A Filosofia Politica em Foucault e “5 questões de Método”

Foucault "Em defesa da sociedade" demarcando-se de esquemas contrato-opressão como conflito-repressão

“Em defesa da sociedade”. Se, como descreveu Deleuze, Foucault passa por 3 fases (Saber-Poder-Subjectivação), este é sem dúvida um momento charneira entre o segundo e o terceiro momento do seu pensamento ;)

Foucault “Em defesa da sociedade” ; Aula 7 de Janeiro de 1976
p.24
“(…) Poderíamos pois contrapor 2 grandes sistemas de análise do poder:

1) Um, que seria ao velho sistema que vocês encontram nos filósofos do sec XVIII, se articularia 3m torno do poder como direito original que se cede , constitutivo da soberania, e tendo o CONTRATO como matriz do poder politico. E haveria o risco desse poder assim constituído, quando ultrapassa a si mesmo, ou seja, quando vai além dos próprios termos do contrato, torna-se opressão. PODER-CONTRATO, tendo como limite, ou melhor, como ultrapassagem, d limite, a opressão.

2) E vocês teriam outro sistema, que tentaria, pelo contrário, analisar o poder político não mais de acordo com o esquema contrato-opressão, mas de acordo com o esquema GERRA-REPRESSÂO. E, nesse momento, a repressão não é o que era a opressão em relação ao contrato, ou seja, um abuso, mas ao contrário, o simples efeito e o simples prosseguimento de uma relação de dominação. A repressão nada mais seria que o emprego, no interior dessa pseudopaz solapada por uma guerra contínua, de uma relação de força perpétua.

Portanto, 2 esquemas de análise do poder: o esquema CONTRATO-opressão, 2ue é, se vocês preferirem, o esquema jurídico, e o esquema GUERRA-repressão, ou dominação-repressão, no qual a oposição pertinente não é a do legítimo e do ilegítimo, como no esquema precedente, mas a oposição entre luta e submissão.

É evidente que tudo que eu lhes disse ao longo dos anos anteriores se insere do lado do esquema GUERRA-repressão. Foi este esquema que, de fato, eu tentei aplicar.”

(…)

‎” Ora, à medida que eu o aplicava (o esquema GUERRA-repressão), fui levado mesmo assim a RECONSIDERA-LO; ao mesmo tempo, claro, porque numa porção de pontos ele ainda está insuficientemente elaborado – eu diria mesmo que está totalmente inelaborado – e também creio que as duas noções de “repressão” e de “guerra”, devem ser consideravelmente modificadas, quando não, talvez, no limite, ABANDONADAS.

Em todo o caso, é preciso olhar um pouco mais de perto a hipótese de que os mecanismos de poder seriam essencialmente mecanismo de repressão, e a outra hipótese de que, sob o poder político, o que paira e o que funciona, é essencialmente e acima de tudo uma relação belicosa.

Acho, e não digo isto para me gabar, que já faz bastante tempo que desconfio dessa noção de “repressão”, e tentei mostrar-lhes, justamente a propósito das genealogias de que eu falava agora há pouco, a propósito da história e do direito penal, do poder psiquiátrico, do controle da sexualidade infantil, etc. que os mecanismos empregues nessas formações de poder ERAM ALGO MUITO DIFERENTE da repressão; em todo o caso, eram bem mais do que ela. Por conseguinte, as próximas aulas serão dedicadas à retomada da crítica da noção de REPRESSÃO, de tão corrente hoje em dia, para caracterizar os mecanismos e os efeitos de poder, é totalmente INSUFICIENTE para demarcá-los.”

Aula 14 de Janeiro de 1976 p.32
“(cinco) Precauções de método;
1) Primeiro, não se trata de analisar formas regulamentadas e legitimas do poder no seu centro, no que podem ser os seus mecanismos gerais ou seus efeitos de conjunto. Trata-se de… apreender, AO CONTRÁRIO, o poder em suas EXTERMIDADES, em seus últimos lineamentos, onde ele se torna capilar; ou seja: tomar o poder em suas formas e suas instituições mais regionais, mais LOCAIS, sobretudo no ponto em que o poder, indo além das regras de direito que o organizam e o delimitam, se prolonga, em consequência, mais além dessas regras, investe-se em instituições, consolida-se em técnicas e fornece instrumentos de intervenção materiais, eventualmente até violentos.

Um exemplo: em vez de se procurar saber onde e como na soberania, tal como ela é apresentada pela filosofia , seja do direito monárquico, seja do direito democrático, se fundamenta no poder de punir, tentei ver como, efectivamente, a punição, o poder de punir se consolidava num certo número de instituições LOCAIS, regionais, materiais, seja o suplicio ou o aprisionamento, e isto num mundo a um só tempo institucional, , físico, regulamentar e violento dos aparelhos efectivos de punição. Em outras palavras, apreender o poder sob o aspecto de EXTERMIDADES cada vez menos jurídicas de seu exercício: era a primeira instrução dada”

p. 33
2) Segunda instrução: tratava-se de NÃO analisar o poder no nível da intenção ou da decisão, de não procurar considera-lo do LADO DE DENTRO, de não formular a questão (que acho labiríntica e sem saída) que consiste em dizer: quem tem o… poder afinal? O que tem na cabeça e o que procura aquele que tem o poder?
Mas sim de estudar o poder, AO CONTRÁRIO, do lado em que sua intenção – se intenção houver – está inteiramente concentrada no INTERIOR DE PRÁTICAS REAIS e efectivas; estudar o poder de certo modo, do lado de sua FACE EXTERNA, no ponto em que ele está em relação directa e imediata com o que se pode denominar, muito provisoriamente, , seu objecto, seu alvo, seu campo de aplicação, no ponto , em outras palavras, em que ele se implanta e produz EFEITOS REAIS.
Portanto NÃO: por que certas pessoas querem dominar? O que elas procuram, Qual a sua estratégia de conjunto?
E SIM: como as coisas ACONTECEM no momento mesmo. No nível, no PROCEDIMENTO de sujeição, ou nesses PROCESSOS contínuos e ininterruptos que sujeitam os corpos, dirigem os gestos, regem os comportamentos.
Em outros termos, em vez de se perguntar como o soberano aparece no alto, procurar saber como se constituíram, pouco a pouco, progressivamente, realmente, materialmente, os súbditos, o súbdito, a partir da multiplicação dos corpos, das forças, das energias, das matérias, dos desejos, dos pensamentos, etc. (…) Pois bem, em vez de formular esse problema da alma central (Alma do Leviata em Hobbes), eu acho que conviria tentar – eu tentei fazer – estudar os corpos periféricos e múltiplos, esses corpos constituídos pelos efeitos de poder, como súbditos.”

p.34
3) Terceira precaução de método: NÃO tomar o poder como fenómeno de dominação maciço e homogéneo – dominação de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre outros, de uma classe sobre outras; ter em mente que o poder, excepto ao considera-lo muito alto e de muito longe, não é algo que partilhe entre aqueles que o têm e que o detêm exclusivamente, e aqueles que não têm e que são submetidos a ele.
O poder, acho eu, deve ser analisado como uma coisa que CIRCULA, ou melhor, uma coisa que só FUNCIONA em cadeia. JAMAIS está LOCALIZADO aqui ou ali, jamais está entre as mãos de alguns, jamais é possuído como uma riqueza ou um bem. O PODER FUNCIONA. O poder exerce-se em rede e, nessa rede, não só os indivíduos circulam, mas estão sempre em posição de ser submetidos a esse poder e também de exerce-lo. JAMAIS eles são alvos inertes ou consentidos do poder, são sempre seus INTERMEDIÀRIOS. Em outras palras, o poder transita pelos indivíduos, não se aplica a eles.

NÃO SE DEVE, acho eu, conceber o individuo como uma espécie de núcleo elementar, átomo primitivo, matéria múltipla e muda na qual viria aplicar-se, contra a qual se viria abater o poder, que submeteria os indivíduos ou os quebraria. Na realidade, O QUE FAZ que um corpo, gestos, discursos, desejos sejam identificados e constituídos como INDIVIDUOS, é precisamente isso um dos efeitos do poder. Quer dizer, O INDIVIDUO É UM EFEITO DO PODER e é, ao mesmo tempo, na mesma medida em que é um efeito seu, seu intermediário: o poder transita pelo indivíduo que ele constituiu.”

p. 36
“4) Quarta consequência no plano das precauções de método: quando eu digo: quando eu digo: “o poder é algo que se exerce, que circula, que forma rede”, talvez seja verdade até certo ponto. Podemos igualmente dizer: “todo…s nós temos fascismo na cabeça e, mais fundamentalmente ainda; “todos nós temos o poder no corpo”. E o poder  pelo menos em certa medida, transita ou transmuta por nosso corpo. Tudo isto pode ser dito; mas não creio que seja preciso concluir, a partir daí, que o poder seria, se vocês quiserem, a coisa mais bem distribuída do mundo, a mais distribuída, se bem que até certo ponto ele o seja. Não é uma espécie de distribuição democrática ou anárquica do poder através do corpo. Quero dizer o seguinte: parece-me que – essa seria a 4 precaução do método – o importante é que não se deve fazer uma espécie de dedução do poder que partiria do centro e que tentaria ver até onde ele se prolonga por baixo, em que medida ele se reproduz, se reconduz até aos elementos mais atomísticos da sociedade. Creio que, ao CONTRÁRIO- é a precaução do método a seguir – fazer uma análise ASCENDENTE do poder, ou seja, partir dos mecanismos infinitesimais, os quais têm sua própria história, seu próprio trajecto, sua própria técnica e táctica, e depôs ver como esses mecanismo de poder, que têm, pois sua solidez e, de certo modo, sua tecnologia própria, foram e ainda são investidos, colonizados, utilizados, inflectidos, transformados, deslocados, estendidos, etc. por mecanismos cada vez mais gerais e por formas de dominação global.”

p. 40
(…) 5) Quinta precaução: é bem possível que as grandes máquinas de poder sejam acompanhadas de produção ideológica. Houve sem dúvida, por exemplo, uma ideologia da educação, uma ideologia do poder monárquico, uma ideologia da democracia p…parlamentar, etc. Mas, na base, no ponto em que terminam as redes de poder, o que se forma não acho que sejam ideologias.

É muito menos e, acho eu, muito mais.

São instrumentos efectivos de formação e de acúmulo de saber, são métodos de observação, técnicas de registo, procedimentos de investigação e de pesquisa, são aparelhos de verificação. Isto quer dizer que o poder, quando se exerce em seus mecanismos finos, não pode faze-lo sem a formação, a organização e em pôr em circulação um SABER, ou melhor, aparelhos de saber que não são acompanhamentos ideológicos.”

p.40 “Para resumir essas 5 precauções de método, eu diria isto: em vez de orientar a pesquisa sobre o poder para o âmbito do edifício jurídico da soberania, para o âmbito dos aparelhos do Estado, para o âmbito das ideologias que os acompanham,
creio que se deve orientar a análise do poder para
o âmbito da dominação (não da soberania), para o âmbito dos operadores materiais, para o âmbito das conexões e utilizações dos sistemas locais dessa sujeição e para o âmbito, enfim, dos dispositivos de saber.

Em suma, é preciso desenvencilhar-se do modelo do Leviatã, desse modelo de um homem artificial, a um só tempo autómato, fabricado e unitário igualmente, que envolveria todos os indivíduos reais, e cujo corpo seriam os cidadãos, mas cuja alma seria a soberania.

É preciso estudar o poder fora do Leviatã, fora do campo delimitado pela soberania jurídica e pela instituição do estado; trata-se de analisa-lo a partir das técnicas e tácticas de dominação.

Eis a linha metódica que, acho eu, se deve seguir, e que tentei seguir nessas diferentes pesquisas que realizamos nos anos anteriores a propósito do poder psiquiátrico, da sexualidade das crianças, do sistema punitivo, etc.”

espero q tenhas ficado perfeitamente elucidado sobre o lugar de Foucault e o que teria respondido “àquilo q alguns lhe apontam sobre adoptar um posicionamento em geral neutro e tal”…

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