EXPRESSÃO E DESIGNAÇÃO – O Sentido e o Verdadeiro

Os professores sabem muito bem que é raro
encontrar erros ou alguma coisa de falso nos “deveres”
(salvo nos exercícios em que é preciso traduzir proposição por proposição
ou então produzir um resultado fixo).

O que mais se encontra são não-sensos,
observações sem interesse e sem importância,
banalidades tomadas como dizeres relevantes,
confusão de “pontos” ordinários com pontos singulares,
problemas mal formulados ou desviados de seu sentido:
é este o pior e o mais freqüente, todavia cheio de ameaças, destino de todos nós.

Quando os matemáticos polemizam,
é de duvidar que um critique o outro
por ter-se enganado em seus resultados ou cálculos;

eles se criticam, antes de tudo,
por terem produzido um teorema insignificante,
um problema destituído de sentido.

Sexto postulado: o privilégio da designação

Cabe à Filosofia tirar as consequências disto.

O elemento do SENTIDO é bem reconhecido pela Filosofia,
tornou-se mesmo muito familiar.
Todavia, isto talvez não seja ainda suficiente.

Define-se o SENTIDO
como a condição do verdadeiro;
mas, como se supõe que
a condição guarde uma extensão maior que o condicionado,
o SENTIDO não funda a VERDADE

sem também tornar o erro possível.

Uma proposição falsa, portanto,
não deixa de continar sendo uma proposição dotada de sentido.

Quanto ao não-sentido,
ele seria o caráter daquilo que não pode ser nem verdadeiro nem falso.

Distinguem-se duas dimensões numa PROPOSIÇÃO:

a da EXPRESSÃO, de acordo com a qual a proposição enuncia,
EXPRIME alguma Coisa de ideal;
 
a da DESIGNAÇÃO, de acordo com a qual ela indica,
ela DESIGNA Objetos aos quais se aplica o enunciado ou o exprimido.

Uma seria a dimensão do SENTIDO,
a outra, a do VERDADEIRO e do FALSO.

Mas, assim, o SENTIDO não fundaria a verdade de uma proposição
sem permanecer indiferente ao que ele funda.

O VERDADEIRO e o FALSO seriam um caso de designação
(como diz Russell,
“a questão da verdade e da falsidade
concerne ao que os termos e os enunciados indicam,
não ao que eles exprimem“).

Encontramo-nos, então, numa estranha situação:
descobre-se o domínio do SENTIDO,
mas ele é remetido apenas

a um faro psicológico

ou a um formalismo lógico.

Sendo preciso, anexa-se aos valores clássicos do VERDADEIRO e do FALSO.
um novo valor,  o do não-sentido ou do absurdo.

Mas supõe-se que o VERDADEIRO e o FALSO

continuem a existir no mesmo estado que antes,
isto é, tais como eram, independentemente da condição que se lhes consigna
ou do novo valor que se lhes acrescenta.

Diz-se muito ou muito pouco:

muito,
porque a procura de um fundamento forma o essencial de uma “crítica”,
que deveria inspirar-nos novas maneiras de pensar;

muito pouco,
porque, enquanto o fundamento permanece maior que o fundado,
esta crítica serve somente para justificar as maneiras de pensar tradicionais.

Supõe-se que o VERDADEIRO e o FALSO permaneçam não afetados pela condição
que só funda um tornando o outro possível.

Remetendo o VERDADEIRO e o FALSO à relação de DESIGNAÇÃO na proposição,
damo-nos um sexto postulado, postulado da proposição ou da DESIGNAÇÃO
postulado que recolhe os precedentes e se encadeia com eles
(a relação de DESIGNAÇÃO é apenas a forma lógica da recognição).

Sentido e proposição

De fato, a condição deve ser

condição da experiência real
e não condição da experiência possível.

Ela forma uma gênese intrínseca,
não um condicionamento extrínseco.

A verdade, sob todos os aspectos,
é caso de produção,
não de adequação.

Caso de genitalidade,
não de inatismo nem de reminiscência.

Não podemos acreditar que o fundado permaneça o mesmo,
o mesmo que ele era antes, quando não estava fundado,
quando não tinha atravessado a prova do fundamento.

Se a razão suficiente, se o fundamento é “dobrado”,
é porque ele refere o que ele funda a um verdadeiro sem-fundo.

É o caso de dizer: não o reconhecemos mais.

Fundar é metamorfosear.

O VERDADEIRO e o FALSO não concernem a uma simples DESIGNAÇÃO,
que o SENTIDO se contentaria em tornar possível, permanecendo-lhe indiferente.

A relação da proposição com o objeto que ela DESIGNA

deve ser estabelecida no próprio SENTIDO;
é próprio do SENTIDO ideal ultrapassar-se em direção ao objeto DESIGNADO.

A DESIGNAÇÃO nunca seria fundada se,
enquanto efetuada no caso de uma proposição VERDADEIRA,
não devesse ser pensada como o limite das séries genéticas
ou das ligações ideais que constituem o sentido.

Se o SENTIDO se ultrapassa em direção ao objeto,
estenão pode ser posto na realidade como exterior ao SENTIDO
mas apenas como o limite de seu processo.

E a relação da proposição com o que ela DESIGNA,
na medida em que esta relação é efetuada,
acha-se constituída na unidade do SENTIDO,
ao mesmo tempo que o objeto que a efetua.

Há apenas um caso em que o DESIGNADO vale por si
e permanece exterior ao SENTIDO:
é precisamente o caso das proposições singulares,
tomadas como exemplos,
arbitrariamente destacadas de seu contexto[1]

Mas como acreditar, ainda neste caso,
que exemplos escolares, pueris e artificiais

possam justificar esta imagem do pensamento?

Toda vez que uma proposição é recolocada no contexto do pensamento vivo,
evidencia-se que tem exatamente a VERDADE que merece de acordo com seu SENTIDO,
a FALSIDADE que lhe cabe de acordo com os NÃO-SENTIDOS que ela implica.

Do VERDADEIRO, temos sempre a parte que merecemos
de acordo com o SENTIDO do que dizemos.

O SENTIDO é a génese ou a produção do VERDADEIRO,
e a VERDADE é tão-somente o resultado empírico do SENTIDO.

Em todos os postulados da imagem dogmática,
reencontramos a mesma confusão,
que consiste em elevar ao transcendental uma simples figura do empírico,
deixando cair no empírico as verdadeiras estruturas do transcendental.

[1] Daí a atitude de, RUSSELL, que privilegia as proposições singulares: cf. sua polémica com CARNAP, em Signification et vérité (trad. DEVAUX, Flammarion), pp. 363-367.

Bertrand Russell – An Inquary Into Meaning And Truth

( p. 257 )

p.306 – 317

a) On Denoting

Bertrand Russell (1905)

B) “On Referring”

Peter Frederick Strawson (1950)

(também de ler nesta matéria)

Vagueness

Bertrand Russell (1923)

NOTA:
EXPRESSÃO = CONOTAÇÃO
DESIGNAÇÂO = DENOTAÇÃO/REFERÊNCIA

CONOTA DENOTA
EXPRESSA DESIGNA

Refere

Valor de Verdade

Termo Conceito

a= variável

x= Sócrates

y = humano

z= Unicornio

Objecto

(verificação empírica…

x= sócrates – Verdadeiro/Falso

Frase Proposição – f(a) –

Ex: f(a) = a é y

y= humano

x= Sócrates

f(x) = Sócrates é humano

Valor de Verdade

f(x) = verdade

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