“Território” em Deleuze (e Kant, e…) – n é “espacial” mas uma “Geografia da Razão”… aiaiai…

Território não é referente a “espaço” mas a uma “Geografia da razão”

“Para acabar de vez com algumas “confusões” que por ai se lê sobre o “territorio” e a “desterritorialização” (e o “nomadismo”) em Deleuze, remetendo-o para o “espacial” e não propriamente para uma “geografia da Razão” como a vemos já traçada em Kant, explicitamente na introdução da “Critica da Faculdade do Juízo”.

Lemos imensos absurdos por aí em redor do termo “território”,  “territorialização”, e “desterritorialização”, o mais comum sendo o de se ficar por uma atitude dogmática (pré-critica) e considerar que Deleuze se refere ao “espaço exterior” (mesmo q isto seria um sinal de q é um pensador do “espaço” em contraposição ao “tempo”!! Deleuze… o “bergsoniano”… o “construtivista” :O  o pensador do processo…) e os piores casos sendo mesmo os que aí encontram apenas uma “selvagem criação de conceitos”.

É importante perceber que Deleuze trabalha no interior dos sistemas filosóficos herdados, onde a inovação se desenvolve no seio de uma tradição que se deve aprender a dominar para subverter…

Deleuze & Guattari deixam claro o que “pretende” por ex.
“O que é a Filosofia” – sub cap “geofilosofia” nota 15 (trad brasileira):

“(15)  Devemo-nos remeter às primeiras linhas do prefácio da primeira edição da Crítica da Razão pura (KANT):

O terreno onde se travam os combates se chama a Metafísica

No início, sob o reino dos dogmáticos,
seu poder era despótico.
Mas, como sua legislação levava ainda a marca da antiga barbárie,
esta metafísica cai pouco a pouco, em conseqüência de guerras intestinas,
numa completa anarquia,

e os céticos,
espécies de nômades
que têm horror de se estabelecer definitivamente sobre uma terra,
rompiam, de tempos em tempos, o liame social.
Todavia, como não eram felizmente senão um pequeno número,
eles não puderam impedir seus adversários de tentar sempre novamente,
mas de resto sem nenhum plano entre eles previamente concertado,
restabelecer este liame quebrado…”.

E sobre a ilha da fundação,o
grande texto da “Analítica dos princípios”
,
no começo do capítulo III.

As Críticas não compõem somente uma “história”,
mas sobretudo uma geografia da Razão,
segundo a qual se distingue
um “campo“,
um “território
e um “domínio” do conceito

(Crítica do juízo, introdução, § 2).

Jean-Clet Martin fez uma bela análise desta geografia da Razão pura em Kant:
Variations, no prelo.”

Há que respeitar a "maquina abstracta" ... e que "máquina incrivel"

Vejamos o que diz EXACTAMENTE Kant na Crítica do juízo, introdução, § 2, em pt depois em uk (clicar para fazer o download e confirmar-se:

Em Português aqui (um pouco mais extenso… para incluir o “teórico” e o “prático” aos interessados😉

II. Do domínio da Filosofia em geral

O uso da nossa faculdade de conhecimento
segundo princípios,
assim como a Filosofia,
vão tão longe quão longe for
a aplicação de conceitos *a priori*. :,

Contudo a globalidade de todos os objectos
a que estão ligados aqueles conceitos,
para constituir, onde tal fôr possível,
um conhecimento desses objectos,
só pode ser dividida,
segundo a diferente suficiência ou insuficiência das nossas faculdades,
no que respeita a esse objectivo.

Os conceitos,
na medida em que podem ser relacionados com os seus objectos
e independentemente de saber se é ou não possível
um conhecimento dos mesmos,
têm o seu campo <Feld>,
o qual é determinado simplesmente
segundo a relação que possui
o seu objecto
com a nossa faculdade de conhecimento.

A parte deste campo,
em que para nós é possível um conhecimento,
é um território <boden> (*territorium*)
para estes conceitos
e para a faculdade de conhecimento correspondente.

A parte desse campo
a que eles ditam as suas leis,
é o domínio <ebiet*> (*ditio*)
destes conceitos e das faculdades de conhecimento que lhes cabem.

Por isso conceitos de experiência possuem na verdade o seu território na natureza, (XVII)
enquanto globalidade de todos os objectos dos sentidos,
mas não possuem qualquer domínio
(pelo contráriosomente o seu domicílio <aupenthalt>(*domicilium*),
porque realmente são produzidos por uma legislação,
mas não são legisladores,
sendo empíricas,
e por conseguinte contingentes,
as regras que sobre eles se fundam.

Toda a nossa faculdade de conhecimento
possui dois domínios,

o dos conceitos de natureza
e o do conceito de liberdade;

na verdade, nos dois, ela é legisladora *a priori*.

Ora de acordo com isto, também a Filosofia se divide
em teórica
e prática,

mas o território em que o seu domínio
é erigido e a sua legislação *exercida*,

é sempre só a globalidade dos objectos de toda a experiência possível,

na medida em que forem tomados simplesmente
como simples fenómenos;
é que sem isso não poderia ser pensada qualquer
legislação do entendimento
relativamente àqueles.

A legislação mediante
conceitos da natureza
ocorre mediante o entendimento
e é teórica.

A legislação mediante
o conceito de liberdade
acontece pela razão
e é simplesmente prática.

Apenas no plano prático :<*im Praktischen>,
pode a razão ser legisladora;

a respeito do conhecimento teórico (da natureza)
ela somente pode retirar conclusões,
através de inferências,
a partir de leis dadas
(enquanto tomando conhecimento de leis
diante o entendimento),
conclusões que porém permanecem circunscritas à natureza.

Mas ao invés, onde as regras são práticas,
não é por isso que imediatamente _oXVIII a razão passa a ser *legisladora*,
porque aquelas também podem ser práticas
de um ponto de vista técnico.

A razão e o entendimento possuem por isso duas legislações diferentes
num e mesmo território da experiência,
sem que seja permitido a uma interferir na outra.

Na verdade o conceito da natureza

tem tão pouca influência sobre a legislação
mediante o conceito de liberdade,
quão pouco este perturba a legislação da natureza.

A Crítica da Razão Pura
demonstrou a possibilidade de pensar,
ao menos sem contradição,
a convivência de ambas as legislações
e das faculdades que lhes pertencem no mesmo sujeito,
na medida em que eliminou as objecções que aí se levantavam,
pela descoberta nelas da aparência dialéctica.

Mas o facto destes dois diferentes domínios
— que, na verdade, não na sua legislação,
porém nos seus efeitos,
se limitam permanentemente ao mundo sensível
— não constituírem *um só*,

tem origem em que na verdade

o conceito de natureza
representa os seus objectos na intuição,
não como coisas em si mesmas,
mas na qualidade de simples fenómenos;

em contrapartida o conceito de liberdade
representa no seu objecto uma coisa em si mesma,
mas não na intuição.

Por conseguinte nenhuma das duas
pode fornecer um conhecimento teórico
do seu objecto (e até do sujeito pensante)
como coisa-em- si,
o que seria o supra-sensível,
cuja ideia na verdade se tem que colocar na base de todos aqueles objectos da experiência, não se podendo todavia nunca elevá-la e alargá-la a um conhecimento.

Existe por isso um campo ilimitado, mas também inacessível para o conjunto da nossa faculdade de conhecimento, nomeadamente o campo do supra-sensível, no qual não encontramos para nós qualquer território e no :, qual por isso, nem para os conceitos do entendimento, nem da razão possuímos um domínio para o
conhecimento teórico.

Um campo
que na verdade temos que ocupar
com ideias em favor do uso da razão,
tanto teórico,
como prático,
mas às quais contudo não podemos,
no que respeita às leis provenientes do conceito de liberdade,
fornecer nenhuma outra realidade
que não seja prática,
pelo que assim o nosso conhecimento teórico
não é alargado no mínimo em direcção ao supra-sensível.

Ainda que na verdade subsista um abismo intransponível

entre o domínio do conceito de natureza,
enquanto sensível,

e o do conceito de liberdade,
como supra-sensível,

de tal modo que nenhuma passagem é possível
do primeiro para o segundo

(por isso mediante o uso teórico da razão),

como se se tratassem de outros tantos mundos diferentes,

em que o primeiro
não pode ter qualquer influência
no segundo,

contudo este último
*deve* ter uma influência
sobre aquele,

isto é o conceito de liberdade
deve (a) tornar efectivo no mundo dos sentidos
o fim colocado pelas suas leis

e a natureza
em consequência
tem que ser pensada de tal modo
que a conformidade a leis da sua forma
concorde pelo menos
com a possibilidade dos fins
que nela actuam segundo leis da liberdade. —

Mas por isso tem que existir
um fundamento da *unidade* do supra-sensível
que esteja na base da natureza,
com aquilo que o conceito de liberdade
contém de modo prático
e ainda que o conceito desse fundamento não consiga,
nem de um ponto de vista teórico,
nem de um ponto de vista prático,
um conhecimento deste e por conseguinte
não possua qualquer domínio específico,
mesmo assim torna possível
a passagem da maneira de pensar
segundo os princípios
de um para a maneira de pensar
segundo os princípios de outro.

http://www.4shared.com/dir/4077405/b0c6b66a/Kant.html

http://www.4shared.com/get/r9nkGU5N/Kant_-_Crtica_da_Faculdade_do_.html

 

Kant’s “Critical of Judgment”, Introduction §2

“Concepts, so far as they are referred to objects apart from the
question of whether knowledge of them is possible or not, have their
FIELD, which is determined simply by the relation in which their
object stands to our faculty of cognition in general.

The part of this —field-– in which knowledge is possible for us is a TERRITORY
(territorium) for these concepts and the requisite cognitive
faculty.

The part of the —territory— over which they exercise
legislative authority is the REALM (ditio) of these concepts, and
their appropriate cognitive faculty.(–LAT. domain)

Empirical concepts have, therefore,
their TERRITORY,
doubtless, in nature as the complex of all sensible objects,
but they have no REALM
(only a dwelling-place, —- domicilium —-),
for, although they are formed according to law, they are not themselves legislative, but the rules founded on them are empirical and, consequently, contingent.

Our entire faculty of cognition has two REALMS,
that of NATURAL concepts
and that of the concept of FREEDOM,

for through both it prescribes laws a priori.
In accordance with this distinction, then,
philosophy is divisible into
theoretical and practical.

But the
TERRITORY upon which its REALM is established,
and over which it exercises its legislative authority,
is still always confined to the
complex of the objects of all possible experience,
taken as no more than mere phenomena,
for otherwise legislation by the understanding in respect of them is unthinkable. ”

Realms C Territory C Field 😉
Translators must know this word by word😉 it belongs to the “text”😉
Em português, na edição da Casa da Moeda, António Marques e Valério Rohden optam pelos termos:

(Domicilio (<Aufethalt>) … Dominio <Gebiet> (ditio) C Territótio <Bolden> (territorium) C Campo <Feld> 

p. 54

(XVII)

http://www.class.uidaho.edu/mickelsen/texts/Kant%20Crit%20Judgment.txt

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