SENTIDO E PROBLEMA

Ganhariamos alguma coisa exprimindo o SENTIDO sob a forma interrogativa
de preferência a uma infinitiva ou participial?
(“Deus é?”, de preferência a Deus-ser ou o ente de Deus) ?

À primeira vista, o ganho é pequeno.
Mas ele é pequeno porque uma interrogação é sempre calcada
sobre respostas passíveis de serem dadas,
sobre respostas prováveis ou possíveis.

Ela própria é, pois, o duplo neutralizado de uma proposição que se supõe preexistente,
que pode ou deve servir de resposta.

O orador põe toda sua arte na construção de interrogações
que estejam em conformidade com as respostas que ele quer suscitar,
isto é, com as proposições de que ele nos quer convencer.

E mesmo quando ignoramos a resposta,
nós apenas interrogamos supondo-a já dada,
preexistindo, de direito, numa outra consciência.

Eis por que a interrogação, de acordo com sua etimologia,
é sempre feita no quadro de uma comunidade:
interrogar implica não só um senso comum, mas um bom senso,
uma distribuição do saber e do dado em relação às consciências empíricas,
de acordo com suas situações, seus pontos de vista,
suas funções e suas competências,
de tal maneira que uma consciência é tida como já sabendo o que a outra ignora
(que horas são, você, que tem ou que está junto de um relógio.
Quando nasceu César? você, que conhece história romana).

Apesar desta imperfeição, a fórmula interrogativa não deixa de ter uma vantagem:

ao mesmo tempo em que nos convida a considerar a proposição correspondente como uma resposta,
ela nos abre uma nova via.

Uma proposição concebida como resposta
é sempre um caso particular de solução,
considerado por si mesmo abstratamente,
separado da síntese superior que o relacionaria,
juntamente com outros casos,
a um PROBLEMA enquanto PROBLEMA.

A interrogação, por sua vez, exprime, portanto,
a maneira pela qual um PROBLEMA é desmembrado, cunhado,
traído na experiência e pela consciência,
de acordo com seus casos de solução apreendidos como diversos.

Embora nos dê uma idéia insuficiente,
Ela nos inspira, assim, o pressentimento do que ela desmembra.

O SENTIDO está no próprio PROBLEMA.

O SENTIDO é constituído no tema complexo,
mas o tema complexo é o conjunto

de PROBLEMA e de questões

em relação ao qual as proposições
servem de elementos de resposta
e de casos de solução.

Todavia, esta definição exige que nos desembaracemos de uma ilusão
própria da imagem dogmática do pensamento:
é preciso parar de decalcar os PROBLEMAs e as questões

sobre proposições correspondentes,
que servem ou podem servir de respostas.

Nós sabemos qual é o agente da ilusão;
é a interrogação, que, nos quadros de uma comunidade,
desmembra os PROBLEMAs e as questões
e os reconstituem de acordo com proposições da consciência comum empírica,
isto é, de acordo com verossimilhanças de uma simples doxa.

Com isto, encontra-se comprometido o grande sonho lógico
de um cálculo dos PROBLEMAs
ou de uma combinatória.

Acreditou-se que o PROBLEMA e a questão
eram apenas a neutralização de uma proposição correspondente.

Como não acreditar, por conseguinte, que o tema ou o sentido é somente um duplo ineficaz,
calcado sobre o tipo das proposições que ele subsume,
ou mesmo sobre um elemento que se presume ser comum a toda proposição (a tese indicativa)?

Por não ver que o SENTIDO ou o PROBLEMA é extra-proposicional,
que ele difere, por natureza, de toda proposição,
perde-se o essencial,
a gênese do ato de pensar,
o uso das faculdades.

A dialética é a arte dos PROBLEMAs e das questões,
e a combinatória é o cálculo dos PROBLEMAs enquanto tais.

Mas a dialética perde seu poder próprio
e, então, começa a história de sua longa desnaturação,
que faz com que ela caia sob a potência do negativo
quando ela se contenta em decalcar os PROBLEMAs sobre as proposições.

Aristóteles escreve:
“Se se diz, por exemplo:
Animal-pedestre-bípede é a definição de homem, não é?
ou Animal é o gênero do homem, não é?,
obtém-se uma proposição;

se se diz, em compensação:
Animal-pedestre-bípede é ou não a definição do homem?,
eis aí um PROBLEMA.

E o mesmo acontece para as outras noções.

Disto resulta, bastante naturalmente,
que os PROBLEMAs e as proposições são em número igual,
pois é possível fazer de toda proposição um PROBLEMA,
mudando-se simplesmente a construção da frase”.

(Até nos lógicos contemporâneos encontra-se a marcha da ilusão.
O cálculo dos PROBLEMAs é apresentado como extramatemático;
o que é verdade, pois ele é essencialmente lógico, isto é, dialético;
mas ele é inferido de um simples cálculo das proposições,
sempre copiado, decalcado sobre as próprias proposições [3]

[3]
Cf. ARISTÓTELES, Tópicos, 1, 4, 101b, 30-35.

A mesma ilusão continua na Lógica moderna:
o cálculo dos PROBLEMAs, tal como é definido, notadamente por KOLMOGOROFF,
encontra-se ainda decalcado sobre
um cálculo das proposições, em “isomorfismo” com ele
(cf. Paulette DESTOUCHES-FÉVRIER,

Rapports entre le calcul des problèmes et le calcul des propositions, Comptes rendus des séances de l’Académie des Sciences, avril 1945).

Veremos que um empreendimento de “matemática sem negação”, como o de G. F. C. Griss,
encontra seu limite em função desta falsa concepção da categoria de PROBLEMA.

LEIBNIZ, ao contrário, pressente a distância variável, mas sempre profunda,
entre os PROBLEMAs ou os temas
e as proposições:
“Pode-se mesmo dizer que há temas que são intermediários entre uma idéia e uma proposição.
São as questões, dentre as quais existe as que apenas exigem sim e não,
que são as mais próximas das proposições.
Mas há também as que exigem o como e as circunstâncias etc., nas quais há mais a ser substituído para delas se fazer proposições”
(Novos ensaios sobre o entendimento humano, IV, cap. 1, § 2).

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