes e finais), assim como diferentes visões do que está em jogo nesta querela/debate

2 de Janeiro de 2010 16:35

mecanosfera disse…

No que diz respeito a “Analíticos”, não tenho qualquer dificuldade em percebê-los (teria imensa vergonha de dizer uma coisa destas sem procurar colmatar o meu défice) e, acho importante ler, na fonte, quer o Tractactus quer as Investigações de Wittgenstein, de conhecer o debate entre Carnap (e Cassirer) com Heidegger, perceber as ambições e limitações assumidas por Ayer, os trabalhos de Quine, Church, Tarski, Davidson, Kripke, Austin, Searle, de Khun e de Popper, de Goodman e de Danto, de Rawls e de Nozick, tendo particular interesse, por questões de formação e profissionais, por Putnam e Fodor (concordando totalmente com este último quando a delineação das ambições da CTM ).

Poderia citar outros auto-intitulados “analíticos” que não deixaria de recomendar a possíveis formandos como leituras importantes para se ter consciência do debate e das linhas de investigação da Filosofia contemporânea. Reforçando a importância de lerem por eles na fonte e não se ficarem pelos “readers”, muito menos os “digest”. São autores imprescindíveis para traçar o espaço de debate em termos teóricos, práticos e estéticos contemporâneo. Ficar por ai seria porém, para mim, apenas ter uma nota fraca por compreensão limitada do espaço problemático, no levantamento das variáveis e na capacidade de dar consistência geral ás suas respostas.

Pessoalmente, a leitura e o estudo dos autores ligados ao campo da Fenomenologia, de Husserl a Heidegger, de Sartre a Ponty, de Jaspers a Ricouer, de Habermas a Gadamer (etc etc), se pretendemos realmente ultrapassar a ilusão que identificamos em ambos (deixo aqui de lado a argumentação sobre a possibilidade desta “desmistificação” limitando-me a apontar o quanto pode ser errôneo o saco “continental”). Porque utilizar uma unidade que parece conotar descrições geográficas para a contrapor a uma que parece conotar descrições metodológicas? Falta de rigor na descrição das variáveis independentes? O sr. prof. não está desperto para as aberrações que é comum encontrar neste momento crítico da argumentação?

Utilizar-se a variável independente “Continental”, como outra qualquer, e como referi anteriormente, “exige do autor que a propõe que fixe claramente as condições de referência que darão os limites (ou intervalos) nos quais a variável, tida como “independente”, entra numa proposição verdadeira”: X é um Continental, X é um impostor, Deleuze é um Continental e um impostor, porque fez isto, porque se apresenta de determinada maneira… tais condições de referencia constituem, não a compreensão, mas a intensão do conceito/função”, parafraseando aqui Deleuze.

2 de Janeiro de 2010 16:38

mecanosfera disse…

Posso referir por exemplo um livro brilhante como “Continental Philosophy” onde isto é feito com grande rigor e proveito para o debate, outros, como as de Sokal (e as que vejo o sr utilizar) que são apenas demonstração de incompetência e preconceitos, não ficando atrás da utilização do termo “pretos” da parte de xenófobos.

Achamos natural o ressentimento dos que tentam ler Herberto Helder e, com poucos hábitos de leitura de poesia, muito menos de debate de teoria da literatura, “não percebem” nada nem ali vêm “qualquer valor”: “isto até dizia eu”. Achamos natural o azedume dos que não apreciam “Picasso” e, com poucos hábitos de visita a museus, muito menos de reflexão sobre estética no campo das artes plásticas, enchem os museus com os seus comentários depreciativos “isto até eu fazia”. Conhecemos a antipatia a Ligeti como a Albert Ayler: assim eu compunha.

Tudo que nos surge como difícil e frustra inicialmente a nossa capacidade de entendimento tende a despertar em nós este tipo de ressentimento que nos protege de, com ele, aceitar as nossas próprias limitações. A minha avó contava-me a história da raposa e das uvas verdes … hoje agradeço-lhe porque rara foi a área onde a frustração momentânea não foi substituída por um grande prazer quando tudo se fez claro e distinto, elevando a minha potência de pensar, de agir, de sentir.

É também comum vermos pessoas que nada compreendem (e por isso em nada apreciam) a Arte moderna e contemporânea chamar-lhe de forma homogeneizante de “Piscassadas”. Ouvimos isto e está tudo dito…

Agradecia-lhe que se juntasse ao combate de todos os preconceitos escondidos nos termos mais banais, alojados nos discursos mais desinteressados. Seria também benéfico para todos que promovesse a leitura de todos os autores, aqueles que nos são simpáticos, sem duvida, mas igualmente aqueles que mais repudiamos mas encontrar os seus defensores legitimados na academia e por isso, interlocutores a respeitar. Para perceber o que pretendo dizer, com um exemplo, estou neste momento a ler Carl Schmitt!!! Poderosos! Perigosíssimo!!! A não perder se queremos estar à altura do pior!

Obrigado pela atenção
Rui

2 de Janeiro de 2010 16:39

mecanosfera disse…

Recomendação como alternativa positiva (a ler de forma critica, obviamente), da utilização da variável “Continental”:
“Continental Philosophy – a Contemporary Introduction” de Andrew Cutrofello
Routledge Contemporary Introduction to Philosophy
2005

2 de Janeiro de 2010 17:43

mecanosfera disse…

peço desculpas pelas gralhas e, obviamente, as limitações pessoais.

Uma gralha, particularmente, por copy-paste, truncou seriamente ao interesse da argumentação L Reponho:

“Pessoalmente, a leitura e o estudo dos autores ligados ao campo da Fenomenologia, de Husserl a Heidegger, de Sartre a Ponty, de Ricouer a Gadamer, de Jaspers a Arendt, como ao campo da Teoria Critica, de Adorno a Benjamim, de Habermas s Marcuse (etc etc), são imprescindíveis como o são igualmente os trabalhos no campo do estruturalismo, de Levy Straus a Althuser, de Barthes a Lacan e de um construtivismo genético de Deleuze, em certo sentido paralelo aos desconstrutivismo de Derrida, que só por ignorância são interpretado a partir de uma critica de Heidegger mais do que de Saussure e de Freud e nunca chegando a compreender-se a inovadora centralidade dada á génese ideal da Diferença, antes que possamos falar de Fenomenologos ou Analíticos. Os trabalhos no campo da cibernética, na linha de Turing e Von Neumann como da teoria sistémica, na linha de Luhman contém igualmente contributos incontornáveis, quer nos campos da reflexão epistemológica como prática, colocando-nos também, profundamente, a questão do ôntico e do ontológico, da poiesis e da praxis.

Tudo isto é o sec. XX e tudo nele é preciso, mesmo que amalgamado nos pólos analítico-continental, se pretendemos realmente ultrapassar a ilusão que identificamos em ambos (deixo aqui de lado a argumentação sobre a possibilidade desta “desmistificação” limitando-me a apontar o quanto pode ser erróneo o saco “continental”). Porque utilizar uma unidade que parece conotar descrições geográficas para a contrapor a uma que parece conotar descrições metodológicas? Falta de rigor na descrição das variáveis independentes? O sr. prof. não está desperto para as aberrações que é comum encontrar neste momento crítico da argumentação?”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: