A Idéia como instância problemática

Kant não pára de lembrar que as Ideias são essencialmente “problemáticas”.

Inversamente, os problemas são as próprias Ideias.
Sem dúvida, ele mostra que as Ideias nos precipitam em falsos problemas.

Mas esta característica não é a mais profunda:
se a razão, segundo Kant, coloca falsos problemas em particular,
carregando, portanto, a ilusão em seu seio,
é porque ela é, em primeiro lugar, faculdade de colocar problemas em geral.

Uma tal faculdade, tomada em seu estado de natureza,
não tem ainda o meio de distinguir o que há de verdadeiro ou de falso,
o que é ou não fundado num problema que ela coloca.

Mas a operação crítica tem precisamente a finalidade de lhe dar este meio:

“A Crítica não tem de se ocupar com objetos da razão,
mas com a própria razão ou com os problemas que saem de seu seio”1

Aprender-se-á que os falsos problemas estão ligados a um uso ilegítimo da Idéia.

Disto resulta que nem todo problema é falso:

as Ideias, em conformidade com sua natureza crítica bem compreendida,
têm um uso perfeitamente legítimo, chamado “regulador“,
segundo o qual elas constituem verdadeiros problemas ou colocam problemas bem fundados.

Eis por que regulador significa problemático.
As Idéias, por si mesmas, são problemáticas, problematizantes

– e Kant, apesar de alguns textos em que assimila os termos,
esforça-se por mostrar a diferença entre “problemático”, de um lado,
e, por outro lado, “hipotético”, “fictício”, “geral” ou “abstrato”.

Em que sentido, pois,
a razão kantiana, como faculdade das Idéias,
coloca ou constitui problemas?

É que só ela é capaz de reunir num todo
os passos do entendimento concernentes a um conjunto de objetos.2

Por si mesmo, o entendimento permaneceria mergulhado em procedimentos parcelados,
prisioneiro de interrogações ou de pesquisas empíricas parciais sobre este ou aquele objeto,
mas nunca se elevaria até a concepção de um “problema
capaz de dar a todos os seus procedimentos uma unidade sistemática.

Sozinho, o entendimento obteria resultados ou respostas aqui e ali,
mas estas nunca constituiriam uma “solução“,
pois toda solução supõe um problema,

isto é,

a constituição de um campo sistemático unitário
orientando e subsumindo as pesquisas ou as interrogações,
de tal maneira que as respostas, por sua vez, formam precisamente casos de solução.

Acontece a Kant dizer que as Idéias são “problemas sem solução”.

Ele quer dizer

não que as Ideias sejam necessariamente falsos problemas, logo insolúveis,

mas, ao contrário,

que os verdadeiros problemas são Idéias
e que estas Idéias não são suprimidas por “suas” soluções,
pois são a condição indispensável sem a qual nenhuma solução jamais existiria.

A Idéia só tem uso legítimo quando referida aos conceitos do entendimento;

mas, inversamente,
os conceitos do entendimento só encontram o fundamento de seu pleno uso experimental (máximo)

na medida em que são referidos às Idéias problemáticas,

seja organizando-se sobre linhas  que convergem para um foco ideal fora da experiência,
seja refletindo-se  sobre o fundo de um horizonte superior que abarca todos eles3

Tais focos,
tais horizontes,
são as Idéias, isto é, os problemas enquanto tais,
em sua natureza ao mesmo tempo imanente e transcendente.

Os problemas têm um valor objetivo,
as Ideias têm de algum modo um objeto.

“Problemático”

não significa somente uma espécie particularmente importante de atos subjetivos,
mas uma dimensão da objetividade como tal, investida por estes atos.

Um objeto fora da experiência só pode ser representado sob uma forma problemática,
o que não significa que a Idéia não tenha objeto real,

mas que o problema como problema é o objeto real da Ideia.

O objeto da Idéia, lembra Kant,

não é uma ficção, nem uma hipótese,
nem um ser de razão:

é um objeto que não pode ser dado nem conhecido,
mas que deve ser representado sem que se possa determiná-lo diretamente.

Kant gosta de dizer que a Idéia como problema tem um valor ao mesmo tempo

objetivo
e indeterminado.

O indeterminado
não é uma simples imperfeição em nosso conhecimento,
nem uma falta no objeto;

é uma estrutura objetiva, perfeitamente positiva,
agindo já na percepção como horizonte ou foco.

Com efeito, o objeto indeterminado, o objeto em Idéia,
serve-nos para representar outros objetos (os da experiência),
aos quais ele confere um máximo de unidade sistemática.

A Idéia não sistematizaria os procedimentos formais do entendimento
se o objeto não conferisse aos fenômenos uma unidade semelhante do ponto de vista de sua matéria.

Mas, assim, o indeterminado
é só o primeiro momento objetivo da Ideia,

pois, por outro lado,
o objeto da Idéia se torna indirectamente determinável:
ele é determinável

por analogia com estes objetos da experiência
aos quais ele confere a unidade,
mas que lhe propõem, em troca, uma determinação “análoga” às relações que eles mantêm entre si.

Finalmente, o objeto da Idéia traz consigo o ideal de uma determinação completa infinita,
pois ele assegura uma especificação dos conceitos do entendimento
pela qual estes compreendem cada vez mais diferenças,
dispondo de um campo de continuidade propriamente infinito.

1) indeterminado,
2) determinável
3) e determinação:

a DIFERENÇA

A Idéia apresenta, portanto, três momentos:

1)     INDETERMINADA em SEU objecto (((RAZÃO))),
2)     DETERMINÁVEL em relação aos objetos da EXPERIÊNCIA,
3)     contendo o ideal de uma DETERMINAÇÃO infinita em relação aos conceitos do ENTENDIMENTO.

É evidente que a Idéia retoma aqui os três aspectos do Cogito:

o Eu sou, como existência indeterminada;
o tempo, como forma sob a qual esta existência é determinável;
o Eu penso, como determinação.

As Ideias são exactamente os pensamentos do Cogito,
as diferenciais do pensamento.

E assim como o Cogito remete a um Eu rachado,
rachado de um extremo a outro
pela forma do tempo que o atravessa,
é preciso dizer das Idéias que elas formigam na rachadura,

que elas emergem constantemente nas bordas dessa rachadura,
saindo e entrando sem parar, compondo-se de mil maneiras.

Além disso, não se trata de preencher o que não pode ser preenchido.

Mas, assim como a diferença reúne e articula imediatamente o que ela distingue,
a rachadura retém o que ela racha,
as Idéias também contêm seus momentos dilacerados.

É próprio da Idéia interiorizar rachaduras e seus habitantes, suas formigas.

Não há na Idéia qualquer identificação ou confusão,
mas uma UNIDADE OBJETIVA PROBLEMÁTICA INTERNA

do indeterminado,
do determinável
e da determinação.

É o que talvez não apareça suficientemente em Kant:

dois dos três momentos, segundo ele,
têm características extrínsecas

(se a Idéia é em si mesma indeterminada,
ela só é determinável em relação aos objetos da experiência
e só contém o ideal de determinação em relação aos conceitos do entendimento).

Ainda mais, Kant encarnava estes momentos em Idéias distintas:

o Eu é sobretudo indeterminado,
o Mundo é determinável
e Deus é o ideal da determinação.

Talvez seja necessário procurar aí as verdadeiras razões pelas quais Kant,
como os pós-kantianos o criticaram, se atém ao ponto de vista do condicionamento,
sem atingir o da gênese.

E se o erro do dogmatismo é sempre preencher o que separa,
o do empirismo é deixar exterior o separado;

neste sentido,

ainda há empirismo demais na Crítica
(e dogmatismo demais nos pós-kantianos).

O horizonte ou o foco,
o ponto “crítico”
em que a diferença, como diferença,
exerce a função de reunir,
ainda não é assinalado.

1 KANT, Critique de la raison pure, préface de la 2e Éditions (tr. BARNI, Gilbert éd., I, pp. 24-25):
“A razão pura especulativa tem de particular que ela pode e deve estimar exatamente sua própria potência,
segundo as diversas maneiras pelas quais ela escolhe para si os objetos de seu pensamento,
e mesmo fazer uma enumeração completa de todos os seus modos diferentes de se colocar problemas… ”
[é a pag 21 ou 22 da ed. Da Gulbenkian]

2 Id., Des Idées transcendantales, I, p. 306. (muito muito muito recomendável😉 são menos de 10 pag😉

3 As duas imagens encontram-se no Appendice à la dialectique, II, p.151 e p.160.

Com as etiquetas , , , , , , , , , , ,

2 thoughts on “A Idéia como instância problemática

  1. lucianobedin diz:

    fantástico, sou fã do mecanosfera!

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